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Dois gigantes: Lula se despede do amigo Pepe
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| Blog do Gerson Nogueira |
Tio Pepe
Por Heraldo Campos Estive algumas vezes no Uruguai. A primeira foi a passeio nos anos 90 do século passado, viajando de automóvel e com a família, por estar morando na cidade de São Leopoldo (RS) e Boas lembranças são guardadas da convivência com os colegas desse período em reuniões técnicas e da amizade fraterna que se estabeleceu com os irmãos argentinos, paraguaios e uruguaios, que perduram até os dias de hoje.
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🎖🇧🇷🇺🇾 Lula deu a Mujica condecoração mais alta oferecida pelo Brasil a cidadãos estrangeiros
Em 5 de dezembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva homenageou o ex-presidente uruguaio José Alberto "Pepe" Mujica com a medalha da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. A honraria é oferecida pelo Brasil a grandes figuras estrangeiras.
Na ocasião, Lula afirmou que Mujica foi "a pessoa mais extraordinária" entre os presidentes com quem ele já se relacionou
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Pepe Mujica: “A vida passa minuto a minuto.”
Aos 89 anos, Mujica enfrentava um câncer de esôfago em estágio avançado e recebia cuidados paliativos Do Jornal GGN O ex-presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, faleceu nesta terça-feira (13), aos 89 anos, vítima de câncer no esôfago em estágio avançado. A informação foi confirmada por Yamandú Orsi, atual chefe de Estado uruguaio. “É com profundo pesar que anunciamos o falecimento do nosso colega Pepe Mujica. Presidente, ativista, líder e líder. Sentiremos muita falta de você, querido velho. Obrigado por tudo o que você nos deu e pelo seu profundo amor pelo seu povo”, escreveu Orsi. Mujica estava fora da cena política desde abril de 2024, quando informou que estava doente e que o estômago estava muito comprometido pelo câncer. Desde a última semana, recebia cuidados paliativos. O progressista nasceu em Montevidéu, em 20 de maio de 1935. Foi presidente entre 2010 e 2015. Mas iniciou a trajetória política nos anos 1960, no Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, grupo conhecido por assaltar bancos para comprar comida e distribuir dinheiro aos pobres. Mujica passou 14 anos preso e seria executado pelos militares se os Tupamaros retomassem as atividades de guerrilha. Em 1985, foi beneficiado por um decreto de anistia e deixou a prisão. Então, ajudou a fundar o partido de esquerda Movimento de Participação Popular (MPP) e conquistou uma vaga na Câmara em 1994. Já em 1999, foi eleito senador. E, em 2005, foi nomeado ministro da Agricultura. À frente do Executivo, Mujica ficou conhecido por aumentar o gasto social, que passou de 60,9% para 75,5% do total do gasto público. “Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social”, dizia. Também em seu governo, o salário mínimo no Uruguai aumentou 250% e propôs a legalização da maconha. Aposentou-se em 2020, quando era senador, por motivos de saúde. E dedicou os últimos anos de vida ao cuidado de plantas e à doação da maior parte de salário de ex-presidente a projetos de combate à pobreza. “A vida escapa e se vai minuto a minuto, e não podem ir ao supermercado comprar a vida. Então lutem para vivê-la, para dar conteúdo a ela”, também dizia. |
| Luíz Müller Blog |
Pepe Mujica sai de cena mas sua Luz continuará a Iluminar os que Lutam pela Pátria Grande Latino Americana
© José Cruz/Agência Brasil Morreu nesta terça-feira (13), no Uruguai, o ex-guerrilheiro, ex-presidente e ícone da esquerda latino-americana José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, aos 89 anos. Mujica enfrentava um câncer de esôfago e estava recolhido em seu sítio, nos arredores de Montevidéu, onde cultivava flores e hortaliças. Conhecido como “presidente mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, por dirigir um fusca dos anos 1970, doar parte do salário para projetos sociais e pelas reflexões políticas com forte teor filosófico, Mujica presidiu o Uruguai de 2010 a 2015. Defensor da integração dos países latino-americanos e caribenhos, Mujica se tornou referência da esquerda do continente durante uma época em que representantes da esquerda e centro-esquerda assumiram diversos governos da região, como Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia e Brasil.
