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27 março, 2026
Alma Preta
Oi, gente!
Aymê Brito aqui. Enquanto o noticiário brasileiro se ocupa de outras pautas, do outro lado do Atlântico, no coração do continente africano, acontece uma das piores guerras e crises humanitárias dos últimos tempos. Estou falando do conflito na República Democrática do Congo, que a maioria dos veículos de comunicação segue ignorando. Mas aqui na Alma Preta, a gente sabe o que importa. Bora entender esse assunto juntos?
Por uma agenda internacionalista
A República Democrática do Congo vive um conflito armado intenso, protagonizado pelo grupo M23, apoiado por Ruanda. O interesse não é por acaso: o Congo é um dos países mais ricos em minérios do mundo, com reservas de minerais essenciais para a fabricação de celulares e carros elétricos, como o cobalto. E como era de esperar, empresas multinacionais preferem a desestabilização do país ao diálogo com o governo congolês.
Mas o conflito vai além da guerra armada. A crise humanitária passa por desemprego, falta de acesso a alimentos e itens básicos e desastres climáticos. A perda de moradia empurra milhares de pessoas para campos de refugiados, onde doenças se tornam mais uma ameaça à sobrevivência.
Para entender o presente, é preciso olhar para o passado: o conflito tem raízes profundas no período colonial e no processo de independência do país. Uma história de exploração que nunca foi interrompida de verdade.
Tesla, cobalto e tortura
Nesta semana, a Alma Preta publicou uma reportagem sobre os garimpeiros artesanais de Kolwezi, no sudeste da República Democrática do Congo. Sem alternativas de trabalho, eles relatam espancamentos e mordidas de cachorro por seguranças da Kamoto Copper Company (KCC), produtora de cobre e cobalto controlada pela gigante Glencore.
"O que resta para o congolês é realmente morrer", diz Prince, 25 anos, exibindo cicatrizes no rosto e nas pernas. O cobalto extraído nessas condições abastece a cadeia de produção de baterias usadas em carros elétricos, inclusive da Tesla, empresa de Elon Musk. O luxo de alguns tem um preço, e quem paga são os corpos pretos no Congo.
Por uma imprensa que olha para o sul global 🔍
Faz tempo que a Alma Preta cobre o que acontece na RD Congo (inclusive, fomos até lá), no Senegal, no Sudão, na África do Sul e no Brasil. A gente existe para fazer diferente: cobrir o que importa para pessoas racializadas e periféricas do sul global. E esse trabalho só acontece porque tem gente que acredita nele.
Se você acompanha a Alma Preta, sabe que somos uma agência dedicada ao combate ao racismo estrutural e às desigualdades sociais. Cada reportagem, cada cobertura, cada voz que a gente amplifica depende de uma estrutura real: equipe, deslocamentos, equipamentos, novos projetos.
Nossa campanha está no Catarse, em assinatura recorrente. Você escolhe o valor mensal e contribui como preferir, por cartão ou boleto. Compartilhar com outras pessoas também faz toda a diferença. Se puder apoiar, clica aqui!
A Comunidade Cruz da Esperança, tradicional espaço da cultura negra paulista no bairro Casa Verde, Zona Norte de São Paulo, enfrenta risco de desapropriação pela prefeitura. O projeto prevê a concessão do espaço para a iniciativa privada. O despejo foi adiado em 60 dias, mas a ameaça segue de pé. Mais um espaço de resistência negra na mira de quem nunca quis o nosso samba.
Até que enfim
A ONU aprovou o reconhecimento da escravidão como o mais grave crime contra a humanidade. A proposta, apresentada pela União Africana, passou com 123 votos favoráveis e apenas 3 contrários: Estados Unidos, Argentina e Israel. Tarde, mas necessário.
Plano Nacional de Educação
O Senado aprovou na Comissão de Educação um projeto que estabelece metas para a educação brasileira pelos próximos dez anos, com foco em qualidade, equidade e ampliação da jornada integral. A gente foi entender o que muda na prática.
Indicações da equipe
📚Para ler: No nosso site, a jornalista Raquel Quintiliano, inspirada pela obra de Maria Firmina dos Reis, indicou uma série de livros de mulheres negras. Vale muito a leitura!
🎧Para ouvir: Nataly Simões, nossa gerente de redação, indica Soffisticada, o novo álbum da MC Soffia. O disco traz nove faixas com referências da black music, participações de Tasha & Tracie e Slipmami, e marca a fase mais autoral da artista.
🍛Para comer: Carol Moreno, nossa gerente audiovisual, indica o Altar Cozinha Afro Pop Ancestral. Direto de Recife, o restaurante acaba de desembarcar na Vila Madalena, em São Paulo. O cardápio é assinado por Dona Carmen Virginia.
🎬Para assistir: Minha indicação é Arautos do Evangelho, série lançada pela HBO Max em março de 2026. É interessante, mas pesada. O documentário investiga denúncias graves contra a organização católica e expõe o racismo e as ideias eugenistas praticadas dentro da doutrina.