"Agora é que me caiu a ficha". "A ficha ainda não caiu". Você provavelmente já ouviu ou usou frases como estas. Algumas gerações mais novas usam e talvez nem saibam a origem dessas expressões. Não é novidade, mas elas vêm do bom e velho orelhão, o telefone público que está prestes a ser exterminado da paisagem de São Paulo e do resto do país.
Os contratos de concessão dos orelhões acabaram e não houve interesse em renovar. Na era dos celulares, em que parece que toda pessoa tem um, o pobre orelhão ficou obsoleto.
O orelhão funcionava com pelo menos uma ficha específica para ele. A ficha caía quando a ligação era atendida do outro lado da linha, iniciando três minutos de conversa. Se você quisesse conversar por mais tempo, tinha de botar mais fichas.
Quando surgiram os cartões telefônicos, a graça não era mais a mesma que a de ouvir a ficha tilintando enquanto caía dentro do aparelho retangular.
Comecei a trabalhar em jornal em 1990 e me recordo que as fichas telefônicas garantiram algumas manchetes em cima da hora.
Os repórteres costumavam ir para a rua com um bolinho de fichas para "dar retorno" sobre a matéria que foram apurar.
Se não houvesse tempo para que o repórter voltasse à redação para ele mesmo escrever a matéria, ele ligava de um orelhão e contava tudo que tinha apurado para algum redator ou editor, que tratava de redigir a reportagem (com crédito para o repórter, é claro) e enviar para a impressão. Estive dos dois lados dessa situação.
E quando o repórter estava sem fichas? Aí era o caso da chamada a cobrar, na qual quem recebia a ligação precisava aceitar a chamada para que a conversa acontecesse. Quem ligava precisava se identificar rapidamente para isso.
Parece primitivo hoje em dia. Mas o orelhão virou um símbolo de comunicação brasileiro em seus mais de 50 anos presente nas ruas. Um similar das cabines telefônicas vermelhas de Londres.
Agora que seu fim está em processo, passou a despertar memórias afetivas. Como, por exemplo, na principal imagem de divulgação do filme "O Agente Secreto".
Em vídeo-reportagem para o UOL Flash, a repórter Raquel Arriola apresentou opções para preservar ou reutilizar pelo menos alguns orelhões de São Paulo pelo símbolo que eles representam. Ela cita os casos de Tóquio, onde os telefones públicos ainda funcionam, e Londres, que encontrou novas utilidades para as cabines vermelhas.
Os primeiros orelhões surgiram em São Paulo em 25 de janeiro de 1972, aniversário da cidade. Foram ideia da arquiteta Chu Ming Silveira, que teve a missão de desenvolver ao longo de quase dois anos uma cabine telefônica eficiente e protegida.
A sino-brasileira Chu (que morreu em 1997, aos 56 anos) era chefe do Departamento de Projetos da CTB (Companhia Telefônica Brasileira), que pouco depois se transformaria na Telesp (Telecomunicações de São Paulo).
Ela idealizou uma concha que servia para um relativo isolamento acústico do barulho de uma via pública e também funcionava como abrigo em dias de chuva.
O telefone público diferente recebeu como primeiros apelidos "tulipa" e "capacete de astronauta" (ou "telefone-capacete", como registrou numa crônica da época o poeta Carlos Drummond de Andrade).
Mas o que pegou mesmo foi orelhão, pelo formato parecido com o de uma orelha humana.
Em seus dias de glória e alta utilidade, o orelhão teve boas campanhas de publicidade feitas pela Telesp. A mais marcante foi uma de conscientização contra vandalismo, em que um orelhão agonizava lentamente até cair "morto" num calçadão.
O declínio começou no fim dos anos 1990, com a popularização dos telefones celulares e, já nos anos 2000, dos smartphones. Ultimamente, é usado por quase ninguém na capital. Em números, houve um declínio de 90% no uso de orelhões entre 2020 e 2025.
Vai deixar saudades? Vai pela nostalgia. Mas convenhamos que não dá para mandar WhatsApp pelo orelhão. O progresso não é sentimental.