
A atriz Margaret Sullavan nasceu no dia de hoje, 16 de maio, em 1909. Ela foi a única mulher em Hollywood capaz de colocar medo no chefão da Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer. Se isso por si só não serve como cartão de apresentação, Margaret Sullavan foi uma das poucas atrizes a atingir um patamar de respeito e prestígio dentro do universo paternalista do studio system que permitia que ela estabelecesse suas próprias cláusulas para os contratos que assinava, bem como a palavra final sobre os protagonistas e os filmes em que queria atuar.
Conhecida por sua presença magnética em cena, voz rouca e atitude intransigente em relação ao establishment de Hollywood, Margaret Sullavan frequentemente entrava em conflito com os chefes de estúdio e se recusava a assinar contratos exclusivos de longo prazo. Apaixonada pelo teatro, fez apenas 16 filmes, quatro dos quais contracenou com o amigo James Stewart, que conheceu quando ela e o primeiro marido Henry Fonda eram estudantes de teatro no final dos anos 1920, mas deixou uma marca permanente no mundo do entretenimento, seja nos palcos, seja nas telas.
Juventude e o início nos palcos

Margaret Brooke Sullavan nasceu em 16 de maio de 1909, em Norfolk, no estado de Virgínia, filha de um rico corretor da bolsa, Cornelius Sullavan, e sua esposa, Garland Councill Sullavan. Ela tinha um irmão mais novo, Cornelius, e uma meia-irmã, Louise "Weedie" Gregory. Os primeiros anos de sua infância foram passados isolada de outras crianças. Ela sofria de uma dolorosa fraqueza muscular nas pernas que a impedia de andar, de modo que ela não conseguiu socializar com outras crianças até os seis anos de idade. Após sua recuperação, ela se tornou uma criança aventureira e moleca que preferia brincar com crianças de um bairro mais pobre, para grande desaprovação de seus pais preocupados com a classe social.
Ainda na infância, desenvolveu o gosto pela dança, e que a levariam a deixar o lar paterno para estudar dança no prestigiado estúdio Denishawn de Boston. Os pais de Margaret não aprovavam sua escolha de carreira e suspenderam sua mesada, obrigando Margaret a trabalhar como balconista de livraria por um tempo para poder pagar seus estudos de dança e atuação. Margaret sempre afirmou que preferia trabalhar no teatro em vez do cinema, e foi nos palcos onde iniciou sua carreira de atriz em 1929, aos 20 anos, ainda como estudante. Um dia, os pais de Margaret assistiram à uma apresentação dela - o papel principal em "Strictly Dishonorable" (1930), de Preston Sturges - e ficaram tão encantados com o talento da filha que cessaram imediatamente as objeções.
Além da amizade de uma vida, um casamento de dois anos e um filme juntos, Margaret Sullavan e Henry Fonda compartilharam a mesma data de aniversário: nasceram em 16 de maio; ela em 1909, e ele em 1905.
Foi em seu período como estudante de teatro que ela conheceu Henry Fonda, durante os ensaios para a peça musical "Close Up", de Bernard Hanighen. Foi o início de uma amizade que seguiu com uma parceria para a próxima peça que ambos estrelaram, "The Devil in the Cheese", que marcou a estreia dela como atriz profissional de teatro. Na mesma época, Sullavan e Fonda conheceram James Stewart, que se juntou à trupe de atores do teatro, e os três formariam uma amizade de longa data. Sullavan e Fonda se casaram em 25 de dezembro de 1931, mas logo descobriram que como casal eles eram incompatíveis. Dois meses depois, eles decidiram se separar, se divorciando em 1933.
Sua voz rouca (ainda mais rouca por conta de uma laringite) chamou a atenção de um olheiro da Broadway que a apresentou ao empresário de teatro Lee Shubert. Sullavan fez sua estreia na Broadway em "A Modern Virgin", comédia de Elmer Harris, em 20 de maio de 1931. Depois de estrelar quatro fracassos seguidos, ela substituiu outra atriz na montagem de "Dinner at Eight", em Nova York. O diretor de cinema John M. Stahl estava assistindo à peça e decidiu que ela seria perfeita para um filme que estava planejando, "Only Yesterday". A atriz já havia recusado ofertas da Paramount e da Columbia porque não queria ficar presa a contratos de longo prazo como era comum na época, e só aceitou assinar com a Universal depois que conseguiu reduzir o tempo de contrato para três anos e incluir uma cláusula que permitia a ela uma folga anual para atuar nos palcos, se comprometendo a fazer dois filmes por ano a um salário de US$ 1.200 por semana.
