04 abril, 2026

Não há equivalência possível | O Brasil dos ‘patriotas’ | Blog do Gerson Nogueira


A tentativa de colocar Flávio Bolsonaro e Lula no mesmo plano, se revela não apenas equivocada, mas profundamente desorientadora.

Por Maria Luiza Falcão Silva (*)

Vivemos em um mundo atravessado por guerras, tensões geopolíticas e disputas abertas por poder. Conflitos no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos e Israel com o Irã, a intensificação de confrontos indiretos entre grandes potências e a crescente instabilidade internacional indicam que a economia global já não pode ser compreendida fora da lógica do conflito. Energia, cadeias produtivas, fluxos comerciais e sistemas financeiros passam a ser condicionados por decisões cuja natureza é, antes de tudo, política e estratégica.

Nesse ambiente, governar um país como o Brasil exige uma capacidade que vai muito além da retórica doméstica ou da disputa ideológica interna. Exige leitura do sistema internacional, experiência institucional acumulada e, sobretudo, consciência da responsabilidade histórica que o momento impõe.

É nesse ponto que a tentativa de colocar Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva no mesmo plano, na corrida pela presidência em 2026, se revela não apenas equivocada, mas profundamente desorientadora.

Não se trata de preferência política. Trata-se de escala.

Lula opera em um nível de complexidade que envolve negociação internacional, gestão de crises econômicas, articulação institucional e capacidade de preservar margens de autonomia em um sistema global cada vez mais tensionado. Sua trajetória — com acertos e erros — foi construída nesse terreno. Trata-se de uma liderança que transita entre chefes de Estado, que participa de rearranjos multilaterais e que compreende o peso geopolítico de decisões econômicas em um mundo em fragmentação.

Flávio Bolsonaro emerge de um universo político inteiramente distinto.

Sua trajetória pública não está associada à formulação de políticas complexas, à mediação de conflitos institucionais ou à condução de agendas nacionais de alta densidade. Ao contrário, sua projeção foi marcada por episódios que revelam uma compreensão estreita — quando não distorcida — da função pública. O caso conhecido como “rachadinha” não é um detalhe periférico. Ele expõe uma lógica de atuação que banaliza o poder e reduz o espaço público à extensão de interesses privados.

Não se trata apenas de um problema ético. Trata-se de um limite político.

Recentemente, sua tentativa de inserção internacional se resumiu a uma aproximação simbólica com um cenário político em crise, representado por Donald Trump, no exato momento em que milhões de pessoas ocupavam as ruas nos Estados Unidos sob o lema “No Kings”. A imagem é reveladora: enquanto parcelas significativas da sociedade americana contestam a erosão institucional, o autoritarismo do governante, há quem busque legitimidade justamente nesse ambiente de desgaste democrático.

A questão, portanto, não é comparar estilos. É compreender capacidades.

Mas há um ponto ainda mais profundo — e frequentemente negligenciado — nessa comparação: ela oculta que o que está em disputa não são apenas trajetórias individuais, mas projetos distintos de país.

De um lado, um projeto que, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, buscou combinar crescimento econômico com inclusão social, fortalecimento do mercado interno e ampliação do papel do Estado como indutor do desenvolvimento. Trata-se de uma visão que reconhece o Brasil como uma economia estruturalmente desigual e inserida de forma assimétrica no sistema internacional — e que, por isso mesmo, exige políticas ativas de reindustrialização, investimento público e coordenação estratégica.

Essa concepção se expressa também na política externa, orientada pela diversificação de parcerias, pela busca de autonomia relativa e pela inserção ativa em arranjos multilaterais. Em um mundo fragmentado, essa não é uma escolha ideológica, mas uma estratégia necessária de ampliação de margem de manobra.

De outro lado, encontra-se o projeto liberal de direita, que privilegia a redução do papel do Estado, a centralidade do ajuste fiscal como eixo organizador da política econômica e a crença de que a integração aos mercados globais, por si só, seria capaz de induzir crescimento e eficiência.

Na prática, essa orientação tem produzido, em diferentes momentos da história recente, maior vulnerabilidade externa, perda de densidade industrial e aprofundamento das desigualdades. Ao reduzir a capacidade do Estado de coordenar investimentos e proteger setores estratégicos, o país se torna mais exposto às oscilações internacionais — justamente em um momento em que as grandes potências reforçam políticas industriais e mecanismos de proteção.

Há, portanto, uma diferença fundamental na forma de compreender o próprio Estado. Para um campo, ele é instrumento de construção nacional. Para o outro, tende a ser visto como obstáculo a ser contido.

Essa divergência ganha contornos ainda mais decisivos no contexto atual. Em um ambiente internacional marcado por guerras, disputas tecnológicas e reorganização das cadeias produtivas, a ausência de estratégia não é neutralidade — é abdicação.

