"Olá, eu sou o Luiz Henrique Matos, novo colunista do UOL. Por aqui, toda semana, escrevo na newsletter sobre mídia, cultura digital e literatura. Até a próxima!" No dia em que eu me tornar governador do universo, assinarei como primeiro ato o decreto obrigando pessoas a usar fones de ouvido para escutar recados em áudio, fazer ligações de vídeo e assistir a posts animados em redes sociais quando estiverem em lugares públicos. Sob pena de assistir a um show do Oswaldo Montenegro em tributo a ele mesmo em velocidade 0,8x. Enquanto isso não acontece, me revisto da convicção de que, se a pessoa não se importa em tornar público o que consome em seu dispositivo ao invadir o ambiente com seus ruídos, também não vai se incomodar caso quem esteja à sua volta participe, o que me dá o direito de participar de suas ligações, comentar as mensagens e compartilhar o uso da tela se o vídeo sendo assistido me despertar interesse. Eu costumava ter uma mensagem de status no WhatsApp que dizia: "Não mande áudios, por favor". Mas, alguns meses antes do início da pandemia, contratamos um marceneiro para fazer móveis para nosso apartamento e sempre que eu lhe mandava mensagens de texto com instruções ou dúvidas, ele me respondia com áudios. Eu insistia em responder com texto para conseguir pontuar itens específicos nas imagens que anexava, mas ele devolvia com gravações de voz, mesmo que fosse para comentários curtos. Certa manhã, ele esteve em casa para tirar medidas e revisar alguns pontos do projeto e foi então, observando como fazia anotações em cima da planta aberta sobre a mesa, que me dei conta: ele não sabia escrever direito. Suas mensagens não eram fruto de preguiça ou uma forma de poupar o tempo dele ao custo do meu (motivo pelo qual ainda implico com amigos e familiares que insistem em me enviar seus podcasts), mas um jeito de conseguir se comunicar com clareza e velocidade. Depois disso, contratamos um pintor e um entregador, uma funcionária que nos ajudou em casa por um tempo e a lógica se repetiu em diversas ocasiões, de tal forma que acabei aderindo ao formato quando me dava conta desse padrão. Em 2024, Mark Zuckerberg disse que os brasileiros enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que usuários de qualquer outro país do mundo. Segundo uma pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box divulgada no mesmo ano, 98% dos telefones no Brasil têm o aplicativo instalado. Muitas pessoas preferem enviar recados nesse formato porque talvez seja a forma mais eficiente e clara de se comunicar. Calcula-se que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos estejam na condição de analfabetismo funcional (pessoas que têm dificuldade para entender textos simples ou fazer contas). Entre esses, 7% são analfabetos absolutos. Os dados são do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), iniciativa da Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro. É um número espantoso e que tem como efeito colateral uma parte razoável das dificuldades que enfrentamos como sociedade. É bem-vindo, portanto, qualquer recurso que permita a essa fatia da população participar da vida social, cultural e econômica. Os "áudios de zap" acidentalmente se tornaram um instrumento de inclusão. A mesma pesquisa do Inaf revelou que entre os analfabetos funcionais, 86% utilizam WhatsApp. Eu ainda escuto esses recados em atitude relutante e velocidade 2x, de forma que, em minha mente, todo mundo com quem converso tem a voz de Alvin e os Esquilos, mas enquanto mordo a língua para minha rabugice umbigo-cêntrica, me dou conta de que para além dessa população, mensagens de voz também são úteis para qualquer grupo com menor letramento digital ou com impedimentos para o uso funcional desses dispositivos. Idosos, pessoas com deficiência e crianças (com as devidas ressalvas quanto ao uso de dispositivos conectados por menores de 12 anos) se beneficiam dessa possibilidade. É um alento e uma decepção. Sou do tipo que gosta de ter coisas fúteis das quais reclamar e me convencer de que áudios são um recurso decente para tanta gente, enfraquece meu plano de governo para dominação universal. Mas, entre os áudios escutados sem fone e as mensagens ignoradas, que nos torturem os versos do menestrel deste meu reino idealizado: "Quer as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor (...) Pois metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo". [refs]- Esta semana, eu fiquei lendo sobre porque é tão difícil nos contentarmos em levar uma vida normal, renascimento dos telefones com fio e me perdi nessa reportagem do Leão Serva aqui no UOL com povos isolados no Amazonas.
- Escutei um monte de episódios de podcast falando da dominação de IA em nossas vidas (aqui falando do fim dos empregos, aqui o CEO do Google comentando nossa incapacidade de processar tanta informação e aqui os fundadores da Anthropic na Oprah, o que basicamente se explica) e li que os jovens estão deixando de lado o uso de telas para… fazer crochê (oi, mãe!).
