Dois eventos recentes realizados em São Paulo reuniram nomes do setor empresarial para apresentar ideias e gerar debates sobre a economia sustentável. A mensagem é clara: é crucial que as empresas privadas se comprometam na busca pela neutralidade de emissões em suas operações e estratégias de negócio.
O COP30 Business Forum, realizado pela Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), reuniu nomes de peso, como o presidente da conferência de Belém, André Corrêa do Lago, e o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB).
Para uma plateia composta por executivos de grandes empresas, Corrêa do Lago foi objetivo ao afirmar que "sem vocês não tem COP". O embaixador explicou que a implementação das agendas de ação climática depende de outros atores além dos estados, como o setor privado.
O ativismo climático precisa se aproximar do setor privado para poder financiar as soluções para mitigar a crise climática. E o caminho passa pelo bolso. Como destacou Corrêa do Lago, o custo da inação é alto, e olhar para a sustentabilidade é um bom negócio.
O ministro substituto do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, João Paulo Ribeiro Capobianco, afirmou que não há incompatibilidade entre a agenda de transformação ecológica e o desenvolvimento econômico e social. Para ele, a sustentabilidade precisa da parceria entre setor público, setor privado e a sociedade civil.
Capobianco citou exemplos, como o Fundo Clima e o Ecoinvest, que demonstraram o apetite do setor privado por recursos e a capacidade de execução quando o governo age de forma articulada. Ele vê o Brasil como um player promissor no mercado global rumo à transição, dando o exemplo da restauração florestal como negócio. "O Brasil tem potencial de ser carbono negativo", afirmou, destacando que o governo tem o papel de garantir políticas públicas, estabilidade, segurança jurídica e crédito para que o setor privado possa avançar.
A mensagem do governador do Pará foi na mesma linha. Para Barbalho, só será possível construir um mundo sustentável com o envolvimento e a participação da iniciativa privada. O governador, que falou sobre a redução do desmatamento e a produção de cacau e açaí no Pará, vê o mercado de carbono como uma nova commodity e a restauração florestal através de concessões à iniciativa privada como caminho para o desenvolvimento sustentável.
É como disse Corrêa do Lago: são os estados que negociam e chegam aos acordos climáticos na COP, mas quem aplica são os empresários e os governos locais.
Exemplos não faltam. Davi Canassa, CEO da Reservas Votorantim, falou sobre o PIB da floresta, ideia que ele já havia defendido aqui mesmo nesta newsletter, afirmando que floresta em pé é um negócio para dar lucro.
No Impacta Mais, fórum de economia de impacto, organizado pelo Impact Hub, Fabricio Moreira, da Saint-Gobain, falou sobre a sustentabilidade como possibilidade de negócio, especialmente em relação à economia circular. "O resíduo lixo é uma matéria-prima, ela tem um valor enorme para a indústria. É uma matéria-prima confiável que resolve o problema do planeta e resolve o problema da indústria ao reduzir o uso de matéria-prima primária e o impacto ambiental".
E não é apenas de olho em negócios diretos que as empresas podem participar. O Fundo Vale, por exemplo, investe na aceleração de startups com foco em regeneração florestal. Um exemplo dessa atuação é a Belterra, que planta agroflorestas em áreas degradadas. Márcia Soares, gerente de Amazônia e parcerias do fundo, destacou que a organização tem financiado ações que possam aumentar a resiliência da economia de impacto. "A agenda climática é uma agenda econômica e é uma agenda social acima de tudo", disse.
Pensando na atuação local com impacto direto sobre pequenas comunidades, André Ferretti, gerente de economia da biodiversidade da Fundação Boticário, argumenta que a adaptação para as mudanças climáticas exige ações específicas para cada local, considerando as condições sociais, econômicas e ambientais. "Os negócios de impacto têm tudo a ver com isso, porque são alternativas para gerar renda, mudar realidades locais e contribuir para a sustentabilidade no local", diz.
A transição para uma economia sustentável e a busca pela neutralidade de emissões não são apenas imperativos ambientais, mas também trazem oportunidades econômicas. Se quisermos um futuro com menos emissão e uma economia que respeite o planeta, as empresas precisam se jogar de vez nessa missão, mudando o jeito de fazer as coisas.
A COP30, nesse contexto, será um palco para consolidar esses compromissos e viabilizar ações concretas, transformando o potencial da sustentabilidade em realidade para a economia nacional. Ou, nas palavras de Helder Barbalho: "Que possamos fazer desta COP uma COP que deixe de ser apenas de intenções e seja uma COP de implementações".