A cobertura sobre a reforma agrária e a luta pela terra, desde o início do século 20, não foi construída a partir do ponto de vista de quem vive e luta no campo. Ela foi moldada, de forma hegemônica, pelos interesses dos latifundiários, dos grandes proprietários e, mais recentemente, dos conglomerados do agronegócio que sempre tiveram representantes na mídia comercial. Essa mídia sempre tratou ocupações de terra, prédios públicos e ações de protesto como caso de polícia, e não como expressão legítima de um conflito social histórico que atravessa a formação do Brasil.
Esse enquadramento não é neutro. Ele cumpre uma função política. Ao criminalizar os trabalhadores, ele protege a concentração de terras e sustenta um modelo que produz desigualdade, violência e destruição ambiental. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um dos maiores movimentos populares da América Latina, sempre foi alvo constante desse tipo de construção midiática. Ainda assim, segue disputando seus ideais na sociedade, construindo alternativas concretas para milhares de famílias camponesas.
Entre os dias 19 e 23 de janeiro, o MST realizou seu 14º Encontro Nacional, nas terras Malês, em Salvador (BA), marcando seus 42 anos de história. O espaço foi dedicado a balanços, formulações e projeções de futuro, mas também à celebração de conquistas reais, como os anúncios de decretos que destinam áreas de antigas fazendas para a reforma agrária. Posteriormente assinados pelo presidente Lula, esses decretos garantem terra para famílias que hoje vivem em acampamentos.
Mas o que raramente aparece na mídia comercial é o cotidiano dessas famílias. Como se organiza uma ocupação? Como funciona a vida coletiva? Quem cuida das crianças enquanto os adultos trabalham? Onde acontecem as assembleias, as formações, os momentos de assembleia? Como se produzem as refeições, os alimentos, o cuidado mútuo? Essas perguntas quase nunca orientam a cobertura jornalística sobre conflitos no campo.
O que se viu, ao longo dos anos, é a repetição de estereótipos. Os camponeses sem-terra são retratados como ameaça, não como sujeitos políticos. A terra aparece como mercadoria, não como direito. A desigualdade é naturalizada. Esse silêncio sobre a vida concreta nos territórios também é uma forma de violência simbólica.