Hollywood
Margaret Sullavan interpreta uma mãe solteira e Billie Burke interpreta sua tia de espírito progressista no melodrama Only Yesterday (1933), que marcou a estreia de Margaret no cinema.
Margaret Sullavan chegou a Hollywood em 16 de maio de 1933, no dia do seu 24º aniversário. Sua estreia no cinema aconteceu naquele mesmo ano em "Only Yesterday". Quando se viu nas primeiras cenas do filme, ela ficou tão horrorizada que tentou anular seu contrato pagando a multa rescisória de US$ 2.500, mas a Universal recusou. As críticas positivas que o filme recebeu acalmaram a atriz e logo ela estava estrelando seu filme seguinte, "Vale a Pena Viver" (Little Man, What Now?, 1934), um filme sobre um casal lutando para sobreviver na Alemanha empobrecida do pós-Primeira Guerra Mundial, um projeto que quase foi recusado pela Universal por seu tema anticomercial mas que se tornou um dos filmes preferidos em que ela atuou.
A atriz demonstrou sua versatilidade estrelando a comédia romântica "A Boa Fada" (The Good Fairy, 1935), baseado na peça de 1930 "A jó tündér", de Ferenc Molnár, traduzida e adaptada por Jane Hinton, que foi produzida na Broadway em 1931. Em novembro de 1934, ainda durante as filmagens, ela se casou com o diretor do filme, William Wyler. "Noivado na Guerra" (So Red the Rose, 1935), de King Vidor, foi seu próximo projeto, um drama épico que retrata a vida no sul dos Estados Unidos após a Guerra Civil, baseado no romance homônimo de 1934 escrito por Stark Young e publicado um ano antes do best-seller "E o Vento Levou", de Margaret Mitchell, com uma história bastante parecida: Sullavan interpreta uma jovem sulista com espírito infantil que amadurece e se torna uma mulher responsável.
Margaret Sullavan e John Boles em Only Yesterday (1933).
Margaret Sullavan e Douglas Montgomery em Vale a Pena Viver (1934).
Margaret Sullavan em A Boa Fada (1935).
O casamento com Wyler terminou em divórcio em 1936. No mesmo ano, Margaret se casou com o empresário Leland Hayward, que era seu agente desde 1931, e por intermédio dele conseguiu negociar um contrato picture-by-picture com a MGM, que lhe permitia trabalhar sob seus próprios termos. É fato de que a força de vontade da atriz aliada ao seu temperamento instável deixavam Louis B. Mayer inseguro a ponto de Eddie Mannix, chefe de publicidade e assessor da MGM, afirmar que Margaret Sullavan era "a única atriz que intimidava Mayer" e o deixava verdadeiramente apavorado. Mayer preferia atender todas as vontades dela do que provocar seu ódio e irritação pois as reações da atriz eram imprevisíveis. Alguns atribuíram a morte do diretor e produtor Sam Wood, um fervoroso anticomunista, por ataque cardíaco pouco depois de uma discussão acalorada com a atriz.
Em uma ocasião, Henry Fonda, com quem a atriz foi casada por dois anos, pediu contribuições para um show de fogos de artifício no 4 de julho. Depois que Margaret Sullavan se recusou a contribuir, Fonda reclamou dela em voz alta para um colega ator. Ela ouviu, se levantou e jogou um jarro de água gelada nele molhando-o da cabeça aos pés. Fonda saiu com elegância, e Margaret, calma e indiferente, voltou para sua mesa e comeu com gosto. Apesar do conturbado fim de seu casamento, eles continuaram amigos por toda a vida, uma amizade que se estendeu também aos filhos que ambos tiveram em seus respectivos casamentos. "Ela era uma figura, mesmo na primeira vez que a conheci", lembrou o ator. Com Fonda, Margaret atuou em um único filme, a comédia "Vivendo na Lua" (The Moon's Our Home, 1936).
Margaret Sullavan em uma foto publicitária para Noivado na Guerra (1935).
Margaret Sullavan com Henry Fonda em Vivendo na Lua (1936).
Margaret Sullavan com James Stewart em Amemos Outra Vez (1936), o primeiro dos quatro filmes em que atuaram juntos.
