Feliz Ano Novo Por mais que 2025 tenha sido desafiador em termos de captação – para empreendedores e gestoras montando novos fundos –, o ano apresentou boas oportunidades de investimento para empresas resilientes.
“As taxas de juros continuam elevadas, a expectativa de queda gradativa ainda não se realizou, então o apetite de investidores menos sofisticados segue menor para ativos de capital de risco. Quem já aloca há muito tempo sabe que não há uma relação com inflação e taxa de juros, por exemplo. Não jogamos para um ciclo de curto prazo, falamos de 10 anos para fundos de venture capital”, destaca Livia Brando, sócia e diretora de VC na VOX Capital.
Números da plataforma de dados Sling Hub mostram crescimento no volume de investimentos em startups brasileiras na comparação entre os períodos analisados ao longo de 2025: no primeiro trimestre, elas captaram US$ 512 milhões, em 95 rodadas; no segundo, US$ 900 milhões, em 109 deals; e no terceiro, US$ 1,2 bilhão, em 130 rodadas. Os dados consideram captações por equity [participação societária] e dívida. “Tivemos menos rodadas em 2025, mas foram mais qualificadas, e o Brasil recebeu mais da metade do capital alocado na América Latina”, ressalta Brando.
A investidora destaca que, apesar das dificuldades para captar o quarto fundo da VOX Capital, a gestora decidiu antecipar o first closing para não perder oportunidades de investimento. Para ela, os empreendedores estão mais “pé no chão”, apresentando métricas que mostram evolução dos negócios. Os investidores também estão buscando acompanhar os fundadores por mais tempo, iniciando relacionamentos antes mesmo de a startup estar pronta para receber um cheque.
Carolina Strobel, sócia-fundadora da Antler Brasil, acreditava que 2025 seria um ano melhor, mas o define como um “ano de reconstrução dolorosa”. Ela diz que esperava projetos com tecnologia mais densa. “O deal flow foi grande, mas vi poucas tecnologias robustas. A inteligência artificial permitiu que muitos MVPs fossem criados com vibe coding [programar com uso intensivo de ferramentas de inteligência artificial, tendência entre startups], mas é preciso ter profundidade depois”, lamenta.
Ainda assim, Strobel destaca o crescimento de fundadores solo e startups mais enxutas no pontapé inicial, e a descentralização na criação de negócios. “A IA reduz o custo de oportunidade para empreender e perfis mais técnicos podem desenvolver MVPs sozinhos. Isso muda a cena da tecnologia: os melhores projetos não vão aparecer em centros como Vale do Silício (EUA), Índia ou China. Só precisamos de pessoas com bons projetos e capacidade de execução”, pontua.
Olhando para o ano que chega, ela prevê que 2026 não será como 2021, época de bonança de investimentos. A investidora aposta em uma melhora para o early stage, como reflexo do cenário mundial, mas entende que estratégias de longo prazo para fomento público em startups são necessárias no Brasil. “Devemos nos inspirar nas entidades globais. Várias outras tecnologias vão surgir a partir da IA e precisamos criar fundamentos regulatórios para facilitar a entrada de produtos, senão vamos ficar de fora”, alerta.
Para Renato Ramalho, CEO e sócio da KPTL, as sinalizações de queda de juros pelo Banco Central – o que deve diminuir a concentração em renda fixa, trazendo mais capital para investimentos alternativos – são motivo para otimismo. “Mesmo em um período de eleição, mantenho uma visão positiva. Se esse cenário se confirmar, isso deve gerar mais dinamismo não só para nós, mas também para as corporações, o que reforça a necessidade de acelerar a agenda de desinvestimentos”, afirma. Nos últimos tempos, a saída por M&As tem sido a opção prevalente de desinvestimento de startups no Brasil, com a janela de IPOs fechada desde 2021.
Olhando para 2026, Brando diz não acreditar em grandes mudanças. “Tenho um otimismo cauteloso. Não teremos dinheiro jorrando, mas, com a queda gradual da taxa de juros, vamos poder voltar a pisar um pouquinho mais no acelerador”, opina.
Os especialistas apostam na agenda climática no centro das teses de investimento. Transição energética, descarbonização, bioeconomia e soluções ambientais aparecem como áreas com grande potencial de atração de capital, inclusive estrangeiro, enquanto biotechs e healthtechs ganham relevância como verticais promissoras. Segundo os entrevistados, fintechs seguirão atraindo capital, e a inteligência artificial aparece como camada horizontal, aplicável a diferentes setores. |