 | Embarcações ancoradas no Estreito de Hormuz, vistas de Musandam, em Omã, em 30 de maio de 2026 | Reuters |
| O dedo de Trump sobre a caneta |
| Numa sexta-feira tensa em Washington, Donald Trump convocou seus principais assessores para o Salão de Situação da Casa Branca e se preparou para tomar o que ele próprio chamou de "determinação final" sobre um acordo provisório com o Irã — um memorando de entendimento de 60 dias que prevê a reabertura do Estreito de Hormuz O vice-presidente JD Vance confirmou na quinta-feira que um entendimento preliminar havia sido alcançado pelos negociadores, mas ressalvou que Trump ainda não havia dado o aval definitivo. "É difícil dizer exatamente quando — ou se — o presidente vai assinar", disse Vance a jornalistas, acrescentando que questões espinhosas sobre o estoque iraniano de urânio altamente enriquecido e os limites do enriquecimento futuro permanecem em aberto. "Não haverá alívio de sanções em troca da entrega do urânio altamente enriquecido. O material será destruído em coordenação com o Irã, mas sem pagamento monetário, até segunda ordem." O acordo preliminar de 14 pontos, conforme descrito pelo Axios com base em fontes governamentais, incluiria um compromisso iraniano de nunca buscar uma arma nuclear — posição que Teerã sempre sustentou publicamente, embora os EUA e Israel tenham justificado os ataques de 28 de fevereiro exatamente com o argumento contrário. O documento ainda exigiria a reabertura imediata do Estreito de Hormuz, cujo bloqueio parcial pelo Irã elevou os preços do petróleo e gerou tensões econômicas globais desde o início do conflito. Do lado iraniano, o silêncio é calculado: autoridades em Teerã se recusaram a confirmar publicamente a existência de qualquer acordo, e um porta-voz do governo iraniano reiterou que as discussões atuais se concentram no fim da guerra, não na questão nuclear. Segundo análise publicada pelo instituto britânico Chatham House, a guerra com o Irã desviou a atenção internacional de Gaza de forma preocupante — com consequências humanitárias crescentes e poucos incentivos diplomáticos para qualquer solução. Para além das questões técnicas do acordo, persiste a dúvida mais profunda: quantas vezes Trump já esteve "próximo" de uma decisão histórica e recuou? O mundo aguarda, mais uma vez, o tuíte que pode mudar ou não uma guerra. Drone russo cai em prédio residencial na Romênia — e Putin pede provasO incidente mais grave de expansão territorial do conflito desde 2022 lançou questões urgentes sobre o Artigo 5 do Tratado da Otan -- a cláusula de defesa coletiva que obriga todos os membros a tratar um ataque contra um aliado como um ataque contra todos. Nas primeiras horas da sexta-feira, um drone russo carregado de explosivos atingiu o telhado de um prédio de apartamentos em Galati, cidade romena às margens do Danúbio, a poucos quilômetros da fronteira com a Ucrânia. Dois moradores ficaram feridos e um incêndio destruiu parte da cobertura do edifício. Era a 28ª violação documentada do espaço aéreo romeno desde que a Rússia iniciou seus ataques sistemáticos aos portos ucranianos do Danúbio. A diferença desta vez: o drone não caiu em campo aberto, nem deixou apenas fragmentos inócuos. Caiu numa casa de pessoas reais. E isso mudou o tom das reações. A Romênia convocou o embaixador russo e expulsou um diplomata de Moscou. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, declarou que "o comportamento irresponsável da Rússia é um perigo para todos nós". Bucareste assinou, em caráter de urgência, um contrato para aquisição de capacidades antidrone sob o programa SAFE da União Europeia. O presidente da República Tcheca, Petr Pavel, foi além: disse que "a mera condenação não é suficiente" e pediu "uma resposta internacional firme". Vladimir Putin, em Astana para cúpula da União Econômica Euroasiática, negou qualquer responsabilidade e disse que a Rússia "nunca ameaçou e não ameaça" países europeus — mas acrescentou que estaria disposto a investigar o incidente "se receber os destroços". Uma resposta que soou, para muitos analistas, como provocação disfarçada de moderação. O episódio lança, mais uma vez, a sombra sobre o Artigo 5 da Otan — e sobre as declarações ambíguas de Trump de que os EUA poderiam ou não honrá-lo em determinadas circunstâncias. O embaixador americano na aliança condenou a "incursão imprudente" nas redes sociais, mas não apontou explicitamente a Rússia como responsável. Netanyahu quer 70% de Gaza sob controle militar — e a ONU alerta para catástrofe infantilCom o cessar-fogo frágil e o líder militar do Hamas morto por ataque aéreo, o premiê israelense amplia a ofensiva enquanto travam as negociações sobre a segunda fase do acordo de paz -- a etapa que deveria, em tese, transformar a trégua temporária num encerramento definitivo do conflito. