Imagine que você é mãe ou pai de uma criança de quase 13 anos. O que você faria se ela recebesse uma ligação de um estranho ensinando como sair sozinho de casa sem precisar pedir a sua autorização ou consentimento? Apavorante, certo?
É exatamente isso que o Google tem feito, ao redor do mundo, com crianças que estão prestes a completar 13 anos. Na semana passada, um post no meu feed do Linkedin me chocou.
Melissa McKay, presidente de uma organização dos Estados Unidos que defende o direito das crianças online, postou que, a um mês de completar 13 anos, seu filho recebeu um email do Google avisando que ele logo poderia desabilitar os controles parentais.
“Uma corporação trilionária está diretamente contactando cada criança para dizer a ela que ela tem idade suficiente para se ‘graduar’ da supervisão parental. Esse e-mail explica como uma criança pode remover esses controles sozinha, sem consentimento ou envolvimento dos pais”, escreveu McKay.
ECA Digital e o lobby das big techs
Você deve ter visto nessa última semana os protestos de crianças no Roblox. Carregando cartazes virtuais, esses usuários (que ninguém tem certeza se são crianças, diga-se de passagem) protestavam contra recentes medidas de segurança implementadas pela plataforma.
É fato que, faltando dois meses para que a lei nº 15.211/2025, o chamado ECA Digital, entre em vigor no Brasil, as big techs e outras plataformas estão sentindo o bafo quente da regulação em seus pescoços. O Roblox não fica de fora, e já antecipou os efeitos e introduziu novas medidas de verificação etária.
Mas as big techs também se anteciparam com uma mudança no discurso. Em novembro, cerca de dois meses depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o ECA Digital, começou a circular uma campanha chamada “Rede que Cuida, focada em “promover a conscientização, prevenção e enfrentamento dos riscos de crianças e adolescentes no ambiente digital”.
O mote da campanha é que a proteção de crianças e adolescentes na internet é uma responsabilidade compartilhada entre os diferentes setores da sociedade. Parece uma boa iniciativa. O problema é quem está por trás dela: o Conselho Digital.
Se você é leitor do Intercept há algum tempo, você já ouviu falar nesse nome. Mas eu te relembro: o Conselho Digital, antigo Instituto Cidadania Digital, é ligado à Frente Digital, um braço de lobby poderosíssimo bancado pelas maiores empresas de tecnologia no mundo para representar seus interesses.
Se a gente pensar em momentos-chave que travaram a agenda de regulação de redes sociais no Brasil, o Conselho Digital estava lá atuando. O modus operandi desse grupo repete o modelo do Instituto Pensar Agropecuária. Mas, como eu costumo dizer, sob esteróides, afinal eles conseguem ir um passo além do agro porque controlam as arenas onde acontece o debate público.
As big techs nunca estiveram muito interessadas em proteger crianças e adolescentes dos danos ocasionados pelas redes sociais.
Os Facebook Papers, um conjunto de documentos internos vazados pela ex-funcionária Frances Haugen, revelaram que o Facebook adotou medidas agressivas para aumentar seu uso e retenção entre crianças pequenas. Os mesmos documentos mostraram que a empresa sabia que o Instagram era tóxico para adolescentes, em especial meninas.
Em 2024, o Conselho Digital financiou um relatório de um pesquisador que minimiza o impacto das telas sobre a saúde mental de jovens. A pesquisa foi apresentada em uma comissão sobre proteção de crianças e adolescentes no Senado. Porém, o pesquisador omitiu um detalhe: quem pagou pela pesquisa foram as big techs, principais interessadas no uso prolongado de telas. Mas isso nós revelamos.