Este ano completo meu quinto ano de Ponte e, ao longo desse tempo, cultivei e cultivo um esforço mental e emocional para não me deixar levar pela dor coletiva por tantos corpos pretos violentados e mortos. Não chega a ser uma barreira ou muralha que me torna inumana, mas uma estratégia de sobrevivência emocional e mental. Porque quase toda semana um dos meus é “pego”, ferido, humilhado, morto. Nem sempre consigo me manter nesse esforço cansativo. Segunda-feira, 24/2, foi um desses dias.
Logo ao acordar, antes do expediente começar, me deparo com uma mensagem privada no meu Instagram pessoal. Um simples link que me levou até o caso de Igor Melo, no Rio de Janeiro. O que me assomou naquele instante foi o desalento, quase desespero silencioso, em ver mais um corpo tombado. Um colega de profissão que fazia altos corres para se manter e cuidar dos seus como muitos e muitos outros jovens negros.
Dentro de uma lógica racial, o fato de o PM da reserva que o alvejou ser também um homem negro não é um elemento que exclui o racismo dessa conta, como muitos querem fazer crer. Mas reforça que vivemos com tal lógica entranhada em nossas estruturas. 42% do contingente das polícias militares do Brasil é composto por pessoas negras – mas esse fato não impede que essa polícia siga sendo um dos algozes do povo preto.
Como disse o jornalista e pesquisador Dennis de Oliveira, autor de Racismo Estrutural: Uma perspectiva histórico-crítica (Dandara Editora, 2021) para a reportagem da Ponte: “O racismo, como componente estrutural e ideológico, não está ligado a quem pratica. Inclusive, a própria Lei Caó, a lei 7.716/1989, que tipifica o crime de racismo, não fala em momento algum ser uma lei somente para pessoas brancas. É uma lei para quem pratica racismo. A ideologia molda comportamentos também das pessoas que fazem parte daquele grupo discriminado.”
Isso se dá porque, como Cida Bento destaca em sua obra O Pacto da Branquitude (Companhia das Letras, 2022), “com base no racismo, grupos são escolhidos para morrer a partir de um discurso do Estado que os define como ameaça, justificando o seu extermínio para assegurar a ordem e a segurança”. Estamos assentados em uma estrutura social onde meu corpo e o cada um dos 56% da população brasileira seja considerado matável, perecível, desimportante para o Estado e para a sociedade.
Em um trecho de seu artigo para a coletânea “A resistência negra ao projeto de exclusão racial: Brasil 200 anos” (Ed. Jandaíra, 2022), o pastor, teólogo e ativista Ronilson Pacheco pontua que “quase sempre, assassinatos e genocídios que marcam a história do corpo negro tem por detrás uma gestão branca na concepção ou no ato fundador”.
Por isso, não deixa de ser racismo que um policial da reserva negro tenha se sentido plenamente à vontade para julgar e executar uma sentença ilegal em forma de tiro contra um corpo igual ao seu. Nem que a esposa desse policial tenha “reconhecido” Igor e Thiago como criminosos que a assaltaram, afinal nós, negros, somos todos iguais e qualquer um de nós pode cometer ou cometerá algum crime, de acordo com a lógica da supremacia branca. Nesse sentido, reconhecer este ou aquele como algoz dá na mesma.
Na reportagem de meu colega Paulo Batistella sobre o caso Igor, Fransérgio Goulart, coordenador executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), resume essa tragédia humana: “Esse caso materializa mais uma vez que há um genocídio da população preta a partir da política de segurança pública do Rio. E essa ideia de ‘justiçamento’ parte desse processo histórico que a sociedade branca e colonizadora construiu: com relação aos corpos pretos, eu posso fazer qualquer tipo de ‘justiçamento'.”
Sempre que algum caso da Ponte atravessa minha barreira, o cansaço torna-se como um cobertor a envolver meu corpo. A percepção de que a vida negra não é apenas uma luta pela vida, mas pela sobrevivência, não é nada animadora. Por sorte, meu trabalho na Ponte é um pequeno tijolo na luta antirracista. Mas é neste sentimento, essa pequena esperança, em que me apego para não ceder ao desalento causado pelo racismo.