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou na quinta-feira que ordenou ao Exército tomar o controle de 70% do território de Gaza — ultrapassando, em mais de 11 pontos percentuais, o limite da chamada "Linha Amarela" acordada no frágil cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025. O anúncio veio dias após forças israelenses confirmarem a morte do mais recente líder militar do Hamas em um ataque aéreo na Cidade de Gaza, em 27 de maio. O porta-voz do Unicef, Salim Oweis, alertou de Genebra que a nova ofensiva comprimirá ainda mais uma população já confinada em cerca de 40% do território, vivendo em meio a escombros, com acesso mínimo a água potável, alimentos e saneamento. "As pessoas de Gaza não suportam mais uma guerra", disse o coordenador humanitário da ONU ao Conselho de Segurança, numa sessão em que o Flash Appeal de 2026 — que pede mais de 4 bilhões de dólares para quase três milhões de pessoas — está apenas 13% financiado. As negociações sobre a Fase 2 do cessar-fogo — que deveriam levar ao desarmamento progressivo do Hamas e à retirada israelense — estão paralisadas. A questão central é irresolúvel no curto prazo: Hamas diz que se desarmará apenas se Israel retirar as tropas e houver progresso real em direção a um Estado palestino; Netanyahu e Trump rejeitam qualquer concessão que consolide a presença política do grupo. Com o mundo distraído pela guerra com o Irã, Gaza tornou-se, nas palavras de analistas do Chatham House, "um conflito em câmera lenta para o qual ninguém olha mais". Na véspera das urnas, Colômbia chega ao dia mais decisivo em décadasAmanhã, 31 de maio, colombianos escolhem entre a continuidade do petronismo e uma virada à direita. A Colômbia acorda neste sábado a menos de 24 horas da eleição presidencial mais polarizada em memória recente. O candidato esquerdista Iván Cepeda, senador do Pacto Histórico e representante da continuidade de Gustavo Petro, lidera as pesquisas com cerca de 39%, mas longe da maioria absoluta necessária para vencer no primeiro turno. O segundo lugar é disputado entre a conservadora Paloma Valencia, protegida política do ex-presidente Álvaro Uribe, e o outsider populista de direita Abelardo de la Espriella — comparado insistentemente ao argentino Javier Milei. Nenhum cenário de vitória no primeiro turno parece provável: o país deverá ir ao segundo turno em 21 de junho, com as forças de direita potencialmente unidas contra Cepeda. Em Miami, longas filas nos centros de votação já desta manhã revelam o quanto a diáspora colombiana, historicamente mais conservadora, está mobilizada. O contexto geopolítico pesa: as relações entre Bogotá e Washington deterioraram-se gravemente sob Petro, que teve o visto revogado por Trump em setembro de 2025 e recebeu sanções do Tesouro americano por alegadas falhas no combate ao narcotráfico. O próximo presidente herdará o desafio de recalibrar esse relacionamento — sem alienar as bases que elegeram a esquerda pela primeira vez na história colombiana em 2022. Bolívia: 22 dias de bloqueios e a pressão por uma renúncia que o governo se recusa a darO presidente boliviano Rodrigo Paz, no cargo há menos de sete meses, enfrenta a maior crise política de seu governo. Desde o início de maio, uma coalizão de sindicatos camponeses, trabalhadores mineiros, organizações indígenas e professores bloqueia estradas estratégicas que conectam La Paz ao resto do país e às fronteiras com Peru e Chile. Os protestos — que já deixaram mortos, dezenas de feridos e milhares de veículos presos — nasceram de demandas econômicas dispersas, mas convergiram numa exigência unificada: a saída imediata de Paz. A crise tem raízes profundas. A escassez de combustível de qualidade — que danificou mais de 5 mil veículos bolivianos entre janeiro e abril — gerou um caldo de descontentamento que a Lei 1720, aprovada em abril e vista como favorável ao agronegócio de Santa Cruz em detrimento das comunidades indígenas, transformou em explosão. Líderes das bases mobilizadas em El Alto foram categóricos com a imprensa: "Não queremos mais diálogo, queremos que ele saia." O governo tenta abrir mesa de negociação, mas com interlocução fraturada e pressão crescente. Oito países, incluindo o Equador, pediram diálogo. A comunidade internacional observa com preocupação um