E o cigarro, que voltou à moda? Entre posts de redes sociais e a percepção de que uma fumaça tóxica voltava a se aproximar de nós, me deparei com o ensaio de Hailey Bieber para a revista "Interview" de abril e a foto que comprova dois desejos da estação: o longo bufante em amarelo vivo da Saint Laurent e o cigarro entre os dedos - este último, coisa que não se via há décadas em uma imagem de moda. E aí veio o artigo da Xochitl Gonzalez, colaboradora da "The Atlantic" e finalista do Prêmio Pulitzer, para a "The Cut". O título: Por que a gente não deveria simplesmente voltar a fumar? E um dado: no Pinterest, as buscas pelo termo "smoking pose" aumentaram 70% entre jovens de 18 a 24 anos nos Estados Unidos. O perfil Cigfluencers, no Instagram, por exemplo, tem 100 mil seguidores e só posta fotos de pessoas nas tais poses fumando. Pronto, o glamour do tabagismo, aquele que há tempos tinha sido apagado pelo nojo e o medo da morte, voltou a ser tendência. Mas, calma: será que estamos mesmo fumando mais, ou só achando essa ideia bonita de novo? Um relatório da OMS aponta queda de 27% no uso de tabaco entre 2010 e 2025. Então, o nojinho - e a noção de que fumar mata - ainda estão ganhando. E alguns governos reforçaram a guarda: recentemente, o Reino Unido deu um passo inédito no combate ao tabagismo ao aprovar uma lei que impede a venda de cigarros para pessoas nascidas a partir de 2009. Na prática, isso cria uma geração inteira que nunca poderá comprar tabaco legalmente no país. Histórico. Infelizmente, isso não significa que está tudo bem. Longe disso. Onde há imagem, afinal, há desejo. E esses números podem começar a subir - principalmente porque tentativas inovadoras de viciar as novas gerações em tabaco não param de nascer. No Brasil, a experimentação de cigarros eletrônicos entre jovens de 13 a 17 anos aumentou quase 13% de 2019 a 2024, sendo mais elevada entre meninas (31,7%) do que entre meninos (27,4%). Os resultados da 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) mostram que a proporção de estudantes que não utilizaram nenhum produto de tabaco permaneceu praticamente estável (61,7% em 2019 e 62,3% em 2024), mas há indícios de migração do consumo de cigarros e narguilé para o cigarro eletrônico. A venda desses dispositivos é proibida no Brasil, mas existe um mercado ilegal, algo que também acontece com o cigarro convencional. E as empresas produtoras de tabaco, por sua vez, estão investindo pesado na propaganda direcionada para adolescentes e crianças (!). A nova moda viciante são os sachês de nicotina, para serem colocados entre a gengiva e o lábio. É a categoria de nicotina que mais cresce nos Estados Unidos. Proibidos no Brasil, mas vendidos nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, eles vêm em caixinhas fofas e coloridas, com cheirinhos e sabores frutados. Não tem fumaça, não tem nojinho, mas fazem bem mal também. E viciam. Mas por que cigarro, por que agora?Não tem resposta única, mas pode botar nessa conta um tanto de angústias contemporâneas: uma geração cansada da febre do "wellness" e, com o fim do mundo logo ali, começando a não ver tanta vantagem em viver longamente; um mergulho digital tão grande que abre espaço para momentos de prazer offline; e até a moda, claro, que é cíclica. Se, ao romantizar o passado, logo pensamos em Kate Moss e Johnny Depp fumando nos anos 1990/2000, pode apostar, é daí que vai renascer o desejo. Tomara que, na velocidade em que as trends nascem e morrem, não dê muito tempo pra galera viciar de vez. (Colaborou: Lígia Nogueira) |