Soldados israelenses hastearam na madrugada deste domingo sua bandeira sobre o Castelo de Beaufort, uma fortaleza cruzada do século 12 encravada nas montanhas do sul do Líbano, com visão estratégica sobre Nabatieh e o vale de Wadi al-Suluki. É a primeira vez desde a retirada israelense em maio de 2000 que tropas do Estado de Israel chegam tão fundo em solo libanês. O porta-voz israelense para o público árabe, coronel Avichay Adraee, foi direto ao ponto: disse que o castelo era uma "fortaleza do Hezbollah". "Nossos soldados estão escrevendo um novo capítulo", afirmou. Para o governo do premiê Benjamin Netanyahu, plantar a bandeira no monte Beaufort é um ato tanto simbólico quanto operacional — uma demonstração de que Israel avança sem freios ao norte do rio Litani, linha que por décadas funcionou como fronteira tácita nas operações israelenses no Líbano. O primeiro-ministro libanês Nawaf Salam reagiu com veemência, condenando o que chamou de estratégia de "terra arrasada" e exigindo cessar-fogo imediato. Paris, que guarda laços históricos e militares com Beirute, emitiu sua mais dura crítica pública desde o início do conflito. A captura vem dias depois de o exército israelense cruzar o Litani em vários pontos, designando toda a faixa até o Rio Zahrani como zona de combate e ordenando que civis deixem dezenas de aldeias. O contexto é o seguinte: desde o início de março, quando o Hezbollah lançou foguetes sobre o norte de Israel dois dias após os EUA e Israel atacarem o Irã, um novo capítulo do conflito Israel-Líbano se abriu. O cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em 16 de abril — estendido por três semanas em 23 de abril, e depois por mais 45 dias — nunca foi completamente observado. Israel continuou realizando ataques em todo o sul do Líbano, com autorização americana para mirar o que considerasse ameaças. Mais de 2.000 pessoas morreram no Líbano desde março; mais de um milhão foram deslocadas. A captura do Beaufort complica diretamente as já tortuosas negociações com o Irã. Teerã tem insistido que qualquer acordo de paz com Washington inclua o fim das operações israelenses no Líbano — algo que Netanyahu, até agora, recusa categoricamente. Um soldado israelense foi morto e quatro ficaram feridos neste domingo nos combates da região. Acordo com o Irã estava quase pronto — depois Trump mudou as condiçõesApós semanas de negociações mediadas pelo Paquistão, EUA e Irã chegaram perto de um memorando de entendimento. Mas Trump escalou as exigências no último momento. Na quinta-feira, funcionários americanos anunciaram com cautela que EUA e Irã tinham chegado a um acordo preliminar — um memorando de entendimento que transformaria o cessar-fogo vigente desde 8 de abril em um arranjo mais duradouro. A alegria durou menos de 24 horas. Na sexta-feira, Trump fez uma série de exigências adicionais que não foram bem recebidas em Teerã: ele quer garantias sobre a livre navegação pelo Estreito de Hormuz (fechado pelo Irã desde o início do conflito, com impacto devastador nos preços do petróleo), o desmantelamento do programa nuclear iraniano, e o descongelamento de ativos iranianos retidos no exterior — mas em condições diferentes das propostas anteriores. Fontes confirmam que a mídia estatal iraniana noticiou que um esboço de acordo incluiria a liberação de US$ 12 bilhões em ativos congelados. O secretário de Defesa dos EUA, por sua vez, declarou no fim de semana que as forças americanas estão "prontas para retomar o combate no Golfo se necessário" — a linguagem bélica de sempre funcionando como pressão nos bastidores. O que está em negociação - Estreito de Hormuz: Irã quer garantias de não-agressão; EUA querem navegação livre imediata
- Nuclear: Washington exige desmantelamento ou congelamento do programa de enriquecimento
- Sanções: Irã pede levantamento progressivo; Trump quer concessões primeiro
- Líbano: Teerã insiste que o acordo inclua fim das operações israelenses; Israel recusa
- Ativos: Cerca de US$ 12 bilhões em ativos iranianos bloqueados são tema em disputa
