Mesmo nesse contexto desolador, mais de um milhão de pessoas se mobilizaram rumo à emblemática Praça de Maio para exigir "Memória, Verdade e Justiça". “Não seja covarde, lute como uma avó” foi uma das palavras de ordem mais repetidas na praça. Dessa forma, a multidão acompanhou as Mães da Praça de Maio no que foi a maior mobilização de 24 de março na história do país.
Símbolo universal de uma extraordinária dignidade, foram essas mulheres — mães e avós — que, nos momentos mais terríveis da história do país, enfrentaram — quase sozinhas — um Estado genocida que havia feito desaparecer seus filhos e entes queridos. “As loucas da Praça de Maio”: assim as chamava, naquele tempo, a imprensa canalha que silenciava os crimes da ditadura. Foram elas que, armadas com lenços na cabeça, nos quais levavam bordados os nomes de seus filhos, preservaram a memória de toda uma geração que deu a vida por um mundo melhor.
Foram suas lutas que permitiram abrir um processo inédito de julgamento contra os responsáveis pelo genocídio argentino. Também foram essas lutas que possibilitaram restituir a identidade de 140 netos que haviam sido roubados e apropriados pela ditadura.
É que a justiça nunca foi um presente, mas sim uma conquista dos povos. Ainda assim, falta muito.
Cinquenta anos após o golpe de Estado, muitas das Mães e Avós já não estão mais. Muitas partiram deste mundo sem saber o que aconteceu com seus filhos ou sem poder abraçar seus netos. Hoje, cabe às novas gerações assumir esse legado. Foram 30 mil os detidos/desaparecidos. São 30 mil razões para não esquecer, para não perdoar e para não se reconciliar; razões para continuar suas lutas.
Atualmente, no Brasil, uma série de importantes eventos culturais tem aberto debates sobre a última ditadura no país. Filmes que se tornaram mundialmente famosos permitiram conhecer — ainda que apenas um pequeno fragmento — essa história que ainda nos faz sangrar.
Consciente de sua história, a ultradireita reivindica a ditadura. Reivindica o legado de um país injusto, em que os privilégios não sejam questionados e os trabalhadores, camponeses, pobres, negros e mulheres não tenham lugar no projeto de nação.
Não basta repudiar os crimes da ditadura. É preciso reivindicar aquilo que a ditadura combateu: os sonhos insubordinados, as lutas insurgentes, a ousadia de um projeto que busca transformar tudo o que deve ser transformado, sem possibilismo nem cálculos politiqueiros mesquinhos.