país já fragilizado economicamente, diante de projeções de retração do PIB para 2026. Um juiz, uma sentença de 94 páginas e o nome de Trump retirado do Kennedy CenterDecisão proferida no aniversário de nascimento de JFK barra o fechamento do centro cultural e declara ilegal a renomeação em homenagem ao presidente. Escolha de data ou ironia da história? O juiz federal Christopher Cooper — indicado por Barack Obama — assinou nesta sexta-feira, exatamente no aniversário de nascimento de John F. Kennedy, uma sentença de 94 páginas que ordenou a remoção do nome de Trump do histórico complexo cultural de Washington e bloqueou temporariamente o fechamento previsto para julho para obras de renovação que durariam dois anos. A decisão é cirúrgica e lapidar: "O estatuto orgânico do Kennedy Center deixa absolutamente claro que o centro deve ser nomeado em homenagem ao presidente Kennedy, e não pode receber qualquer outro nome formal ou memorial público com base na decisão unilateral do conselho de administração. O Congresso deu ao Kennedy Center seu nome — e apenas o Congresso pode mudá-lo." O conselho, preenchido por indicados de Trump desde dezembro de 2025, havia votado pela renomeação do local para "Donald J. Trump e John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts" e pelo fechamento para reformas, estimadas em 257 milhões de dólares aprovados pelo Congresso. Cooper considerou que o voto de fechamento foi "mal informado e aparentemente predeterminado", sem consideração adequada das obrigações legais do conselho. Trump respondeu com uma longa publicação no Truth Social — em que atacou o juiz, acusou a esquerda de querer ver a instituição "morrer" e anunciou que passará o controle do Kennedy Center de volta ao Congresso, lavando as mãos da reforma. Cinco das nove atrações anunciadas para o festival "Freedom 250", evento musical promovido pelo governo no National Mall para o feriado de 4 de julho, já cancelaram a participação, incluindo Bret Michaels, vocalista do Poison, que citou ameaças recebidas pelo clima de polarização em torno do evento. Wall Street fecha maio em máximas históricas — com tecnologia como protagonistaOs principais índices da Bolsa de Nova York fecharam sexta-feira em recordes históricos, consolidando um maio excepcional impulsionado pelo setor de tecnologia. O Nasdaq avançou 8% no mês; o S&P 500 encerrou o dia em 7.580 pontos; o Dow Jones atingiu pela primeira vez os 51.032 pontos. O destaque do dia foi a Dell Technologies, cujas ações dispararam quase 33% — a melhor sessão individual da empresa em toda sua história — após resultados que superaram expectativas e uma revisão para cima das projeções anuais, impulsionadas pela demanda por servidores para inteligência artificial. A Micron Technology subiu 5% e acumulou impressionante alta de 88% em maio; a Qualcomm avançou 3% no dia e 40% no mês. O petróleo recuou, atuando como alívio adicional para uma economia que teme os efeitos de longo prazo do conflito no Golfo Pérsico — mas que, por ora, parece preferir apostar em otimismo tecnológico. Escândalos Bondi joga a responsabilidade dos arquivos Epstein em BlancheEm depoimento fechado ao Congresso nesta sexta-feira, a ex-procuradora-geral Pam Bondi descarregou sobre o procurador-geral interino Todd Blanche a responsabilidade pelo manejo da divulgação dos arquivos sobre Jeffrey Epstein — ou a falta dela. Democratas do Comitê de Supervisão da Câmara anunciaram que, se Blanche não comparecer voluntariamente, forçarão uma votação para intimá-lo. "A solicitação, ao entrar hoje, é que o presidente Comer convoque Todd Blanche", disse o deputado Robert Garcia, da Califórnia. "Se ele não fizer isso voluntariamente, vamos forçar uma intimação." O caso Epstein continua a assombrar a administração Trump, com fissuras crescentes sobre quem sabia o quê — e quando. A pressão por transparência, que transcende linhas partidárias, não mostra sinal de arrefecimento. Obituário In memoriam · França Edgar Morin (1921 - 2026)Morreu nesta sexta-feira, em Paris, Edgar Morin -- filósofo, sociólogo, resistente da Segunda Guerra Mundial, inventor do cinéma-vérité e, sobretudo, o pensador que se recusou a ser apenas um pensador. Tinha 104 anos. Sua esposa, Sabah Abouessalam Morin, comunicou o falecimento na manhã deste sábado à AFP. Nascido Edgar Nahoum em 8 de julho de 1921, filho de imigrantes judeus sefarditas vindos de Salônica, Morin forjou sua identidade intelectual no fogo da resistência ao nazismo — quando adotou o pseudônimo pelo qual ficaria mundialmente conhecido. Para o jornal