O Brasil é o país mais biodiverso do planeta, mas extrai muito pouco valor econômico dessa riqueza. Ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação é essencial para mudar essa realidade. Por que o Brasil é tão biodiversoEm sentido amplo, diversidade biológica refere-se tanto ao número de organismos, espécies, ecossistemas presentes em uma área quanto à variabilidade genética contida neles. Segundo a Convenção sobre Diversidade Biológica, entre 15% e 20% da biodiversidade global está presente no Brasil. A diversidade biológica brasileira está distribuída entre seus seis biomas: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa, além do vasto ambiente marinho nas águas do oceano Atlântico. No Brasil, atualmente, são reconhecidas 53.828 espécies nativas, naturalizadas e cultivadas de plantas, briófitas, samambaias e fungos. Em relação aos animais, são 125.251 espécies descritas. Esses números provavelmente são maiores e podem ultrapassar 200 mil catalogadas em algumas décadas com mais pesquisas de campo, visto que os biomas brasileiros ainda são pouco estudados. A explicação para a alta diversidade biológica do Brasil tem origem em várias condições naturais, bem como em interações ecológicas e evolutivas. O Brasil é o quinto maior país do mundo em extensão territorial, e ocupa 47% da superfície terrestre da América do Sul. Essa vasta área abriga uma ampla variedade de relevos, solos e climas, dando origem a diversos ecossistemas heterogêneos e conectados. É importante reconhecer o legado dos povos indígenas na promoção da biodiversidade brasileira. O manejo das espécies nativas feito pelos povos originários tem sido importante para a conservação da biodiversidade há milhares de anos. O valor corrente da biodiversidade brasileiraO valor econômico corrente da biodiversidade brasileira pode ser observado a partir de dados oficiais disponíveis publicamente. Informações do Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra), na seção de economia e na subseção de agropecuária, permitem dimensionar o quanto diferentes produtos associados à biodiversidade contribuem para a geração de valor no país. A seguir, alguns desses dados são apresentados e comparados ao valor gerado por uma única espécie não nativa: a soja. Todos os dados referem-se ao ano de 2024. As plantas brasileiras oferecem uma ampla variedade de sabores, aromas, substâncias medicinais, ceras, óleos e fibras. Ainda assim, apenas cerca de 40 espécies da flora nativa ? que dão origem a mais de 50 produtos ? são exploradas economicamente no país. Isso significa que aproximadamente 0,08% da flora brasileira contribui diretamente para a economia nacional. Ao todo, o uso desses produtos gera pouco mais de R$ 60 bilhões por ano. Esse valor, no entanto, está fortemente concentrado em poucos produtos. A mandioca lidera a geração de valor, com aproximadamente R$ 18 bilhões por ano, seguida pelo cacau (cerca de R$ 15,3 bilhões) e pelo açaí cultivado (R$ 7,8 bilhões). Também se destacam o abacaxi (R$ 4,4 bilhões), a madeira em tora (R$ 3,2 bilhões) e o maracujá (R$ 2,6 bilhões). Outros produtos relevantes incluem borracha, erva-mate e goiaba, todos acima de R$ 1 bilhão por ano. Os peixes nativos também contribuem para o valor econômico da biodiversidade brasileira. Mais de 15 espécies e grupos são utilizados na aquicultura, o que gera cerca de R$ 3,1 bilhões por ano. Assim como no caso das plantas, esse valor é fortemente concentrado em poucas espécies. O destaque é o peixe tambaqui, que sozinho responde por mais de R$ 1,5 bilhão. Também têm peso relevante espécies como tambacu e tambatinga (cerca de R$ 542 milhões), pintado e outros surubins (cerca de R$ 200 milhões), pacu, patinga e matrinxã. No total, a exploração econômica da flora e da fauna nativas soma cerca de R$ 63 bilhões por ano. Em comparação, a soja, uma espécie não nativa do Brasil, gerou aproximadamente R$ 260 bilhões em 2024, mais de quatro vezes o valor total dos principais produtos da biodiversidade no mesmo ano. No conjunto da agropecuária, os produtos da biodiversidade representaram menos de 10% do total de R$ 655 bilhões em valores correntes em 2024. Finalmente, em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) nacional, estimado em R$ 11,7 trilhões em 2024, essa participação foi de apenas 0,54%. Esse é o paradoxo da biodiversidade brasileira: enquanto o Brasil tem a maior biodiversidade do planeta, ela representa menos de 1% da riqueza do país. É uma contradição que precisa ser resolvida. Dois caminhos para mudar o paradoxoHá décadas, o Brasil tem a maior taxa de desmatamento de ecossistemas tropicais do planeta. Somente na Amazônia brasileira e no Cerrado, cerca de 2 milhões de hectares foram desmatados por ano durante 30 anos até 2022. Em geral, essas áreas são convertidas em usos agrícolas, como pastagens para gado e monoculturas de soja. Esse processo de mudança no uso da terra tem reduzido de forma acelerada a diversidade biológica, tanto acima quanto abaixo do solo. Diante disso, é essencial zerar o desmatamento e a degradação dos biomas brasileiros. Hoje, uma parcela significativa da biodiversidade nacional está ameaçada de extinção. Dados da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) sugerem que cerca de 40% das espécies da flora e 10% das espécies da fauna estão classificadas como vulneráveis, ameaçadas ou criticamente ameaçadas. Além de interromper a perda de biodiversidade, o Brasil precisa cumprir seus compromissos internacionais de conservação da natureza e do clima. Também é necessário desenvolver o maior projeto de restauração ambiental do planeta no Brasil em resposta urgente pelo fato de que quatro biomas brasileiros ? Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga ? estão muito próximos do ponto de não retorno devido à interação sinérgica dos desmatamentos com as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global, recuperando, com espécies nativas, mais de 1 milhão de quilômetros quadrados desmatados nas últimas cinco décadas. O segundo caminho para superar esse paradoxo de baixo valor gerado pela biodiversidade passa por ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação. As centenas de milhares de espécies brasileiras representam uma fonte extraordinária de inspiração para novas tecnologias, produtos e processos. Ferramentas da chamada Quarta Revolução Industrial podem acelerar esse aproveitamento. Assim como ocorreu com a soja ? impulsionada por décadas de pesquisa pública, especialmente pela Embrapa ?, será necessário um esforço contínuo de longo prazo para transformar a biodiversidade de um ativo marginal em uma base relevante da economia nacional. Isso exige uma transição do modelo econômico atual, que ainda degrada a biodiversidade, para um modelo regenerativo e inovador, fundamentado no uso sustentável da biodiversidade, por meio da sociobioeconomia com a conservação de todos os biomas do país. É fundamental incluir os povos indígenas e seus conhecimentos nesse modelo regenerativo e inovador. Nesta transformação, a justiça social, a ampla repartição de benefícios e a redução das desigualdades desempenharão papéis centrais.
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