Imagem do Pantanal, na versão 2022, estrondoso sucesso no horário nobre da TV Globo. |
Ele era o pai, avô, tio ou padrinho que, a maioria de nós, gostaria de ter. Bonachão, amigo, alegre, prestativo, acolhedor, contador de causos, grande prosador, Benedito Ruy Barbosa era um homem movido pela emoção e fazia questão de não esconder isso. Um sábio, afirmo com veemência. |
O neto Bruno Luperi – herdeiro mais notório de seu vasto arsenal de histórias, publicitário e dramaturgo como o avô, escreveu com ele a novela “Velho Chico” (2016) e assina as releituras de “Pantanal” (2022) e “Renascer” (2024) – conta lembrar de ter visto o avô, diversas vezes, rindo ou chorando, sozinho, diante da máquina de escrever, encantado com seu próprio universo ficcional. |
Benedito Ruy Barbosa, nome fundamental para a telenovela, responsável por uma guinada marcante e prolífica na construção de cronotopos[1] no espaço televisual, partiu no último 7 de julho de 2026, abrindo imensa lacuna na Literatura do Brasil. |
Benedito Ruy Barbosa (Fonte: @pensefilosofiabr) |
Autor de obras seminais para a Teledramaturgia, embora não tenha sido o primeiro a ambientar histórias no campo, detém o pioneirismo de mostrar com consistência e verossimilhança a vida vivida nos rincões deste imenso continente chamado Brasil. Suas novelas e personagens foram/são esteio para debates cruciais sobre identidade nacional e pertencimento cultural. Criador da primeira novela educativa do país (“Meu Pedacinho de Chão”, produção conjunta da TV Cultura e TV Globo), exibida em 1971, foi um timoneiro ao trazer ao universo televisivo a discussão de temas cruciais onde antes havia abundância apenas de pautas referentes ao cotidiano das grandes cidades, sobretudo Rio e São Paulo. |
O “Velho do Rio”, personagem central da obra beneditiana – ícone do Realismo Mágico, em franca dialogia com a literatura do continente latino, berço e polo irradiador dessa forma de expressão -, com Osmar Prado em interpretação magnânima (Pantanal, 2022). |
Inventor do “Velho do Rio”, da Juma Marruá, a mulher que vira onça, do Tião Galinha, do Zé Inocêncio, da sem-terra Luana, do Coronel Epa, da professora Juliana, do capataz Zelão e do garoto Serelepe – além de outros queridos personagens do “Meu pedacinho de chão” -, Benedito gestou um baú de criações marcantes e fundamentais para que o Sertão chegasse ao horário nobre com toda sua relevância na formação da identidade cultural brasileira e no contexto sociopolítico do país. |
A sem-terra Luana, interpretada por Patrícia Pillar, marcante personagem da lendária “O Rei do Gado” (TV Globo, 1996/1997). |
Dizemos Sertão entendendo esse tão amplo universo – histórico, físico, geográfico e dramatúrgico – como qualquer grande faixa de terra afastada do litoral, incluindo suas diversas outras denominações: roça, arado, campo, pampa, pantanal, bioma, jalapão, floresta, selva. Tudo é Ser-Tão, um nome que, ainda hoje, leva muitos a enxergarem apenas atraso e vida pacata e sem atribulações, distante da pressa dos ponteiros e dos batimentos acelerados da vida urbana. Completo desconhecimento, que as novelas do ‘Seu Benedito’ trataram de dissipar com ênfase e extremo apuro literário. |
Juma e Maria Marruá, filha e mãe, mulheres fortes e magnéticas da obra de Benedito Ruy Barbosa: incentivo ao feminismo. |
A formação da nacionalidade, a imigração, a reforma agrária, o coronelismo, o patriarcado, a educação e a necessidade do respeito ao meio ambiente, realçando o Brasil como território historicamente marcado por desigualdades sociais gritantes, são pilares de sua vultosa obra. Aliás, isso que a imprensa e tanta gente chama de “Brasil Profundo”, presença fulcral na literacia de Benedito Ruy Barbosa, é um termo cunhado pelo escritor Euclides da Cunha (1866-1909) no seu clássico “Os Sertões” (1902), livro obrigatório para quem quer que pretenda entender ou saber mais e melhor sobre o Brasil e sua vastidão de terras. |
O próprio Benedito disse em entrevista, publicada em 2008[2]: |
