Um erro impensável transformou-se em escândalo internacional quando altos funcionários do governo americano discutiam detalhes de um ataque militar secreto contra rebeldes no Iêmen e, por engano, incluíram um jornalista no grupo de mensagens confidenciais. O caso expõe falhas alarmantes de segurança nacional no governo Trump.
"Se estivesse realmente em um roteiro de Hollywood, não seria aprovado, porque é absolutamente inverossímil", comenta José Roberto de Toledo sobre o incidente envolvendo Jeffrey Goldberg, editor da revista The Atlantic, que recebeu em tempo real informações classificadas sobre operações militares.
Um assessor da Casa Branca adicionou acidentalmente o jornalista em um grupo no aplicativo Signal que incluía o secretário de Defesa, o agente da CIA, o vice-presidente dos Estados Unidos, entre outras personalidades com acesso 'top secret'. O mais surpreendente é que ninguém no grupo notou a presença de um estranho.
"Como eles discutem isso no Signal e ainda não percebem quem está no grupo? Eles acabaram de desmoralizar a caquistocracia. A caquistocracia já não basta para definir o governo Trump", ironiza Toledo. "Nem o Bolsonaro conseguiu incluir no grupo de WhatsApp, no grupo de Signal, algum jornalista. É fato inédito no mundo", acrescentou.
As mensagens continham informações extremamente sensíveis: "A tal hora, daqui a duas horas, vários caças F-18 vão bombardear em tal posição, no Iêmen. Antes disso, vem uma onda de drones. Eles vão estar com um armamento XYZ", relata Toledo. Essas eram exatamente "as informações que o inimigo queria".
Após a publicação inicial da reportagem, a revista decidiu divulgar a íntegra das conversas, revelando não apenas a negligência com a segurança, mas também limitações intelectuais dos funcionários de alto escalão. Um exemplo destacado foi a intervenção do vice-presidente J.D. Vance, que queria adiar o ataque por achar que o canal de Suez era irrelevante para os EUA.
"O J.D. Vance simplesmente queria adiar o ataque porque, segundo ele, 'só 3% do comércio global com os Estados Unidos passa pelo canal de Suez'", conta Toledo, acrescentando que um assessor teve que explicar ao vice-presidente como funciona a cadeia global de suprimentos.
Após o ataque, que resultou na morte de mais de 50 pessoas, os participantes do grupo enviaram emoji da bandeira e fogo, comemorando terem "conseguido colapsar, destruir o prédio da namorada de um dos rebeldes Houthis", demonstrando insensibilidade com as baixas civis.
"A gente está muito malparado... Os russos devem estar rindo de orelha a orelha e os chineses também", destaca Thais Bilenky. "Se eles foram capazes disso, o que dá para esperar? O governo mal começou", pontou.
O caso levanta sérias preocupações sobre espionagem: "Se tem jornalista da The Atlantic com acesso a informações em tempo real sobre um ataque militar estratégico, imagina o que esses caras [de serviços secretos estrangeiros] já não estão descobrindo, dadas as vulnerabilidades que esses gênios abriram", conclui Toledo.