Com a entrada enviesada do bolsonarismo no debate sobre regulamentação de aplicativos de delivery, a proposta do ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) de melhorar os ganhos dos entregadores perdeu força.
O lobby das plataformas aproveitou o ambiente hostil cultivado nas redes sociais e passou a pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), a desistir de aumentar a taxa mínima dos entregadores.
No Palácio do Planalto, já se discute simplificar a medida, restringindo-a a pontos de consenso com transparência do algoritmo para não penalizar trabalhadores que recusem entregas.
Boulos defende aumentar a taxa mínima de R$ 7,50 para R$ 10 por entrega e subir o valor do quilômetro adicional percorrido.
Bolsonaristas nas redes sociais associaram diretamente eventuais ganhos do trabalhador a maior custo do consumidor, como se quem fosse pedir comida tivesse que pagar a mais pelo serviço.
O deputado Nikolas Ferreira (PL), por exemplo, compartilhou uma mensagem que dizia que "o preço do iFood no Brasil aumentará significativamente". E ironizou: "Parabéns aos envolvidos".
No entendimento do ministério de Boulos, contudo, a margem de lucro de plataformas como iFood permite a absorção desse custo sem repassar ao consumidor. Elas ganham até 30% do valor do pedido, num modelo de negocio bem-sucedido.
Diante da resistência dos APPs, o relator da matéria na Câmara, deputado federal Augusto Coutinho (Republicanos), solicitou que as plataformas fizessem uma contraproposta. Ele havia sugerido um aumento menor da taxa mínima para R$ 8,50.
As plataformas, contudo, ignoraram o pedido do relator e agora apelam diretamente a Motta.
Se o lobby dos aplicativos se organizou na Câmara, a influência dos entregadores ainda não foi sentida. Uma manifestação chamada "breque dos apps", em abril de 2025, mobilizou q categoria em mais de cem cidades por aumento no valor recebido por entrega.
Apesar do consenso em torno da pauta, os representantes dos entregadores não conseguiram até agora somar esforços a Boulos nem na Câmara nem nas redes sociais, e o bolsonarismo prevaleceu no debate digital.
No calendário estabelecido por Motta, o relator apresentará o texto até o final de março, e a matéria vai a voto em abril.
Se conseguirem simplesmente adiar o debate, as empresas já terão vencido a batalha da vez.