A primeira crise do petróleo ocorreu há cerca de 50 anos. Naquela época, cerca de 80% da energia consumida no mundo era fóssil. Nas décadas seguintes, essa porcentagem manteve-se em patamar semelhante. As quedas na produção de petróleo e carvão foram compensadas tanto pela expansão da energia nuclear (não renovável), até o final do século XX, quanto pelo aumento do consumo de gás natural até os dias atuais. Com a entrada, na matriz energética mundial, das fontes eólica, a partir de 2000, e solar fotovoltaica (FV), em 2010, a predominância das fósseis pouco se alterou. As energias eólica e solar FV são essenciais, porém intermitentes, e complementares às demais fontes contínuas de geração. A temperatura do planeta continuou escalando para níveis mais que preocupantes. Em 2025, a contribuição dos combustíveis fósseis ainda representava cerca de 75% das emissões de gases de efeito estufa (GEE), indicando que uma nova fonte, limpa e contínua, deveria ser incorporada ao conjunto de energias existentes. Na faixa oceânica equatorial, onde a radiação solar é mais intensa, pode-se produzir eletricidade limpa, renovável e contínua ao longo de todas as horas do ano (24 horas por dia, 365 dias por ano). Nessa privilegiada região, que circunda a extensão dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, aproximadamente entre as latitudes 20°S e 20°N, a diferença de temperatura entre a água da superfície e aquela situada em profundidades a partir de 800 metros varia de 20°C a 25°C ao longo do ano. Essa condição permite gerar eletricidade por meio de um ciclo termodinâmico denominado Rankine Orgânico. Também possibilita obter água dessalinizada, além de água do mar mais pura e rica em nitratos e fosfatos (NO3 e PO4), nutrientes básicos da vida marinha, com potencial para viabilizar atividades de maricultura e contribuir para a regeneração de mares hoje poluídos e degradados nas proximidades de grandes centros litorâneos. A tecnologia que permite a disponibilização simultânea de pelo menos três insumos essenciais à vida humana — água, alimentos e energia — é conhecida internacionalmente como OTEC híbrida (do inglês "Ocean Thermal Energy Conversion"). Na faixa oceânica equatorial, destacam-se como as três regiões mais favoráveis à sua implementação, nesta ordem: (i) o Mar da China; (ii) o Mar do Caribe; e (iii) o litoral brasileiro, entre Salvador e Natal. Neste artigo, porém, o foco será a região do Caribe. A região do Mar do Caribe e seu entorno, formada por inúmeras ilhas que abrigam destinos turísticos paradisíacos, também é rica em petróleo. Justamente por suas reservas desse combustível fóssil, desperta interesses geopolíticos relevantes. Na própria Venezuela, durante a última campanha eleitoral, o então candidato à reeleição chegou a mencionar a possibilidade de anexação do território de Essequibo, pertencente à Guiana, em meio às disputas relacionadas à exploração de petróleo offshore. Mais recentemente, novos movimentos geopolíticos voltaram a direcionar atenções para as reservas petrolíferas da região, desta vez em território venezuelano. A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Entretanto, à luz de uma análise mais cuidadosa, cabe questionar se esse chamado "ouro negro" continuará representando riqueza estratégica sustentável no longo prazo, já que sua queima: - contribui para o aquecimento global e para a intensificação de eventos climáticos extremos;
- aumenta a concentração de CO2 na atmosfera, agravando a acidificação dos oceanos; e
- compromete a qualidade do ar nos centros urbanos, favorecendo enfermidades respiratórias.
Além disso, o agravamento das tensões políticas e econômicas na região afetou diretamente países dependentes do petróleo venezuelano, como Cuba, impactando a oferta de serviços essenciais e o cotidiano da população. Vale lembrar que as duas guerras mundiais foram precedidas por fortes disputas econômicas. Também é oportuno recordar que a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, quase desencadeou uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética. Após esses episódios históricos, consolidou-se o entendimento de que mecanismos multilaterais de cooperação econômica e comercial são fundamentais para reduzir tensões internacionais. Há outro aspecto importante a destacar em relação a Cuba: a ilha possui condições favoráveis à implantação de usinas OTEC. Ainda em 1930, na Baía de Matanzas, no litoral cubano (latitude 20°N), foi inaugurada a primeira planta OTEC onshore do mundo, com potência de 22 kW. Ela gerou eletricidade durante alguns dias, mas sua longa tubulação de aço, responsável por trazer água fria das profundezas, acabou destruída por um furacão. Entretanto, as grandes evoluções tecnológicas ocorridas desde então já permitem alternativas muito mais eficientes para a geração de energia oceano-térmica. Atualmente, no Havaí e em Kumejima, no Japão, há plantas OTEC com mais de 1.000 kW produzindo eletricidade há vários anos. Além disso, enquanto o aço é pesado e suscetível à corrosão em ambiente marinho, hoje já existem tubos de materiais plásticos resistentes à corrosão e com densidade próxima à da água do mar. Como a energia das OTEC deriva da radiação solar armazenada nos oceanos -- limpa e gratuita --, países que adotem essa tecnologia poderão expandir suas economias sem ampliar emissões de gases de efeito estufa. Em tempos de aquecimento global, trata-se de uma perspectiva particularmente relevante. A OTEC figura entre as raras fontes capazes de reunir simultaneamente três características fundamentais: ser contínua, limpa e renovável. Além disso, possui potencial para substituir parte significativa dos combustíveis fósseis sem depender intensamente de baterias ou de outras formas, muitas vezes caras, de armazenamento energético. A implantação de usinas OTEC em ilhas e regiões costeiras do Caribe também poderia contribuir para o desenvolvimento econômico local, reduzindo pressões migratórias associadas à pobreza e à escassez de oportunidades. Populações com acesso a energia, empregos e infraestrutura tendem a encontrar melhores condições para permanecer em seus próprios países. A mitigação do aquecimento global, que deveria constituir prioridade global, depende da cooperação entre países, especialmente entre os maiores emissores do planeta. Paralelamente, a expansão dos "data centers", que demandam fornecimento contínuo de eletricidade (24 horas por dia, 365 dias por ano), amplia a necessidade de fontes despacháveis capazes de substituir os combustíveis fósseis. Não por acaso, diversas nações desenvolvidas voltaram a investir em usinas nucleares. Entretanto, nas ilhas do Caribe e no litoral do Nordeste brasileiro existe a alternativa representada pela OTEC. A título de comparação, a implantação de uma planta micronuclear de 1,5 MW destinada ao abastecimento de "data centers" poderia custar cerca de R$ 250 milhões. Já uma OTEC de mesma capacidade teria custo estimado significativamente inferior. Além disso, enquanto o combustível nuclear depende de cadeias complexas de fornecimento, as plantas OTEC utilizam energia solar armazenada nos oceanos: limpa, renovável e gratuita. *Flaminio Levy Neto é Pesquisador Colaborador Pleno da UnB, junto ao Laboratório de Energia e Ambiente. Consultor ad hoc da FACEPE desde 2000. Ph.D. em Mechanical Engineering, além de mestre e graduado em Engenharia Mecânica pelo ITA. Entre 1978 e 2018 atuou como docente, inicialmente no ITA e posteriormente na UnB. Foi Pesquisador Visitante da Petrobrás na UnB e consultor ad hoc da CAPES e do CNPq.
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