29 maio, 2026

Sem equipe e até sem gabinete, vereadoras concentram atendimento e comunicação do mandato em cidades com até 20 mil habitantes

 

Sem equipe e até sem gabinete, vereadoras concentram atendimento e comunicação do mandato em cidades com até 20 mil habitantes

Em Simonésia (MG) e Calçoene (AP), rotina inclui responder moradores no celular pessoal, organizar demandas, produzir e postar conteúdos e tentar explicar à população o que foi votado na Câmara

As mulheres são maioria da população brasileira, mas seguem sub-representadas nas Câmaras Municipais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas representam 51,5% da população do país. Nas eleições municipais de 2024, o número de vereadoras eleitas cresceu 12% e chegou a 10.537, de acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Em um país em que cerca de 70% dos municípios têm até 20 mil habitantes, segundo dados do Censo 2022 do IBGE, casos como os de Simonésia, na Zona da Mata mineira, e de Calçoene, no Amapá, ajudam a mostrar como a falta de estrutura ainda pesa sobre mandatos femininos fora das capitais. Nessas duas cidades, atendimento à população, organização das demandas e comunicação do mandato ficam concentrados nas próprias vereadoras. Simonésia tem uma população estimada em 20.431 habitantes em 2025. Calçoene, 11.461.

Em Simonésia, a jovem vereadora Railyne Paula está no primeiro mandato e diz atuar sem equipe, sem assessoria e sem gabinete, além de acumular funções como professora e agricultora familiar. Segundo a parlamentar, a sobrecarga do mandato afeta diretamente a comunicação com a população. Jovem, sem apoio fixo e a única integrante da oposição na Câmara em que atua, ela precisa dividir o tempo entre o trabalho legislativo e a carência de um planejamento estruturado até mesmo para a sua comunicação com os eleitores. “Eu tenho que dar conta de ser a mídia”, disse.

A vereadora conta que contratou, com recursos próprios, uma profissional para produzir quatro posts por semana. Fora isso, o restante do trabalho de comunicação segue com ela. De acordo com Railyne, a falta de estrutura dificulta manter constância, explicar com rapidez o que é votado na Câmara e transformar o trabalho do mandato em comunicação acessível para a população.

Na cidade, a população chega até ela por vários caminhos. Railyne diz que é abordada no supermercado, na feira e nas comunidades rurais. Também recebe mensagens nas redes sociais, no WhatsApp e em um grupo informativo do mandato. Segundo ela, os contatos vão de pedidos de informação e denúncias a solicitações de ajuda financeira, cesta básica e pagamento de contas.

Já em Calçoene, a vereadora Gleuciane Sarmento, a Gleu da Pesca, relata uma rotina semelhante. Sem assessor para atender os moradores, fazer triagem dos pedidos ou organizar retornos, ela diz que o contato com a população fica concentrado no próprio celular. “O único contato que as pessoas têm comigo é por meio das redes sociais ou pelo meu próprio celular”, afirmou.

Isso afeta principalmente a comunicação do mandato. Gleuciane conta com apoio pontual de um social media, mas diz que isso não resolve a rotina. Segundo ela, o profissional ajuda em algumas ideias e gravações, mas não consegue acompanhá-la nas agendas nem dar conta de todo o conteúdo que precisaria ser produzido. Com isso, ela divide a rotina com seu trabalho formal em uma indústria de pesca com os  vídeos, respostas públicas e devolutivas sobre requerimentos atendidos ficam para trás.

Ela cita como exemplo um episódio recente que envolveu a cobrança por melhorias na iluminação pública. Depois de publicar um vídeo sobre o tema, viu a gestão responder publicamente à crítica. Queria gravar uma réplica e atualizar os munícipes sobre a situação, mas não conseguiu encaixar a tarefa na rotina. “Já era para eu ter feito, mas ainda não consegui”, disse.

As duas participam do Mandata Lab, programa gratuito da Labóra voltado a 32 vereadoras e suas equipes, com formação em planejamento e comunicação estratégica. O grupo reúne parlamentares de 13 partidos nas cinco regiões do país.

Para Mariana Bernd, coordenadora geral e estratégica da Labóra, a falta de estrutura pesa em várias áreas do mandato, mas aparece com força também na comunicação. “Elas não têm equipe de assessoria nem de comunicação. Então acumulam funções”, afirma. Segundo ela, esse acúmulo prejudica a constância da comunicação e dificulta o planejamento, porque muitas acabam absorvidas pelas urgências do dia a dia e sem tempo para organizar a estratégia do mandato, definir prioridades e manter o diálogo com a população.

Na avaliação dela, a dificuldade de planejar a comunicação em cidades pequenas também limita a presença pública desses mandatos fora dos circuitos mais visíveis da política. Aponta ainda que essa dimensão é uma forma de ampliar a capilaridade do debate público e político a partir dos territórios.


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Sobre a Labóra  
 
A Labóra Oficina de Comunicação Política é uma organização fundada em 2021 para fortalecer a democracia por meio da formação em comunicação estratégica e marketing político. Oferece oficinas e consultorias a parlamentares, candidatas e lideranças do campo progressista, com foco em mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e moradores das periferias. Também lançou a Mandata Lab, programa gratuito de formação em comunicação para vereadoras em todo o Brasil.




Tais Gomes
Assessora de Imprensa
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