- No domingo, assistimos a Devoradores de Estrelas e quero assistir de novo. Assisti também à entrevista com a Dra. Luana Araújo no Missão Saber (programa do Murilo Garavello aqui no UOL) e já não sei se quero viver 120 anos.
- E se você ficou até aqui, deixo o convite para ler meu primeiro texto aqui no UOL, sobre livros e leituras no canal Livros Mudam Vidas: Tudo, menos livros.
|  | Entrada para o mercado de Huanan, onde teria surgido o vírus da Covid. | Nelson de Sá/UOL |
| Wuhan mal se lembra da Covid, mas o mercado continua cercado por tapumes |
| No dia 1º de janeiro de 2020, três semanas após um vendedor do mercado de Huanan dar entrada num hospital de Wuhan, com o que parecia ser uma gripe forte, o mercado foi fechado. Está assim até hoje. Fui lá na semana passada e continuava cercado por tapumes. No início da tarde, um entregador entrou com comida e logo saiu. O primeiro andar, com acesso por uma rampa lateral, foi reaberto para um shopping só de óticas, com poucos clientes. Um segurança falou para me afastar quando cheguei perto de uma passagem para o térreo. José Renato Peneluppi Jr., advogado brasileiro que se mudou para Wuhan há 16 anos, ajudou a achar o mercado e me virar na cidade, que é imensa. Ele ficou conhecido naquele janeiro de 2020 porque saiu poucas horas antes do lockdown da cidade. Descreveu toda a experiência para o UOL, inclusive o retorno meses depois. "Hoje é muito raro alguém comentar, falar a respeito", diz ele. "Não é uma coisa que marcou a cidade, um trauma. Foi uma coisa que passou. O mercado fechou por pressão internacional. Eles queriam o mercado fluindo, mas aquelas comitivas que vinham da Organização Mundial de Saúde botavam pressão para preservar o lugar. Eles acabaram cedendo, fecharam. E esse mercado ficou estigmatizado." Ele acredita que houve "orientalismo, quase preconceito, racista mesmo, porque tinha animais vivos e 'eles comem', mas todo lugar tem esse tipo de mercado, você vai achar no interior de Minas". No entender dele, é uma coisa comum, "não um bicho de sete cabeças". E hoje nem a OMS sabe se começou ali mesmo, acrescenta. Peneluppi diz que "foi aí, exatamente, o momento em que começa o conflito entre Ocidente e Oriente, esse estresse com a China". Mas ele tem esperança de que, como os moradores de Wuhan, também o resto do mundo esteja deixando a pandemia para trás. "Aqui eu tenho que lembrar as pessoas. A memória vai se apagando. Não ficou marca, meio que passou." |
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|  | Cena do filme 'Dear You' ou, na tradução do título em chinês, "Carta de Amor para a Vovó". | Divulgação |
| 'Central do Brasil', versão chinesa |
| Um fenômeno inesperado do cinema chinês passou no domingo a marca de 1 bilhão de yuan nas bilheterias. "Dear You" ou, na tradução do título em chinês, "Carta de Amor para a Vovó", acompanha a busca de um neto chinês por seu avô estabelecido na Tailândia, que enviava cartas com dinheiro para sua avó, no sul da China. Lá, descobre que o avô havia morrido há muito tempo e que as cartas eram enviadas por uma jovem. As revelações e memórias levam o cinema a uma abundância de lágrimas e a uma cotação de 9,1 (do máximo de 10) na plataforma Douban. A produção independente custou apenas 14 milhões de yuan e, com sua história bem contada através de cartas e com sua bilheteria, é vista como uma lição para o resto da indústria cinematográfica chinesa. |
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|  | Cena da série 'The Protagonist', a protagonista. | Reprodução/CCTV |
| A atriz e a Revolução Cultural |
| Só vi dois dos 48 episódios, por enquanto, mas a televisão chinesa também está às voltas com um fenômeno, a série "The Protagonist" ("A Protagonista"). Só que esta é uma superprodução de Zhang Yimou para a rede CCTV e a TV paga da Tencent, com música-tema cantada por Faye Wong, que remete ao gênero regional chamado de Ópera de Qinqiang. É a história do esforço de uma menina para se desenvolver como atriz e se estabelecer numa companhia —em meio às campanhas políticas da Revolução Cultural, que acabam levando seu tio e atrapalham sua trajetória para chegar à posição de protagonista. As cenas de vida em comunidade popular lembram aquelas do filme "Dear You" e também retratam uma cultura regional, mas do norte da China. A série é uma das poucas exceções ao silêncio que cercou os 60 anos da Revolução Cultural, completados no último dia 16. |
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