 | Lançamento de satélite da SES com foguete da SpaceX | Divulgação/SpaceX |
| Governo Lula costura contrato de internet por satélite com rival da Starlink |
|  | Helton Simões Gomes |
| O governo Lula costura um acordo entre a Telebras e a SES, gigante europeia das telecomunicações, para o uso inédito de uma tecnologia de internet. A empresa de Luxemburgo opera a até agora única constelação de satélites de média órbita, com maior capacidade de conexão e menor instabilidade do que os concorrentes. Isso faz dela uma rival para a Starlink, braço de conexão da SpaceX, do bilionário Elon Musk, que em pouco tempo virou líder em internet por satélite no Brasil. A expectativa no Ministério das Comunicações é fechar contrato ainda no primeiro trimestre de 2026. O pano de fundo é uma corrida contra o tempo: o governo promete conectar 138 mil escolas públicas até o fim do ano —até agora, cumpriu 70% do objetivo. Na avaliação da pasta, parte delas, localizadas onde fibras e cabos não chegam, precisará ser conectada com internet via satélite, mas a capacidade atual da Telebras possui limitações técnicas para atender instituições com muitos alunos. Além da frente europeia, o tabuleiro geopolítico da internet brasileira ganha uma peça chinesa. Com a chegada da SpaceSail marcada para até o fim do ano, a empresa que opera em baixa órbita —a mesma da Starlink— surge como possível carta na manga da administração federal para levar internet para escolas. |
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 | Antenas de recepção do sinal enviado por satélites de média órbita da SES | Divulgação/SES |
| A Telebras já compra capacidade satelital da SES, mas dos satélites geoestacionários da europeia. O acordo costurado agora é referente aos de média órbita —MEO, no jargão da área— e ganhou força durante a COP 30, em Belém: - Após assinarem um memorando de entendimento em outubro passado, a estatal e a companhia luxemburguesa fizeram testes de conexão na Conferência da ONU para Mudanças Climáticas, em novembro. Duas antenas recebiam o sinal, que chegava a 500 Mbps (Megabits por segundo);
- Agora em janeiro, uma comitiva do Ministério das Comunicações e de executivos da Telebras foram até a sede da empresa para conhecer a estrutura da operação, o centro de suporte ao cliente e outras instalações como o teleporto da empresa;
- Enquanto Hermano Tercius, secretário de telecomunicações do ministério, retornou ao Brasil, o diretor técnico operacional da Telebras, André Fonseca, permaneceu em Luxemburgo negociando os termos do contrato, apurou a coluna; Contatada pela coluna, a Telebras, que possui capital aberto na Bolsa de Valores, informou que não se pronunciaria neste momento;
- Até meados de 2023, a Telebras tinha como parceira única a Viasat, mas isso começou a mudar já na gestão à frente da estatal do hoje ministro das Comunicações, Frederico Siqueira;
- A ampliação de fornecedores, no entanto, continuou a se apoiar em satélites geoestacionários. Só que, a uma altura de 35 mil km da Terra e alinhados sobre a linha do Equador, esses equipamentos possuem capacidade insuficiente para entregar velocidade dentro dos parâmetros estabelecidos pelo governo --de ao menos 1 Mbps-- a escolas com mais de 100 alunos. Contratos com a Viasat, por exemplo, variam de 20 Mbps a 60 Mbps;
A gente está procurando conseguir uma solução mais robustas para essas escolas que ainda faltam ser conectadas Hermano Tercius, secretário de telecomunicações - Por isso, os MEO surgem como opção. A uma distância de 10 mil km da superfície terrestre, eles oferecem conexões mais rápidas, com menores latências (tempo de resposta) e menor impacto ambiental (exige lançamentos espaciais, o que gasta menos combustível; tem vida útil maior, o que gera menos lixo orbital);
- As visitas à sede da SES em Luxemburgo serviram também a outros propósitos: para ajudar a entender o futuro da tecnologia, já que o governo federal tem planos ambiciosos para a área satelital, diz Tercius. Hoje, por exemplo, a antena para receber sinal dos MEO não é tão compacta --parece um cogumelo gigante. Mas as próximas gerações terão tamanho próximo às da Starlink, que de tão móveis podem ser acopladas em carros.
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 | Antenas de internet via satélite da Telebras levadas para a Terra Yanomami | Dibulgação |
| Além de atrair parceria para uso de uma tecnologia inédita no país, a corrida para conectar escolas pode levar o Brasil a estreitar ainda mais os laços com a China. Telebras e o Ministério das Comunicações possuem desde novembro de 2024 um memorando de entendimento com a SpaceSail, empresa ligada ao governo de Xangai e a instituições científicas da China. Com o início da operação dela no país, prevista para o último trimestre de 2026, parte das escolas poderá ser atendida com conexão chinesa. No fim de 2025, a companhia pediu à Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) autorização para operar 648 satélites no Brasil por 15 anos —a ideia é chegar a 15 mil em 2030. A uma distância entre 500 km e 1,5 mil km da Terra, esses satélites estão em baixa órbita —LEO, no jargão da área—, a mesma faixa da Starlink. Na prática, SpaceSail e Starlink competirão ainda pelo mesmo espaço no mercado brasileiro: conexão residenciais, contratos corporativos e governamentais. Curiosamente, a empresa de Elon Musk não é citada como alternativa para conectar escolas, ainda que ela seja líder inquestionável, com 73% dos acessos de internet via satélite no Brasil Hoje, a Starlink já vende muito para pessoa física, tem um público grande. Então ela sozinha também não seria o suficiente Hermano Tercius Ainda que a internet via satélite seja importante para conectar áreas remotas, a Telebras é uma das peças para o governo federal atingir a meta das 138 mil públicas conectadas. Outra são os leilões de conexão da EACE (Entidade Administradora da Conectividade de Escolas), que surgiu no Brasil em 2022 para gerenciar o dinheiro vindo das operadoras como obrigação do leilão do 5G. A última são os financiamentos de pequenos provedores regionais com dinheiro do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), que atingiu R$ 3,2 bilhões em investimentos em 2025. |
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 | Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC), lançado pela Telebras | Reprodução/Thales Alenia Space |
| Não só pela chegada dos chineses, mas 2026 deve ser uma temporada quente para os satélites no Brasil. Para este ano, está nos planos a entrega do plano do PNT (Sistema Brasileiro de Posicionamento, Navegação e Tempo), o que se convencionou chamar de "GPS brasileiro". A cargo do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), o projeto visa diminuir a dependência brasileira do GPS original, mantido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Além dele, os ministérios da Comunicação e da Defesa, junto de Anatel e Telebras, trabalham no Plano Nacional de Satélites. Se agora o Brasil possui o SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação), a ideia é criar um sistema de satélites e adicionar a ele as modalidades MEO e LEO. Entre os objetivos mais imediatos está conectar postos de saúde, escolas, outros órgãos públicos e as Forças Armadas. Já no horizonte mais amplo, não sai de vista a questão geopolítica cada vez mais polarizada. A ideia é, quanto mais a gente diversificar, melhor, para não ficarmos dependentes de uma empresa nem de um país só Hermano Tercius |
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