Sempre que alguém cita o Grande Crash da Bolsa de Valores de Nova York, a primeira coisa que vem à mente das pessoas é a Terça-feira Negra (Black Tuesday) de 29 de outubro de 1929. Porém, em termos de queda percentual, o tombo da Black Monday, segunda-feira 19 de outubro de 1987, foi maior.
Naquela segunda, o índice Industrial Dow Jones perdeu 22,6% de seu valor. O índice S&P500, 20,47%.
Em 1987, Wall Street era o centro das atenções de todo o mundo dos negócios. As operações com junk bonds (“obrigações de lixo”, em tradução livre) resultavam em fortunas feitas de um dia para o outro e incendiavam o imaginário dos profissionais de mercado.
O negócio funcionava da seguinte maneira: financistas espertos (“espertalhões” seria uma maneira mais correta de defini-los) emitiam e vendiam os tais junk bonds remunerando os investidores com taxas altíssimas de retorno.
Com o produto da venda, eles adquiriam o controle acionário de empresas que tinham sólidos bens de capital mas se encontravam em estado pré-falimentar. Fosse por má administração, fosse por condições de mercado.
Ato contínuo, os novos donos dispensavam a maioria dos empregados e fatiavam as companhias. Vendiam os imóveis, instalações, veículos, maquinário e tudo o mais que valesse alguma coisa.
Com o produto da venda, resgatavam os junk bonds e embolsavam o resto do dinheiro.
Quem bem retratou aqueles tempos foi o celebrado escritor e jornalista norte-americano Tom Wolfe em seu livro The Bonfire of the Vanities (A Fogueira das Vaidades).
O personagem principal do romance, Sherman McCoy, um yuppie que, entre outras coisas, se sentia obrigado a usar ternos e gravatas caríssimos e a alugar uma limusine com motorista para ir a uma festa a menos de 100 metros do prédio onde morava, era um dos Masters of the Universe, outra expressão cunhada por Wolfe.
Não por coincidência, naquele ano de 1987 foi também lançado o filme Wall Street: Poder e Cobiça, com Michael Douglas interpretando o personagem principal, Gordon Gekko, um trader da Rua (Wall Street) cujo ofício era justamente lançar junk bonds e abater empresas.
McCoy e Gekko pareciam irmãos, assim como irmão deles seria o personagem Edward Lewis, vivido por Richard Gere em Pretty Woman (Uma Linda Mulher), este último um filme de 1990.
Todos os três eram “junkbondianos”.
Voltando a 1987, naquela ocasião eu operava nos principais mercados internacionais de futuros e de opções sobre futuros e espreitava um possível crash da New York Stock Exchange.
Minha atenção fora despertada por diversos artigos do professor John Kenneth Galbraith, que eu conhecera pessoalmente 21 anos antes (ele era um dos conferencistas da NYU, onde eu estudara).
Galbraith insistia que a Bolsa de Valores de Nova York estava vivendo uma bolha especulativa e que um crash era questão de tempo. Muito pouco tempo.
Pois bem, em agosto daquele ano eu comecei a comprar puts (opções de venda) out of the money (fora do dinheiro ou de exercício improvável) do S&P 500 (índice formado por cerca de 500 grandes empresas negociadas nas Bolsas americanas) com vencimento em setembro para minha carteira pessoal e para as carteiras de meus clientes.
Se o crash acontecesse, seria a porrada de minha vida.
Chegou o dia 17 de setembro de 1987; os puts venceram sem que a Bolsa tivesse caído.
Como eu acreditava em Galbraith e no crash, a estratégia óbvia seria rolar a operação. Ou seja, comprar puts com vencimento em dezembro.
Só que os puts para Dezembro eram caros pois tinham muito time value (valor do tempo). Então resolvi esperar um pouco.
Foi o maior erro que cometi nos 37 anos nos quais operei na linha de frente do mercado financeiro.
Na quinta-feira 15 de outubro de 1987, a Bolsa de Nova York começou a oscilar perigosamente. Os preços dos puts dobraram. Eu esperei, em vão, que caíssem um pouco para comprá-los.
Veio a sexta, dia 16. A New York Stock Exchange simplesmente “esmerdeou”. Os puts agora eram disputados aos tapas.
Se eu tivesse comprado as opções assim mesmo, aplicando, digamos, uns 50 mil dólares, teria me tornado um multimilionário. Não só eu como meus clientes.
Depois do fechamento da Bolsa na sexta, ficou óbvio que a segunda-feira, dia 19, seria o dia do crash. Os gráficos de curto (daily), médio (weekly) e longo (monthly) prazo assim o demonstravam.
Na Parte 1 de meu livro Os Mercadores da Noite, eu retrato uma situação parecida:
“Já era meio da noite na Europa. O sol se punha na América e nascia no Extremo Oriente. A decisão fora tomada. Os profissionais de mercado, os grandes empresários, os chineses, os magnatas do petróleo, os bombeiros de Tóquio, os administradores de fundos e toda a multidão de pequenos e médios investidores iriam vender ações na abertura dos mercados e tratar de se defender de qualquer maneira.”
Na segunda-feira 19 de outubro de 1987, a Bolsa de Valores de Nova York já abriu no fundo do precipício.
Aqueles puts que eu deixei de comprar, porque estavam caros, agora valiam 50 vezes mais.
Um dos meus clientes não perdeu a oportunidade de me humilhar:
“Se você, Ivan, sabia que o crash iria acontecer, e tinha total liberdade de atuar com meu dinheiro, por que foi tão covarde?”
Nos 234 anos de existência da Bolsa de Valores de Nova York, foi um dos seus piores dias. Pior do que a queda por ocasião do início da Primeira Guerra Mundial, pior do que na segunda-feira que se seguiu ao ataque de Pearl Harbor, pior do que no dia do ataque cardíaco do presidente Eisenhower, pior do que por ocasião da tomada dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã.
Naquela Segunda-feira Negra eu passei o dia todo perplexo, bestificado, atônito, olhando para meu terminal de cotações, vendo a dança dos números perpetrar exatamente a coreografia que eu havia previsto. Que eu havia ensaiado um sem-número de vezes.
A vontade que tive foi a de abandonar a profissão, já que não tinha capacidade de exercê-la. Só não fiz isso porque tinha de sustentar a família e não havia nenhuma oportunidade de trabalho ao meu alcance naquele momento.
Em 1987, eu já operava no mercado financeiro havia 29 anos. Desde então, já se passaram outros 39, tempo mais do que suficiente para que eu me conceda uma absolvição.
Felizmente, no ano seguinte ao do Crash, mais precisamente no segundo semestre de 1988, eu, finalmente, dei a grande tacada pela qual esperava havia três décadas.
Mas vou deixar para contar essa história em outra oportunidade.