Os privilégios da atriz junto ao estúdio permitiam a ela escolher seus protagonistas e ela foi a principal responsável por lançar a carreira de seu amigo James Stewart, obrigando a MGM que o tinha sob contrato mas o relegava a papéis medíocres, a emprestá-lo para a Universal para atuar ao lado dela no drama romântico "Amemos Outra Vez" (Next Time We Love, 1936). Quando o estúdio se negou, a atriz ameaçou entrar em greve caso Jimmy não fosse contratado. Anos antes, durante uma conversa informal com alguns colegas atores da Broadway, a atriz previu que ele se tornaria uma grande estrela de Hollywood. Ela acreditava realmente nele e passava as noites treinando-o e ajudando-o a suavizar seus trejeitos desajeitados e sua fala hesitante.
Ela praticamente esculpiu aquele diamante bruto e o transformou em um ator de verdade. "Foi Margaret Sullavan quem fez de James Stewart uma estrela", disse o diretor do filme, Edward H. Griffith. Bill Grady, da MGM, disse: "Aquele menino voltou da Universal tão mudado que mal o reconheci". Corria o boato em Hollywood de que o marido de Sullavan na época, William Wyler, suspeitava que eles estivessem tendo um caso. Quando Margaret se divorciou de Wyler em 1936 e se casou com Leland Hayward naquele mesmo ano, eles se mudaram para uma casa colonial a apenas um quarteirão da casa de Stewart. As visitas frequentes de Stewart à casa do casal logo reacenderam os rumores de seus sentimentos românticos pela atriz.
A amizade ou romance como queiram, renderia mais três filmes estrelados por Margaret Sullavan e James Stewart: o drama de guerra "O Último Beijo" (The Shopworn Angel, 1938), a comédia romântica "A Loja da Esquina" (The Shop Around the Corner, 1940) e o drama de guerra "Tempestades d'Alma" (The Mortal Storm, 1940). "Eu realmente me senti como o estranho naquele filme. Era tudo Jimmy e Maggie... Era tão óbvio que ele estava apaixonado por ela. Ele se transformava completamente em suas cenas com ela, atuando com uma convicção e uma sinceridade que eu nunca o vi demonstrar longe dela", afirmou Walter Pidgeon, um dos protagonistas de "O Último Beijo". Após atuar ao lado do ex-marido Henry Fonda na comédia de recém-casados "Vivendo na Lua", ela estrelou o drama ambientado na Alemanha pós-Primeira Guerra "Três Camaradas" (Three Comrades, 1938), que rendeu-lhe uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
Margaret Sullavan com James Stewart e Walter Pidgeon em uma foto publicitária para O Último Beijo (1938).
Margaret Sullavan com James Stewart em A Loja da Esquina (1940).
Margaret Sullavan e James Stewart em Tempestades d'Alma (1940), o quarto e último filme em que atuaram juntos.
Apesar de seu temperamento explosivo, Margaret Sullavan era uma profissional respeitada e admirada, inclusive por seus colegas de profissão. Joan Crawford insistiu em tê-la como co-protagonista para "A Mulher Proibida" (The Shining Hour, 1938), mesmo que Louis B. Mayer a tenha alertado de que ela poderia roubar suas cenas interpretando a cunhada suicida de sua personagem. Por sua vez, Margaret insistiu para que Charles Boyer assumisse o principal papel masculino no drama romântico "Corações Humanos" (Back Street, 1941), e tivesse o maior faturamento nos créditos. O filme é considerado como uma das melhores performances da carreira da atriz em Hollywood. Ela e Boyer voltariam a atuar juntos na comédia romântica "Encontro de Amor" (Appointment for Love, 1941).
Os dois filmes foram produto de uma decisão judicial que obrigou a atriz a cumprir seu contrato inicial de 1933 com a Universal para mais dois filmes. Com o drama da Segunda Guerra Mundial "Aurora Sangrenta" (Cry 'Havoc', 1943), que marcou o fim de seu contrato com a MGM, a atriz ficou livre para se dedicar apenas aos palcos e aos filhos, Brooke, Bridget e Bill (então com 6, 4 e 2 anos de idade) pelos anos seguintes. Margaret sentia que somente no palco poderia aprimorar suas habilidades como atriz. "Quando eu realmente aprender a atuar, poderei levar o que aprendi de volta para Hollywood e mostrá-lo na tela", disse ela em uma entrevista em outubro de 1936. "Mas enquanto o teatro de carne e osso me quiser, é ao teatro de carne e osso que eu pertencerei. Estou realmente apaixonada pelo palco. E se isso for traição, Hollywood terá que tirar o máximo proveito disso."