GuerrilheiroNascido em 1935 em uma família de origem humilde, nos arredores de Montevidéu, Mujica entrou para política ao fundar o Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, grupo guerrilheiro urbano que operou nos anos 1960 e 1970 e enfrentou a ditadura civil-militar no Uruguai (1973-1985). Sua atividade no Tupamaro lhe custou cerca de 14 anos de prisão, tendo sido preso quatro vezes, ferido por seis tiros e escapado da prisão em duas ocasiões. A história da prisão de Mujica, torturado e jogado na solitária por longos anos, foi contada pelo longa-metragem Uma Noite de 12 Anos, dirigido pelo uruguaio Álvaro Brechner. Em entrevista ao jornalista brasileiro Emir Sader, Mujica revelou que, para suportar a solitária, teve que se relacionar com animais. “Se você pegar uma formiga e colocá-la perto do ouvido, vai ouvi-la gritar. Isso eu aprendi no calabouço. [Também] guardava umas migalhas de pão porque havia uma ratazana que aparecia sempre lá”, contou. PresidenteCom o fim da ditadura, Mujica foi libertado e participou da criação do Movimento de Participação Popular, que compõe a chamada Frente Ampla, grupo de organizações de esquerda e centro-esquerda que levou Mujica à Presidência da República do pequeno país sul-americano. Antes, foi deputado federal, ministro da Agricultura e senador. Na Presidência, Pepe Mujica chamou atenção por promover uma legislação considerada progressista com a descriminalização do aborto, a lei do casamento igualitário, que permitiu casais homossexuais adotarem filhos; além da legalização da maconha. Doutor e professor em história na Universidade de Brasília (UnB), Rafael Nascimento destacou que a pobreza no país caiu de 39% em 2004 para 11,5% em 2015. Além disso, houve expansão dos programas de transferência de renda e aumento do salário mínimo, além da distribuição de laptops para estudantes e professores e políticas habitacionais para famílias de baixa renda.
Em 2019, Mujica foi novamente eleito senador, mas renunciou ao cargo em 2020 para evitar o contágio durante a pandemia de covid-19. “Há uma hora de chegar e uma hora de partir na vida”, disse. Em novembro de 2024, o candidato da Frente Ampla, Yamandú Orsi, venceu a eleição presidencial, marcando a volta da centro-esquerda ao poder no Uruguai após a derrota em 2020. O candidato do grupo de Mujica assume o governo em março de 2025. Integração latino-americana“Ou nos integramos, ou não somos nada”, costumava dizer Pepe Mujica, que sempre lembrava que a América Latina possui apenas cerca de 7% da população mundial. Para ele, a integração dos países da região é fundamental para o nosso desenvolvimento. Mujica argumentava que a história da humanidade é definida fora do continente e que apenas a união dos países da região, independentemente se os governos são de direita ou esquerda, seria capaz de interferir nas mudanças impostas de fora.
Lula condecora MujicaNo dia 5 de dezembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi até o sítio de Mujica, no Uruguai, e o condecorou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, homenagem dedicada a personalidades estrangeiras. Para Lula, Mujica foi, entre os presidentes que conheceu, “a pessoa mais extraordinária”. “Essa medalha que eu estou entregando ao Pepe Mujica não é pelo fato de ele ter sido presidente do Uruguai. É pelo fato de ele ser quem é”, disse Lula, emocionado. Com informações de Agência Brasil |
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Mujica se foi. Mas deixou muito.
