O Brasil tem registrado, nas últimas décadas, um aumento significativo no número e na intensidade de desastres climáticos. Essa tendência se manteve e se aprofundou ao longo de 2025, ano marcado por episódios extremos de chuvas, secas, ondas de calor, ondas de frio e fenômenos severos em praticamente todas as regiões do país. O tema esteve no centro dos debates da COP30, reforçando a percepção de urgência.
O início do último verão foi marcado por volumes expressivos de chuva, especialmente entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025. Em São Paulo, no dia 24 de janeiro, mais de 140 milímetros de chuva caíram em apenas três horas, provocando alagamentos e transtornos generalizados. Em Belo Horizonte, foram registrados 20 dias consecutivos de chuva entre 11 e 26 de janeiro, com um acumulado mensal de 345,6 mm, afetando a mobilidade urbana.
No Nordeste, Recife declarou estado de alerta máximo em 6 de fevereiro, suspendendo as aulas devido às fortes precipitações. Já na região Norte, o Amazonas enfrentou chuvas intensas desde o início de março, com enchentes e deslizamentos de terra que deixaram feridos e uma pessoa desaparecida. A partir de 25 de março, o oeste do país, especialmente o Acre, na fronteira com Peru e Bolívia, registrou inundações e transbordamentos de rios, forçando evacuações e causando prejuízos à população.
No Sul, temporais em junho atingiram diversos municípios do Rio Grande do Sul, com registros superiores a 110 mm de chuva em um único dia. Episódios semelhantes ocorreram em abril em cidades como Petrópolis, Angra dos Reis e São Paulo, onde fortes chuvas desencadearam deslizamentos de grande porte.
Estiagem e risco hídrico
Paralelamente aos episódios de excesso de chuva, grande parte do país entrou em situação de estiagem ainda no início de 2025. Estados da Amazônia registraram volumes de chuva abaixo da média, com rios já em níveis reduzidos após o intenso El Niño de 2023-2024. O Sudeste também enfrentou períodos prolongados de seca, ampliando a necessidade de gestão de riscos e de preparação para evitar uma nova crise hídrica, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo.
Áreas do Centro-Oeste, Sul e Sudeste apresentaram precipitações abaixo do normal ao longo do ano, afetando a produção agrícola e gerando preocupações com o abastecimento de água.
Ondas de calor recordes
O calor extremo foi um dos principais destaques de 2025. No Centro-Sul do país, as temperaturas permaneceram consistentemente acima da média, impulsionadas por seis ondas de calor ao longo do ano. Fevereiro foi o mês mais quente, com máximas que chegaram a 40 °C no Sul. Em Quaraí (RS), os termômetros atingiram 43,8 °C em 4 de fevereiro — a maior temperatura registrada no Brasil naquele período.
No Sudeste, São Paulo bateu o recorde da temporada ao alcançar 33,3 °C em 18 de janeiro. No Rio de Janeiro, as temperaturas chegaram a 44 °C em fevereiro, um dos picos mais intensos do ano. Em setembro, uma nova onda de calor atingiu o Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste, com máximas de 41,4 °C em Cuiabá, 38,7 °C em Campo Grande (MS) e em Brasília (DF).
No fim do ano, o calor voltou a se intensificar. Em 28 de dezembro, São Paulo registrou 37,2 °C no Mirante de Santana, o maior valor para o mês em 64 anos e o terceiro recorde em apenas quatro dias. Na capital fluminense, a temperatura chegou a 40,1 °C em 25 de dezembro. Cidades do interior paulista, como Campinas, Sorocaba, Piracicaba e Taubaté, registraram máximas entre 37 °C e 39 °C. Ondas de calor são reconhecidas como o evento climático extremo que mais causa mortes no mundo, inclusive no Brasil.
Frio intenso e eventos raros
Apesar do calor predominante, o país também enfrentou cinco ondas de frio marcantes, especialmente durante o inverno. No Sul, maio registrou mínimas próximas de 5 °C. Em 25 de junho, cidades em áreas elevadas ficaram abaixo de 0 °C, como General Carneiro (PR), com −7,8 °C, e São José dos Ausentes (RS), com −4,5 °C. Houve registros localizados de neve em municípios como Pinheiro Machado (RS).
Massas de ar polar também avançaram sobre o Sudeste e o Centro-Oeste, com mínimas negativas em áreas de altitude, como Monte Verde (MG), que marcou −2,9 °C. Entre 20 de junho e 13 de agosto, a temperatura mínima média em São Paulo foi de 12,2 °C, a mais baixa desde 1994, consolidando o inverno de 2025 como o mais frio em mais de três décadas. Estudos indicam que o aquecimento global pode influenciar o comportamento do jato polar, favorecendo incursões de ar frio mais intensas até o Brasil.
Tornados e ciclones
Eventos atmosféricos severos também marcaram o ano. Em 7 de novembro, uma sequência de tornados atingiu o Sul do país poucos dias antes da COP30, em Belém. Um deles, classificado como F4, passou por Rio Bonito do Iguaçu (PR), com ventos próximos de 300 km/h — um dos mais fortes já registrados no Brasil. O episódio deixou mortos, centenas de feridos e causou destruição significativa.
Em dezembro, a atuação de um ciclone extratropical provocou rajadas intensas entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. Em São Paulo, ventos de até 83 km/h causaram quedas de árvores, danos à rede elétrica e interrupções de serviços essenciais, além do cancelamento de voos em aeroportos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Síntese da crise climática
O conjunto desses episódios faz de 2025 um ano emblemático na escalada de desastres hidrometeorológicos no Brasil. Os eventos extremos, intensificados pelo aquecimento global e pela mudança do clima, evidenciam a urgência de investimentos em sistemas de alerta, políticas de adaptação e ações de resiliência climática em todos os níveis de governo para toda a população.