Margaret Sullavan com Robert Young, Robert Taylor e Franchot Tone em Três Camaradas (1938), que rendeu a ela uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
Margaret Sullavan e Joan Crawford em A Mulher Proibida (1938).
Margaret Sullavan e Charles Boyer em uma foto publicitária para Corações Humanos (1941).
Com a prerrogativa de escolher os filmes em que queria atuar, para seu retorno às telas após uma ausência de sete anos, a atriz escolheu o melodrama "Destino Amargo" (No Sad Songs for Me, 1950), onde interpretou uma mãe de família que descobre que está com câncer terminal e decide encontrar uma nova esposa para o marido. Natalie Wood, então com 11 anos, fez a filha do casal. Durante as filmagens, a atriz fez valer sua voz e se recusou a permitir a demissão de um dos roteiristas por suas opiniões de esquerda. Apesar do sucesso de público e de crítica, ela recusou as propostas do estúdio de novos filmes para retornar aos palcos. "Destino Amargo" acabaria se tornando a última aparição de Margaret Sullavan no cinema.
Doença e morte
Infelizmente, a atriz teve uma vida curta e um final trágico. Seus problemas de saúde física e mental se agravaram durante a década de 1950, deixando-a incapaz de atuar por um tempo e resultando em períodos prolongados de depressão e isolamento. Ela sofria de otosclerose, uma deficiência auditiva congênita que piorou com a idade, tornando-a cada vez mais deficiente auditiva. Alguns acreditam que seu comportamento imprevisível era uma resposta emocional ao medo de perder totalmente a audição e não poder mais exercer a profissão que tanto amava. Uma sucessão de casamentos fracassados que terminaram em divórcios conturbados - com Henry Fonda, William Wyler e Leland Hayward, esse último ela descobriu que ele a estava traindo com a socialite Slim Keith, provavelmente o seu grande amor e do qual ela nunca se recuperou -, além dos filhos que escolheram morar com o pai, foram duros golpes para a saúde já debilitada da atriz que passava dias chorando trancada no quarto.
Finalmente, Margaret concordou em passar algum tempo em uma instituição psiquiátrica particular. Após quatro anos afastada, ela retornou aos palcos em dezembro de 1959 para atuar em "Sweet Love Remembered", da dramaturga Ruth Goetz, mas os problemas mentais da atriz já se tornavam evidentes durante os ensaios por conta de seu comportamento e sentimentos contraditórios à sua decisão de continuar atuando: "Eu detesto atuar", disse ela no dia em que começou os ensaios. "Eu detesto o que isso faz com a minha vida. Isso te anula. Você não pode viver enquanto está trabalhando. Você é uma pessoa cercada por uma parede intransponível".
Margaret Sullavan e Charles Boyer em uma foto publicitária para Encontro de Amor (1941).
Margaret Sullavan com Marsha Hunt, Ann Sothern, Fay Bainter e Joan Blondell em Bloody Dawn (1943).
Margaret Sullavan e Natalie Wood em Destino Amargo (1950), que marcou a despedida da atriz das telas do cinema.
Em 1º de janeiro de 1960, Margaret Sullavan foi encontrada na cama, inconsciente, em um quarto de hotel em New Haven, Connecticut. Um frasco de comprimidos prescritos foi encontrado ao lado da cama. A atriz foi levada às pressas para o Hospital Grace New Haven, mas foi declarada morta ao chegar. O legista do condado determinou oficialmente que a morte de Margaret Sullavan foi uma overdose acidental de barbitúricos. Ela estava casada desde 1950 com o quarto marido, o empresário inglês Kenneth Wagg, e tinha somente 50 anos.
Seus dois filhos mais novos, Bridget e Bill, também passaram um tempo em várias instituições. Bridget morreu de overdose de drogas em outubro de 1960, enquanto Bill morreu de um ferimento de bala autoinfligido em março de 2008. A filha mais velha de Margaret, a atriz Brooke Hayward, escreveu "Haywire", um livro de memórias best-seller sobre sua família, que foi adaptado em 1980 para a minissérie de mesmo nome estrelada por Lee Remick como Margaret Sullavan, Jason Robards como Leland Hayward e Deborah Raffin como Brooke Hayward.
Pela sua contribuição para a indústria cinematográfica, Margaret Sullavan tem uma estrela na Calçada da Fama, no número 1751 da Vine Street.
Fonte: Wikipédia
 | Por Marc em 16/05/2019 |
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