A mediação do Paquistão continua sendo o único canal formal de comunicação. China e Rússia circulam nas margens, oferecendo planos alternativos. Xangai torce para o acordo — Pequim precisa do petróleo do Golfo. Moscou prefere o caos — ele eleva o preço do seu petróleo. Crise política na Turquia: oposição reelege líder destituído após semana de confrontosUm tribunal turco anulou há 10 dias a eleição interna que havia escolhido Özgür Özel como líder do Partido Republicano do Povo (CHP), o maior partido de oposição do país — e o que se seguiu foi uma semana de caos: policiais de choque invadiram a sede do partido em Ancara com gás lacrimogêneo, canhões d'água dispersaram manifestantes em Izmir, e o governo ameaçou nomear um interventor para comandar a legenda. Neste domingo, o CHP reagiu com um congresso-relâmpago, reelegeu Özel com 1.171 dos 1.276 votos e o viu liderar uma marcha de dezenas de milhares de pessoas até o mausoléu de Atatürk, fundador da república. O pano de fundo é ainda mais sombrio: o prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu — o rival que mais assustava Erdoğan —, está preso desde março de 2025, acusado de corrupção. Para analistas turcos e ocidentais, a sequência não é coincidência: é o roteiro de um governo que quer chegar às presidenciais de 2028 sem adversário à altura. A pílula que fez um oncologista chorar: novo medicamento quase dobra a sobrevida no câncer pancreático O daraxonrasib bloqueou uma proteína mutante que alimenta mais de 90% dos tumores pancreáticos — um alvo que havia eludido a medicina por décadas. Os dados foram apresentados neste domingo no maior congresso de oncologia do mundo. Durante décadas, o câncer pancreático foi sinônimo de sentença de morte. A taxa de sobrevida em cinco anos para tumores metastáticos gira em torno de 3%. A quimioterapia prolonga a vida por meses — mas a custo de efeitos colaterais brutais, e com eficácia decrescente. O principal culpado há muito foi identificado: uma proteína chamada Kras, mutada em mais de 90% dos casos, que turboalimenta o crescimento dos tumores. O problema é que ninguém conseguia bloqueá-la. Neste domingo, no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em Chicago, o pesquisador Brian Wolpin, do Dana-Farber Cancer Institute, apresentou os resultados de um estudo com 500 pacientes: aqueles que receberam o daraxonrasib — um comprimido diário — viveram em média 13,2 meses. Os que ficaram com a quimioterapia convencional viveram 6,7 meses. Quase o dobro. "Enquanto não cura o câncer, é um grande passo à frente", disse o Zev Wainberg, da UCLA, que co-liderou o estudo. Rachna Shroff, da Universidade do Arizona, estava na plateia quando os dados apareceram. "Tendo tratado câncer pancreático por 16 anos, eu comecei a chorar", disse ela a repórteres. Os pacientes não apenas viveram mais — relataram menos dor e melhor qualidade de vida. Muitos ainda estavam usando o medicamento quando os dados foram analisados, o que sugere que a diferença de sobrevida pode se ampliar ainda mais com o acompanhamento contínuo. O daraxonrasib foi desenvolvido pela Revolution Medicines e funciona bloqueando especificamente a forma mutante do KRAS — o que havia sido considerado "indruggable" (impossível de ser alvo de medicamento) por décadas. Os principais efeitos colaterais são erupções cutâneas que podem se tornar graves e aftas na boca. Os pesquisadores agora pretendem testar o medicamento em estágios anteriores da doença para ver se conseguem aumentar o número de pacientes elegíveis para cirurgia — a única forma potencialmente curativa de tratamento. Os resultados foram publicados simultaneamente no New England Journal of Medicine. Veja reportagem do The Guardian. 