O crítico Antonio Candido disse, certa vez, que quem é apaixonado por livros deve fazer alguma loucura por eles, pelo menos, uma vez na vida.
No caso de Candido, a loucura foi, na juventude, deixar de pagar o aluguel para comprar livros. Eu, por exemplo, deixei de pagar a faculdade em que estudava para gastar nos sebos e livrarias de Porto Alegre.
A verdade é que quem gosta de livros não tem limites, tem obsessão por eles. Lembro que, quando comecei a ler literatura, já com meus 24 anos, fiquei tão obcecado pelos livros, que logo quis ter a minha própria biblioteca. Eu queria recuperar o tempo que havia perdido longe deles.
Talvez este seja um atestado de quem fica doente de livros: querer ter a própria biblioteca, ter livros em casa, perto de si, ao alcance das mãos e dos olhos, dormir perto deles e tratá-los como pessoas, conversando com eles, questionando, concordando, estabelecendo um diálogo mental e profundo enquanto vamos sublinhando suas páginas e deixando nossa marca.
Quem é obcecado por livros tem dificuldade em se desfazer deles. Um obcecado por livros não lê sozinho, precisa partilhar o que leu, querendo que o outro sinta a mesma alegria, a mesma impressão, como se alcançar a profundidade só fosse possível no coletivo.
Por isso tenho insistido que os clubes de leitura têm sido uma espécie de movimento literário dos nossos tempos. Digo, não necessariamente um movimento estético de escritores, mas um movimento de leitores, ou melhor, de obcecados por livros.
Certa vez, fui convidado para participar de um clube de leitura online para falar de um de meus livros. Era uma época em que os clubes começavam a se tornar comuns. Na data e horário, entrei na sala virtual.
Quem me atendeu foi uma senhora sorridente e simpática. Dizia que estava muito feliz por eu ter aceitado participar, eu retribui a gentileza.
No entanto, quando perguntei onde estavam os outros participantes, a senhora disse, com tranquilidade, que o clube de leitura só tinha ela mesma, por enquanto. E arrematou dizendo: "É que estou começando agora meu clube". A vontade de partilhar a leitura foi maior do que esperar a formação de um grupo.
A leitura, embora seja solitária, se complementa mesmo é no coletivo. Quem tem obsessão pelos livros, escolheu conviver com eles, todos os dias de sua vida e, portanto, gosta de pessoas que se pareçam com ele.
O livro que estamos lendo será sempre o primeiro. Porque nossa imaginação se regenera e voltamos aos alumbramentos de quem lê pela primeira vez uma boa história.
Por isso trouxe aqui algumas obras cujos personagens foram afetados de maneira profunda pelos livros.