Porque governar o Brasil hoje não é tarefa rotineira. É tarefa de alta complexidade. O país enfrenta pressões inflacionárias, custo de vida elevado, desigualdade persistente e, simultaneamente, está inserido em um cenário internacional no qual decisões externas impactam diretamente sua economia — seja pelo preço da energia, pela reorganização das cadeias produtivas ou pela instabilidade financeira global.

A política externa norte-americana, cada vez mais orientada pela confrontação, por sanções e por rearranjos estratégicos agressivos, contribui para um ambiente global volátil, no qual a economia se torna crescentemente subordinada à geopolítica.

Esse é o mundo real.

E é nele que o Brasil precisa se posicionar.

Internamente, o quadro tampouco é simples. O país permanece atravessado por forte polarização, convive com episódios que tensionam instituições e enfrenta a atuação de uma direita radicalizada que frequentemente opera na lógica da deslegitimação e do confronto permanente.

Nesse contexto, a condução do Estado exige mais do que oposição ruidosa ou alinhamento ideológico automático. Exige responsabilidade política, capacidade de mediação e compreensão da escala dos desafios.

É justamente essa dimensão que desaparece quando o debate é reduzido a comparações simplistas.

Não se trata de idade, carisma ou estilo. Trata-se de preparo, trajetória e capacidade efetiva de governar em um ambiente de crise sistêmica.

O Brasil não é um espaço para improvisação política.

Não é um país que possa ser conduzido como extensão de práticas que banalizam o interesse público. E não pode, sobretudo em um momento como o atual, ser entregue a lideranças que não demonstraram, ao longo de sua trajetória, capacidade de compreender a complexidade do mundo em que estamos inseridos.

Comparar, nesse caso, não esclarece. Desinforma.

Apaga aquilo que deveria ser central: a diferença entre ocupar o poder e estar preparado para exercê-lo.

Em tempos de guerra, essa diferença deixa de ser detalhe. Ela se torna decisiva.

(*) Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).



As terras raras e praias são da União | Os vendilhões da pátria | Blog do Gerson Nogueira

 

Por Heraldo Campos

Nesse ano de eleições gerais, os oportunistas e entreguistas de plantão começam a botar as manguinhas para fora. Do lado dos bens minerais, nunca é demais lembrar que por lei eles pertencem à União e não aos estados e, portanto, não adianta quererem se arriscar para explorar as terras raras, por exemplo, desrespeitando a Constituição brasileira. Por outro lado, o mesmo pode-se dizer dos “patriotas” que pretendem privatizar as praias Brasil afora com a construção de resorts e similares para atender as elites das mamatas.
O lantânio é um elemento químico que inicia a série dos lantanídeos ou terras raras, com 15
elementos (do lantânio ao lutécio), de propriedade metálica, que pode ser encontrado em minerais como a monazita, com fórmula geral (Ce, La, Y, Th) PHO4.

Guarapari, um dos principais pólos turísticos do Estado do Espirito Santo, é conhecida por ter praias com areias monazíticas para as quais são atribuídas propriedades medicinais e terapêuticas. (1)

Com relação a privatização das praias, não faz muito tempo, os jornais e a mídia televisiva noticiaram mais essa aberração que vem rolando no domínio da câmara dos deputados federais.

“Convenhamos que isso não vem de agora. Muitas praias ao longo do litoral da costa brasileira foram cercadas, fechadas para acesso livre do público, sempre com guaritas muito bem equipadas e privatizadas na prática. Uma pedra cantada há décadas e que agora parte dos ilustres deputados querem botar uma pá de cal nesse sensível tema ambiental, para entregar de vez o que é de todos para certos grupos especuladores. Isso nem é coisa de parlamentar conservador. É atitude de parlamentar predador.” [2]

Por isso, nesse ano de 2026, uma forma de afastar os golpistas, geralmente travestidos de
candidatos “anti-sistema”, é não votando neles na boca das urnas. Alguns políticos eleitos para mandatos do período 2019 a 2022, com esse tipo de pensamento, por pouco não levaram o país para mais uma tenebrosa ditadura. Seria, por acaso, essa uma pauta de candidatos à Presidência da república que gostariam de explorar as terras raras e privatizar as praias, que são patrimônios da União?

“As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.” – Chico
Buarque.

Fontes:
[1] “O lantânio é nosso”. Artigo de Heraldo Campos de 30/07/2025.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/07/o-lantanio-e-nosso.html
[2] “Privatizar praias é pedra cantada”. Artigo de Heraldo Campos de 28/05/2024.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2024/05/privatizar-praias-e-pedra-cantada.html

  • Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

Documentário sobre Seymour Hersh homenageia jornalismo investigativo e antissistema | Blog do Gerson Nogueira

 

Por Caio Coletti, no Omelete

Há de se admirar um filme que sabe onde terminar. Seymour Hersh: Em Busca da Verdade, documentário sobre o jornalista estadunidense do título, acaba em uma fala do biografado que não só resume quem ele é, e por que sua vida foi como acabamos de testemunhar, mas também por que ver um filme sobre ele é importante exatamente hoje: Hersh é uma espécie em extinção, e isso é perigoso.