Libération, ele era "o avô de todos os franceses e a memória do século XX". O presidente Macron o convidou para jantar no Elíseo quando completou 100 anos, em 2021. Morin preferia se definir como "humanólogo" — alguém que, recusando as fronteiras disciplinares, fundiu sociologia, filosofia, etnografia, biologia e ecologia para tentar compreender a condição humana em sua totalidade. Seu projeto monumental, La Méthode, em seis volumes publicados entre 1977 e 2004, é considerado a síntese de seu "pensamento complexo" — a ideia de que os problemas do mundo real exigem o cruzamento de saberes, não sua separação. Até seus últimos dias, Morin manteve 220 mil seguidores no X e continuava a comentar atualidades com a lucidez de um espírito que jamais se resignou ao silêncio. Sobre a guerra na Ucrânia, escreveu: "A guerra é uma lição de ódio." Sobre as ondas de calor de 2022: "Paris, 18h, 40 graus: Levanta-te, tormenta desejada!" Seu último livro foi publicado em 2025. O mundo perde o homem que ensinou que a incerteza não é o oposto do conhecimento — é sua condição mais honesta. Quem está sabotando a Marinha alemã? Uma ameaça sem rosto no mar do NorteAtos de sabotagem contra infraestrutura naval e de comunicação europeia multiplicam-se sem que nenhum Estado assuma a responsabilidade. O Euronews reporta neste sábado que autoridades de segurança europeias investigam ativamente uma série de incidentes suspeitos de sabotagem direcionados a ativos navais e de infraestrutura da Marinha alemã no mar do Norte e no Báltico. Os episódios fazem parte de um padrão mais amplo de atividades atribuídas, pelas inteligências ocidentais, a operações de "zona cinza" — ações abaixo do limiar do conflito armado mas com o objetivo de desgastar capacidades militares e semear insegurança. Nenhum ator estatal assumiu responsabilidade pelos incidentes. Investigadores alemães e aliados da OTAN trabalham com múltiplas hipóteses, mas a dificuldade de atribuição — característica central desse tipo de operação — torna qualquer resposta oficial politicamente complexa. A Alemanha, que tem ampliado significativamente seus gastos com defesa desde 2022, enfrenta agora a realidade de que investir em capacidade bélica tradicional pode não ser suficiente para proteger infraestrutura crítica de ameaças invisíveis. A IA resolveu o que 80 anos de matemática humana não conseguiramSe você é matemático, pode querer estar sentado antes de ler isso. E se não for matemático, a conclusão é ainda mais desorientadora: uma inteligência artificial resolveu, de forma autônoma, um dos problemas abertos mais famosos da matemática combinatória — o chamado "problema das distâncias unitárias" —, proposto pelo húngaro Paul Erd0s em 1946 e resistente à solução humana por quase oito décadas. A OpenAI anunciou em 20 de maio que um modelo de raciocínio geral — não um sistema especializado em matemática, não treinado especificamente para isso — havia recebido o enunciado do problema e produzido uma demonstração original que derrubou uma conjectura de longa data. A questão parece simples: dados n pontos num plano, qual é o número máximo de pares que podem estar exatamente a uma unidade de distância entre si? Por décadas, acreditava-se que grades quadradas eram essencialmente ótimas. O modelo provou que não. Por que isso importa Não foi um chatbot resolvendo uma prova de vestibular O modelo descobriu uma família infinita de arranjos de pontos usando teoria algébrica de números — especificamente a teoria de Golod-Shafarevich e torres de corpos de classes —, um salto entre disciplinas que matemáticos humanos simplesmente não haviam explorado. A prova foi verificada de forma independente por matemáticos de Princeton e Toronto, incluindo Thomas Bloom — o mesmo que anteriormente desmontou uma reivindicação anterior e embaraçosa da OpenAI. "Não há prova anterior gerada por IA que chegue perto desse padrão", escreveu Timothy Gowers, da Universidade de Cambridge. O resultado merece publicação nos melhores periódicos científicos do mundo — se fossem humanos que o tivessem produzido. O momento tem peso simbólico além da geometria. Em menos de um ano, a IA foi de medalha de ouro nas Olimpíadas de Matemática a resolver problemas que nenhum medalhista humano havia tocado. A velocidade da progressão é o que assombra os especialistas — não apenas a conquista em si. "A especialização humana torna-se mais valiosa, não menos", ponderou um matemático consultado pela OpenAI. "A IA pode buscar, sugerir e verificar. O julgamento sobre o que buscar ainda depende de nós." |
|
|
|