Resposta direta: por todos os lados, nesse mundo de comunicação permanente. Mas depende, claro, de como se define a palavra. Para leitores de uma coluna como esta, "literatura" provavelmente remete, acima de tudo, a romances, contos, poemas, peças teatrais. O que é compreensível, embora deixe de fora muita coisa. Já faz bastante tempo, por exemplo, que a literatura oral passou a fazer parte dos estudos literários. A expressão de muitos povos não passa necessariamente pela escrita. Mesmo boa parte do que cabe na visão tradicional da literatura do Ocidente, nos últimos 2.500 anos, tem origem na oralidade. Os épicos e tragédias gregas não foram criados no papel, só registrados depois. Também a Bíblia é a reunião de muitos "livros", cuja natureza oral só não fica evidente por conta das muitas gerações de traduções, seguindo o padrão de cada época. Mais um exemplo: toda a poesia trovadoresca da Idade Média foi criada para ser cantada, não lida. Já que falamos disso, podemos pensar também na presença extraordinária da poesia cantada, em nosso país. Não se pode estudar a cultura moderna do Brasil sem dar atenção à canção. Parece natural, para nós, ter um repertório como este, com uma lista de criadores como Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Zé, Dorival Caymmi, Gilberto Gil e tantos mais. Mas são poucas as culturas com tamanho privilégio - tanto maior (mas relativamente pouco difundido) porque reservado aos falantes da língua portuguesa. Mesmo restringindo o campo para a escrita, nossa busca de definição para a literatura não deve se limitar à ficção e à poesia. Muitos dos maiores autores "literários" são autores de não-ficção: historiadores, críticos, filósofos, psicanalistas, biólogos. Não foi só pela criação da psicanálise que Sigmund Freud recebeu o Prêmio Goethe, em 1930; mas também, ou tanto mais, pela qualidade de seus textos. Qualidades essas refletidas na tradução há pouco concluída de suas Obras Completas a cargo de Paulo César de Souza (20 volumes, Companhia das Letras). O mesmo tradutor recriou em português muitas obras do filósofo Friedrich Nietzsche, outro excepcional escritor. Para quem acha que não-ficção não é literatura, o que dizer de Euclides da Cunha? Os Sertões combina reportagem e análise. Ficção, não é. Mas ninguém deixa de incluir esse livro nas lista de nossas maiores criações literárias. Para dar outro exemplo, bem recente: o novo livro do historiador e político português Rui Tavares, Hipocritões e Olhigarcas - passado e futuro das guerras culturais (Tinta-da-China) confirma sua distinção não só como pensador, dos mais originais e eruditos, mas também como mestre da prosa. Aqui, como em outros livros, ele tem uma capacidade virtuosística de encadear histórias que faz pensar nas Mil e uma Noites. Tudo isso de modo natural, com uma voz só dele, que se guarda depois na memória do mesmo modo como se guarda a voz de romancistas e poetas. Saindo desse registro alto, a literatura também está por aí, a todo momento. Uma bula de remédio não chega a tanto; mas o anúncio do remédio pode muito bem ser. Sempre que a linguagem sai da função meramente informativa, sempre que carrega alguma carga de estranheza; sempre que a própria linguagem, de um modo ou outro, faz parte do que está sendo dito, pode-se falar de literatura. Originalmente, aliás, a palavra "literatura", que vem do latim "littera" (letra), queria apenas dizer "feito de letras". A associação com romances e poemas chegou muito mais tarde. A poesia, escrita ou não, existe desde sempre; mas foi sendo moldada em mil e um formatos com o passar do tempo. Já o romance, como gênero, foi basicamente uma invenção do século dezoito. Tudo isso, aqui, serve para abrir janelas. A coluna vai se concentrar sobre obras de ficção e poesia, recentes ou clássicas, porque é o mais esperado e há sempre o que recomendar. Mas nem seria fácil, como vimos, chegar a uma definição do que é literário. Embora este seja um daqueles casos em que a gente sabe bem do que se trata, desde que ninguém pergunte. Perguntando... já não se sabe mais. Ou será que não? No limite, é como se aquilo que se chama de literatura fosse algo intangível, mas percebido e sentido nas mais variadas formas de expressão. Entre elas, romances, poemas, contos, peças de teatro, histórias para criança e outros gêneros. As formas variam. A essência, não. Talvez nem se possa dizer o que é isso; mas as palavras, na literatura, não fazem outra coisa senão tentar. Pensada desse modo, a literatura não depende de gênero, não depende das formas. A literatura está em quem lê. O que vem de fora nos escava, para tirar ela de lá. E só vale a pena, mesmo, ler o que nos expõe assim. |