A partir daí, o filme que retratava um momento especial na carreira dos quatro artistas revela-se também como retrato de um momento sombrio da história do Brasil. Gil e Caetano já tinham voltado do exílio, mas o país ainda vivia sob o autoritarismo da ditadura militar. E no palco, tudo fazia ode à liberdade: a atitude, os movimentos, os figurinos, o misto de influências (do rock ao candomblé) e as próprias canções, incluindo “Pássaro proibido” e “O seu amor”.
Azulay usou enquadramentos, movimento de câmera e montagem para destacar a força das interpretações e valorizar o que já era um espetáculo bem produzido e cheio de energia. Tomou, ainda, a acertada decisão de deixar que cada canção fosse vista na íntegra, e não em trechos curtos ou como trilha sonora para um compilado de outras imagens.
Documentários musicais apelam aos fãs, mas também apresentam a riqueza da música brasileira a novos públicos e gerações. No catálogo da IC Play é possível, por exemplo, conhecer melhor a obra de artistas que foram referência para o quarteto baiano, como Dorival Caymmi (1914-2008); que foram originais e influentes, mas não alcançaram o mesmo reconhecimento, como Itamar Assumpção (1949-2003); ou que tiveram sucesso regional, como Delinha (1936-2022), a Dama do Rasqueado.
Os Doces Bárbaros ainda se mostra relevante e atual em sua própria celebração da alegria e da liberdade. Num momento de conservadorismo em ascensão, Gil, Gal, Caetano e Bethânia nos lembram de que tempos difíceis também se combatem com alto-astral, altas transas e lindas canções.
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