O tupamaro que plantava flores Por Leandro Demori Era uma manhã úmida em Montevidéu quando o portão da prisão se abriu rangendo o ferro cansado de manter gente atrás das grades. Um homem magro e de olhos fundos e barba rala saiu com passos seus curtos que se tornariam conhecidos no mundo todo. Ele ainda não sabia disso. Mal podia acreditar que estava livre – levava nos ombros a sombra de doze anos de cárcere. José "Pepe" Mujica deixa para trás não só os muros da prisão, mas os buracos cavados no chão pelos algozes da ditadura militar. Foram neles que passaram dias inteiros, incomunicáveis, como parte da tortura psicológica aplicada pelos militares uruguaios. Eles o chamavam de "Refém". Se a guerrilha tupamara voltar à ativa, matariam Mujica e outros como ele. Mas ele saiu vivo. E saiu homem inteiro. Pepe Mujica não era político. Era planta do mato, com raiz funda em terra difícil. Camponês antes de tudo. Entrou na luta armada nos anos 60, quando a democracia uruguaia começou a desmoronar. Para manter a chama acesa e derrotar os militares golpistas, os Tupamaros assaltavam bancos, sequestravam diplomatas, e também distribuíam comida e ideologia por toda parte. Mujica foi presa, torturada, alvejada por seis tiros. Sobreviveu. Não virou mártir, sempre relegou a ideia torta de virar mito. Aceitou virar símbolo sob o contrato de que estava apenas puxando a fila da multidão. Quando a ditadura caiu, Mujica não foi para Miami nem se escondeu atrás de uma mesa de escritório. Fundou um partido — o Movimento de Participação Popular — e entrou para a Frente Ampla. Deputado, depois senador. Falava um pouco. Quando conversava, todo o mundo escutava. Em 2009, a probabilidade aconteceu: Pepe Mujica foi eleito presidente do Uruguai. O ex-guerrilheiro virou chefe de Estado. Ele continuou morando em seu sítio nos arredores da capital. Sem palácio, sem pompa, eu doava 90% do salário – não por marketing, mas porque descobri que já tinha o suficiente. Ele estava saindo para trabalhar em seu inesquecível Fusca azul. No campo, cultivava flores, como fazia sua mãe nas mais longas lembranças de infância. No palácio cultivava ideias: legalizou o aborto, o casamento igualitário, a maconha. Defende o consumo consciente – preocupado que estava com as questões climáticas –, a política como instrumento de paz e a humildade como virtude política. Falava ao mundo, mas nunca deixou de olhar pro chão — onde crescem as coisas que importam, das flores às ideias. Não foi Pepe que escolheu o mundo, foi o mundo que carregou Pepe nos braços. Nos últimos anos, Pepe foi parando devagarito . Abandonou o Senado em 2020. Disse que a velhice o pegou. Disse que o amor ainda era seu motor. Nunca reclamou da morte. Sabia que ela vinha, como tudo vem — “como uma visita que não manda recado”. Continuou colhendo flores, conversando com jovens que apareciam nos ocultos de sua chácara e o viam como um avô gentil com alma de revolucionário. Quando descobriu que o câncer não daria acaso, declarou com franqueza e serenidade: "Sou um velho que está muito perto de empreender a retirada de onde não se volta. Mas eu sou feliz porque, quando meus braços se foram, há milhões de braços me complementares na luta." Pouco depois, emendou: "Estou morrendo. Deixem-me tranquilo. Meu ciclo acabou. O guerreiro tem direito ao seu descanso." Em uma de suas últimas entrevistas, concedida ao jornal El Pais, deixou cair uma resposta que poderia ser o epitáfio de milhões de pessoas pelo mundo: “A morte faz da vida uma aventura. O único milagre que existe no mundo para cada um de nós é ter nascido. (…) Me dediquei a mudar o mundo e não mudei porcaria nenhuma, mas estive entretido. E gerei muitos amigos e muitos aliados nessa loucura de tentar mudar o mundo para melhorá-lo. E dei um sentido à minha vida. Vou morrer feliz, não por morrer, mas por deixar uma turma que me supera com folga. Só isso.” Mujica se foi, sem estardalhaço, como viveu. |
Nesta quarta-feira (14), milhares de uruguaios foram às ruas da capital, Montevidéu, para acompanhar o cortejo fúnebre do ex-presidente José “Pepe” Mujica.
O corpo saiu da sede da Presidência, na Praça da Independência, e seguiu até o Palácio Legislativo, passando por diversos pontos da cidade.
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