Fato um: as redes sociais estão destruindo nossa capacidade de atenção e nos treinando a ler textos curtíssimos. Fato dois: os brasileiros declaram ler cada vez menos livros. De outro lado, não param de nascer clubes de leitura de celebridades, e fenômenos como o #BookTok seguem impulsionando a venda de publicações para os jovens. Mas, afinal, a gente tá lendo mais, ou menos? A gente tá, sem dúvida, lendo diferente. Nas redes sociais, a linguagem que vale é a da conversa. Hoje, além de ler, comentamos, debatemos, reagimos e reinterpretamos ideias em tempo real. A comunicação ali deixou de ser apenas linear para se tornar coletiva, fragmentada e instantânea. Antes mesmo das redes, a linguagem escrita já estava mudando. Essa matéria do "The Times" mostra que os livros de hoje são feitos de frases mais curtas (e, portanto, mais fáceis) do que os do passado. A inteligência artificial adiciona uma nova camada a essa tendência, principalmente nos chats, onde a linguagem que reina é híbrida, mistura pensamento, recomendação algorítmica, conversa... e até link para compras. E o papel da palavra escrita na cultura contemporânea vai sendo redefinido. Voltando às redes, apontadas tantas vezes como inimigas da leitura: surpreendentemente, elas também vêm criando novos leitores. A comunidade #BookTok segue em alta e já soma mais de 77 milhões de publicações, transformando livros em fenômenos de engajamento digital. O movimento inspirou celebridades como Dua Lipa, Dakota Johnson e Oprah Winfrey a criarem seus próprios clubes do livro. Será que a leitura virou um luxo? Para as grandes maisons, sim. Pioneira, desde 2021 a Chanel promove, em parceria com Charlotte Casiraghi, embaixadora da marca, o Literary Rendezvous at Rue Cambon. Seguindo a trend "intelectual" do momento, a Miu Miu realizou recentemente o Literary Club no Circolo Filologico Milanese, uma das instituições culturais mais antigas de Milão, aproximando literatura, estilo e pequenos prazeres offline. No Brasil, adultos entre 18 e 34 anos impulsionaram o consumo de livros em 2025. Há, portanto, um interesse nascendo em algum lugar. Mas será que estamos, de fato, lendo tudo aquilo que compramos? No Brasil, não. Uma pesquisa do Instituto Pró-Livro mostra que apenas 20% da população declara ler livros nas horas vagas. O resto diz passar o tempo livre "na internet" (no celular, né?). Em Nova York, um projeto inovador aponta para uma outra tendência nesse mercado. A Audible Story House, criada pelo serviço de audiolivros da Amazon, é uma livraria pop-up sem nenhum livro impresso, mas com "salas de audição". As vendas de audiolivros nos Estados Unidos quase dobraram nos últimos cinco anos. Não sei se ouvir livros pode ser uma experiência comparada à da leitura. Mas, se a categoria está emplacando de fato, nos ajudará, além de entrar em contato com as obras, a recuperar nossa capacidade de atenção roubada. (Colaborou: Lígia Nogueira)
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