Dito agora, pode soar evidente. Mas bem antes da revelação dos áudios de Flávio Bolsonaro pedindo R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para a cinebiografia de seu pai, o cineasta Josias Teófilo já comentava no meio cultural que via no filme potencial de estrago.
"Era óbvio que Dark Horse ia dar merda. É uma produção completamente fora da realidade do mercado e às vésperas da eleição", disse ele, em entrevista por telefone, na quarta (20).
"Investimento de R$ 134 milhões em um filme não existe, nem nunca existiu, no cinema brasileiro. Nem grandes filmes, midiáticos, como Bruna Surfistinha, viram algo assim. Completamente fora do mercado nacional", diz, citando o longa baseado na vida da famosa garota de programa que arrecadou R$ 4,2 milhões em bilheteria em 2011.
Teófilo é o diretor de "O Jardim das Aflições", um documentário sobre a vida e a obra de Olavo de Carvalho, o escritor conservador e ideólogo do bolsonarismo. Dos cursos de política e filosofia de Olavo saíram expoentes do governo de Jair Bolsonaro, como o ex-chanceler Ernesto Araújo e o assessor presidencial Filipe Martins.
O filme, lançado em 2017, compartilha o título da obra seminal de Olavo, um livro de 1995, no qual ele argumenta que o Estado sempre tenta expandir seus domínios sobre todos os aspectos da sociedade. E custou à época R$ 315mil, obtidos por meio de 2,8 mil investidores privados. Apenas para efeito comparativo, Dark Horse tinha previsão de custar mais de 400 vezes isso.
Embora se defina como de direita, Teófilo trabalhou em obras como "Recife Frio" e "O Som ao Redor", do renomado diretor Kleber Mendonça Filho, cujo longa-metragem "O Agente Secreto" foi indicado ao Oscar de melhor filme em 2026.
Ele conhece profundamente o meio, e falou ao UOL entre uma de suas 4 sessões cinematográficas diárias no festival de Cannes, no qual se encontrou com figuras icônicas do cinema como o diretor de terror italiano Dario Argento.
Do alto de sua experiência profissional - e de sua insuspeita posição política - Teófilo aponta o que enxerga como fora de lugar na história da produção de Dark Horse até agora. A primeira estranheza está em ver o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que não tinha função de produção executiva do longa, atuar na captação de recursos citando até mesmo parcelas de pagamento, como fez no áudio a Vorcaro revelado pelo The Intercept.
"Todo filme tem que ter alguém que fale por ele junto a patrocinadores ou investidores. Não faz sentido ver o Flávio fazendo captação diretamente, sem ser produtor executivo nem nada", diz Teófilo, que prossegue: "Se era pra falar com Vorcaro, Flávio até podia dizer: 'irmão, vou te colocar em contato com fulano sobre o filme'. Agora, ele mesmo cobrar, foge da prática comum".
Crítico de Mário Frias, produtor executivo de Dark Horse, desde que ele ocupou o cargo de secretário de Cultura na gestão Bolsonaro, Teófilo diz que o deputado federal sustentava que o filme o consagraria politicamente e que o trabalho era bancado com investimentos estrangeiros.
"No meio, o pessoal do Dark Horse, do Mário Frias, dizia que eles tinham conseguido um investidor norte-americano, era a história que eles espalhavam até recentemente. Parece que mentiram pra todo mundo. Imagino que o Jim Caviezel não esteja entendendo o que está acontecendo", diz, mencionando o ator norte-americano que vive Bolsonaro na trama e que tem se notabilizado por estrelar filmes do nicho da direita. Em meio ao escândalo, Caviezel não tem respondido aos pedidos de esclarecimento sobre o filme.
Nos grupos de whatsapp da cultura e do cinema nacionais, viralizou um print do registro de Dark Horse na plataforma especializada IMDB. Na apresentação da obra, o texto do site atribui o financiamento do filme ao presidente dos EUA, Donald Trump - algo que não tem lastro na realidade.
Plataforma colaborativa, o IMDB pode ser editado por qualquer pessoa e não se pode provar que a afirmação tenha partido de qualquer integrante da equipe do filme, mas o print virou material para piada sobre a percebida megalomania de Frias no assunto.
Em outro áudio destinado a Vorcaro e revelado pelo site The Intercept, Frias diz que o filme vai "mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país". O UOL tentou contato com Frias por meio de sua assessoria nos últimos dias e não obteve retorno.
"A direita cresceu muito, muito rápido e é difícil dizer o que é idealismo, com um certo amadorismo, e o que é picaretagem", opina Teófilo.
Segundo ele, "todo mundo que faz produção de um filme tem direito a uma pequena porcentagem do que é levantado, isso é legal e está previsto, até onde sei, tanto no Brasil quanto nos EUA". Assim, seria razoável imaginar que Mário Frias poderia ter obtido, de forma legal, algum recurso para si a partir dessa arrecadação. Ou mesmo Eduardo Bolsonaro, se fosse produtor executivo do filme, o que ele nega.
"Mas o normal é ter uma conta em nome da produtora, que recebe os valores e faz os pagamentos", diz Teófilo. Nisso, o caso Dark Horse também destoa, já que houve uma triangulação de ao menos parte do dinheiro obtido junto a Vorcaro para um fundo no Texas, administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, para depois ser repassado para a produtora, conforme a versão dos fatos apresentada pela família Bolsonaro. Os documentos que comprovam esses repasses ainda não foram apresentados.
Na quinta-feira (21), eu estive no escritório de Paulo Calixto, em um prédio comercial em Dallas. A porta da sala comercial estava encostada e o ambiente em silêncio, até que a secretária do advogado apareceu e disse que ele não estava. Questionada se Calixto estava vindo trabalhar regularmente, ela disse que "não deveria ser obrigada a responder a esse tipo de coisa". E pediu que eu me retirasse, dizendo que o advogado falaria à imprensa "se e quando estivesse pronto para isso".
Na base do silêncio, o bolsonarismo tenta virar a página do caso, apostando que uma visita de Flávio a Donald Trump na Casa Branca - ainda não confirmada oficialmente mas prevista para semana que vem - possa pôr um ponto final na novela de sangria eleitoral em que Dark Horse se converteu.