Era uma noite de 2016 quando Sergio Moro, o então super-herói da República de Curitiba, digitou uma mensagem que entraria para o folclore da operação Lava Jato. "In Fux we trust" [Em Fux nós confiamos, em tradução livre], respondeu ao então procurador Deltan Dallagnol, que acabara de relatar uma conversa promissora com Luiz Fux, ministro do STF, sobre os rumos da força-tarefa.
As mensagens trocadas entre os então juiz e coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal, que o mundo ficou sabendo por causa da Vaza Jato, a histórica série de reportagens publicada aqui no Intercept Brasil, revelavam o que já era evidente: no Supremo Tribunal Federal, o ministro era um aliado de primeira hora.
Quando necessário, Fux aparecia como um escudo protetor contra qualquer risco que pudesse frear a operação – e foi assim até na derrota final de Sergio Moro. Na votação do STF que confirmou a suspeição do ex-juiz, Fux foi um dos votos vencidos: se colocou contra a decisão da maioria dos seus colegas e, é claro, preferiu atacar a Vaza Jato.
"A suspeição, na verdade, pelo ministro Edson Fachin, foi afastada. Municiou [o julgamento na Segunda Turma] uma prova absolutamente ilícita, roubada, que foi depois lavada. É como lavagem de dinheiro. Não é um juízo precipitado. Essa prova foi obtida por meio ilícito. Sete anos de processo foram alijados do mundo jurídico", lamentou Fux, na época.
Agora, em 2025, “In Fux we trust” ressurge como mantra da extrema direita.
A esperança depositada no ministro não é mais sobre prisões preventivas ou delações premiadas – o que importa, quase dez anos depois, é que ele seja a tábua de salvação para um ex-presidente que, ironicamente, só chegou ao poder graças à Lava Jato.
A cena mais recente desse enredo aconteceu na quarta-feira, 26, na sessão da Primeira Turma do Supremo, onde Fux mostrou que será peça-chave no julgamento que pode condenar Jair Bolsonaro e outros aliados pela tentativa de golpe de estado.
No seu voto, o ministro expôs suas discordâncias com outros ministros, questionando a delação de Mauro Cid, defendendo o julgamento de Bolsonaro pelo plenário do STF e, mais que isso, relativizando o fato de que a própria tentativa de um golpe de estado já deva ser criminalizada.
"Há aqueles que entendem que a tentativa de golpe já é um atentado contra a democracia. Isso é uma solução que se dá. (...) Agora, a partir do momento que o legislador cria o crime tentado como consumado (...), no meu modo de ver há um arranhão na Constituição Federal, e também não se cogitou nem de atos preparatórios nem de tentativa do crime tentado, que é em caso consumado", afirmou Fux.