22 refugiados afegãos morrem ao retornar do Paquistão O motorista dormiu ao volante. O veículo, lotado de famílias — dez crianças, cinco mulheres — saiu da estrada e caiu em uma vala no leste do Afeganistão. Era madrugada de sábado quando o caminhão que levava dezenas de refugiados afegãos de volta ao seu país perdeu o controle na rodovia que liga Cabul a Nangarhar. O motorista havia dormido ao volante. O veículo caiu em uma vala. Vinte e dois pessoas morreram — dez delas crianças — e 36 ficaram feridas. A tragédia tem uma dimensão que vai além do acidente: os passageiros eram parte das centenas de milhares de afegãos que o Paquistão expulsou ou pressionou a deixar o país desde que Islamabad intensificou o cerco a migrantes irregulares em 2023. Segundo dados das Nações Unidas, mais de 447.000 afegãos já retornaram do Paquistão só neste ano. O Irã fez o mesmo no período anterior — e um ônibus com deportados iranianos matou 79 pessoas em agosto de 2025 no Herat. Esses são os afegãos que retornam não como turistas ou voluntários, mas como refugiados sem escolha — muitos deles nascidos no Paquistão, sem jamais ter pisado no Afeganistão. Voltam a um país governado pelo Talibã, com estradas destruídas por décadas de guerra, veículos superlotados e motoristas sem treinamento. O porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid, expressou "profunda tristeza" pela tragédia. A ferramenta que apaga as proteções de qualquer IA em dez minutosEla se chama Heretic. Está hospedada gratuitamente no GitHub. E, segundo investigação conjunta do Financial Times e do grupo de segurança de IA Alice, publicada em 25 de maio, a ferramenta consegue remover todas as salvaguardas de modelos de IA de código aberto — incluindo os da Meta, Google e OpenAI — em menos de dez minutos, usando apenas um laptop comum. Depois de modificados, esses modelos passam a responder a perguntas sobre fabricação de armas biológicas, criação de malwares e material de abuso sexual infantil que os sistemas originais são programados para recusar. Seu criador afirma que a ferramenta já foi usada para produzir mais de 3.500 variantes modificadas de modelos, com 13 milhões de downloads acumulados. O relatório chega num momento delicado para o setor: modelos de peso aberto estão cada vez mais próximos, em capacidade, dos modelos proprietários de ponta. A NPR reportou neste domingo que especialistas em segurança de IA estão alarmados com a combinação de poder crescente e ausência de controles. Reguladores nos EUA, União Europeia e Reino Unido já discutem se os modelos de código aberto devem ser tratados como tecnologia de uso duplo sujeita a controles de distribuição. O Google reconheceu que a remoção de salvaguardas é "um desafio técnico conhecido para todos os modelos abertos". A Meta apontou para sua estrutura de escalonamento de IA avançada. Nenhuma empresa apresentou solução imediata. O maior lago deserto do mundo está subindo — e ameaçando engolir uma civilizaçãoO lago Turkana, no norte do Quênia, é o maior lago deserto permanente do mundo. Por milênios, sustentou centenas de milhares de pessoas nas margens do que é uma das regiões mais isoladas da África. Nos últimos 15 anos, o nível das águas subiu entre 8 e 10 metros — e vem engolindo tudo o que as comunidades ribeirinhas construíram ao longo de gerações. A superfície cresceu 10%. Escolas estão submersas. A única pousada turística da região perdeu 95% de seu terreno. O centro de conferências onde ONGs se reuniam desapareceu sob a água. Aldeias inteiras — como Natole — existem agora apenas na memória de quem viveu nelas. O povo El Molo, que mal passa de algumas centenas de indivíduos e representa uma das culturas mais antigas e frágeis da África, enfrenta ameaças de extinção cultural: suas praias de pesca foram engolidas, e os jacarés — que antes evitavam os assentamentos humanos — agora se multiplicam nas estruturas abandonadas das escolas inundadas. A situação é agravada por um paradoxo cruel: a seca persistente no interior força milhares de pastores a abandonar seus rebanhos e tentar a pesca no lago — sobrecarregando um ecossistema já em colapso. Cientistas apontam fatores climáticos e tectônicos para a alta das águas, mas a combinação é inédita em intensidade. |