O final bem colocado, é claro, é só uma última tacada talentosa da dupla de diretores Laura Poitras (vencedora do Oscar de melhor documentário por Citizenfour) e Mark Obenhaus. Até porque os dois se mostram, nas 2h anteriores de Em Busca da Verdade, bastante desenvoltos na arte de costurar acontecimentos e manejar a linha do tempo de uma vida.

E não é como se a missão fosse fácil: embora Hersh tenha desempenhado um papel em momentos emblemáticos da história dos EUA, ele nunca foi o protagonista deles, e sua mídia (quase) sempre foi a palavra escrita – em outras palavras, material de arquivo é escasso. Em Busca da Verdade por vezes sofre com isso, lançando mão de imagens genéricas que diluem o seu impacto, mas na maior parte do tempo o filme dança ao redor dessa escassez através de entrevistas com o próprio Hersh, sem deixar de fora os espinhos de sua personalidade desconfiada e sua retórica defensiva.

Assisti-lo é interessante porque ele nunca parece menos do que real. Como qualquer um de nós faria, ele se encolhe diante de críticas, e se mostra ferozmente reservado sobre tudo o que possa transformá-lo de contador de histórias em personagem. O entrevistado relutante para acabar com todos os entrevistados relutantes, enfim. E Poitras, especialmente (a voz dela é sempre ouvida durante os momentos de conflito), sabe cutucar sem se intrometer.

Acima de tudo, no entanto, recapitular a carreira de Hersh deixa transparecer que seu trabalho jornalístico sempre foi baseado na fundação verdadeira de que há algo escondido embaixo do tapete dos EUA… e, provavelmente, algo ainda pior escondido debaixo da sujeira que você encontrar por lá.

O filme elenca contextos em que a inflexível resistência de Hersh a adotar a “narrativa oficial” sobre a qual todo o seu país descansa foi saudada como heroísmo (quando ele descobriu horrores perpetrados pelo Exército no Vietnã e no Iraque, por exemplo), mas também contextos em que virou vilania (quando ele contestou o mito da Casa Branca de Kennedy, ou desafiou a moralidade do governo ucraniano durante a guerra com a Rússia). Poucas vezes um documentário sobre uma figura “controversa” foi tão claro em seu resgate histórico de quando, e por quem, a controvérsia em questão foi criada.

O grande trunfo de Em Busca da Verdade é compilar as contra-narrativas ouvidas e relatadas por Hersh durante sua carreira, e entender o papel que elas desempenharam no correr da história dos EUA – um país patologicamente indisposto a confrontar a sua própria cultura de violência, a sua tendência a desumanizar o outro, a corrupção absoluta do seu poder absoluto (ou, ao menos, percebidamente absoluto) na política global. Num mundo em que é muito mais fácil aceitar as histórias que nos contam, é preciso gente que não se contente e conte outras.

Muito frequentemente, de fato, é um caso de vida ou morte.

MY LAI E PULITZER

Quando Seymour Hersh revelou o massacre cometido, em 1968, por soldados americanos em My Lai contra civis vietnamitas, inclusive bebês, o jornalista foi acusado de atentar contra o interesse nacional. Penou para publicar a reportagem. Os horrores lhe renderam muitas noites sem dormir e um Pulitzer.

Em 2004, denunciou torturas e abusos sofridos por prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. As Forças Armadas chiaram novamente. De seus pares, recebeu o epíteto de “aquele que faz o poder tremer”. Teimosamente na ativa aos 88 anos, ele é a razão de ser de “Seymour Hersh: em busca da verdade”, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus, pré-indicado ao Oscar e disponível na Netflix.

Lá se vão duas décadas desde que Poitras, após devorar os textos de Hersh na New Yorker sobre a Guerra ao Terror do governo George W. Bush, quis cooptá-lo para o filme. Perfilá-lo, defendia, seria ideal para escancarar o ciclo de abuso de poder em Washington desde os anos 1960. À época, o jornalista justificou sua negativa com a necessidade de proteger suas fontes.

Há três anos, a morte de informantes, a insistência de Poitras e os filmes por ela dirigidos no período garantiram sua bênção ao projeto. “Em busca da verdade” foi finalizado com Donald Trump de volta à Casa Branca, quando a reflexão sobre o precário estado da democracia americana, a propagação de fake news e o cerco de Washington a uma imprensa em crise está na pauta do dia.

“Hoje são mais nítidas as consequências da impunidade dos crimes cometidos pelos governantes. Desgraçadamente, a escala do que eu queria mostrar aumentou. Por outro lado, o posicionamento do filme se fortaleceu”, afirmou a diretora.

(Com informações de O Globo e Folha de S. Paulo)