“O meu universo é o Brasil. Normalmente, um ator vai a Paris ou Nova York quando termina de gravar uma novela. Eu vou para o Pantanal, para o sul de Minas ou para o Araguaia. Estou sempre mexendo com esse sertão, porque tenho uma ligação muito grande com a terra. É uma força telúrica mesmo. Tanto que, no fim da vida, larguei São Paulo e comprei um sitiozinho. Lá estou no meio do mato, é duro me tirar dali. O ser humano é muito importante. Se você parar para observar os personagens numa roda, vai se encantar. Cada um tem uma história para contar, seja ela cômica ou trágica. Se você souber ouvir, vai se enriquecer com essas histórias. É legal falar do ser humano. No interior, há personagens fantásticos, que deixamos morrer na memória porque ninguém quer transformar suas histórias em contos, versos, seriados ou filmes. Mas eles são muito ricos. Eu vivo um pouco nesse universo. Tenho fama de ser falador, gosto de uma boa prosa, mas, quando chego nesses redutos, só fico ouvindo. Não tenho nada para falar. Tenho mais é que ouvir”. |
E não escondia entusiasmo ao falar de como seus personagens brotaram de pessoas com quem ele cruzou pelo caminho: “Esse é o meu universo. Eu seria incapaz de escrever uma história sobre Ipanema, Leblon ou Copacabana. Não me atreveria. Então, que me deixem falar sobre o sul de Minas, Goiás, interior de São Paulo” (BARBOSA, 2008, p. 233). |
O nome de Benedito Ruy Barbosa, conforme apontamos em várias ocasiões, é a grande vacância entre os imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL): “Ouso dizer que Benedito tem importância similar a de Euclides da Cunha: se hoje o sertão tem uma obra fundamental na televisão para ser visto em toda sua magnitude, é a Benedito que devemos esse olhar acurado e honesto sobre a sertanidade no âmago da teledramaturgia. Assim como Euclides tirou o sertão de seus 300 anos de invisibilidade na história do país, através de seu notável jornalismo literário, Benedito, como profícuo ‘herdeiro’ dessa obra, colocou o povo sertanejo e a luta pela reforma agrária – ainda hoje o problema crucial do Brasil – no cerne da telenovela, a ficção popular do Brasil”. |
Cena emocionante do final da versão 2022 de “Pantanal”, obra de excelência, reescrita por Bruno Luperi, Na foto, Zé Inocêncio conversa com os netos, momento no qual o discurso extrapola os limites ficcionais. Na cena da vida real, vemos Marcos Palmeira contracenando com os bisnetos de Benedito, filhos do grande herdeiro da obra beneditiana. Prova inconteste da exímia poética de Luperi (em magistral parceria com a direção de Gustavo Fernandez), assinando com excelência uma comovente homenagem ao avô amado. Em casos assim, a narrativa vira Poesia e engendra um raro Trancurso da Comunicação, extrapolando os cânones da teleficção. E isso já é tema para um próximo artigo. |
Benedito Ruy Barbosa, o neto Bruno Luperi, que cresceu ouvindo o avô contar histórias, e o bisneto Theo, que participou do capítulo final de “Pantanal”. |
A tristeza é grande, a saudade será profunda mas a imensidão do seu legado será nutriente eterno para quantos fazem, vierem a fazer, estudar, pesquisar, realizar, entender e criar Teledramaturgia. Uma Salva de Palmas para este dramaturgo genial, que nos legou personagens memoráveis e que para sempre estará na história como Patrimônio Cultural do Brasil – belo, profundo, incontornável e necessário. Gratidão por Tudo & Tanto, mestre Benedito. |
*Aurora Miranda Leão é jornalista e especialista em Audiovisual, pesquisa Dramaturgia e tem doutorado em Comunicação sobre o Setrtão e suas representações e resistências na Dramaturgia. doutora em Comunicação. http://www.auroradecinema.wordpress.com |
[1] Conceito do intelectual russo Mikhail Bakhtin que descreve a interligação e a indissociabilidade entre o tempo e o espaço numa narrativa. |
[2] BARBOSA, Benedito Ruy. Depoimento. In: AUTORES: Histórias da teledramaturgia. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2008. v. 1, p. 186-248. |
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