 | Dilma Rousseff, presidente do Brasil, e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, na Cúpula das Américas, em 2015 | ROBERTO STUCKERT FILHO/AFP

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| Dilma e Zuckerberg: como foto selou a vitória (fugaz) do Facebook no Brasil |
| Helton Simões Gomes e Marcela Canavarro |
| Enquanto a Meta opera uma aproximação junto a Donald Trump, ex-funcionários revelam os bastidores de uma época em que a companhia, ainda chamada de Facebook, corria atrás de outros líderes mundiais para convencê-los de seu poder para promover inclusão digital. Até agora, os esforços da vez surtiram pouco efeito —corre sem sobressaltos a ação judicial movida por agência do governo norte-americano que pode 'quebrar' a Meta. Mas, no passado, deram resultado. Um dos souvenirs dessa era de sucesso acaba de completar dez anos. É uma foto. Nela, Dilma Rousseff, então presidenta do Brasil, veste um blusão do Facebook. Posa ao lado de Mark Zuckerberg, CEO da empresa. Sorridentes, os dois selam a paz entre a rede social e o governo brasileiro e anunciam um programa para levar internet a áreas remotas. A vitória, no entanto, durou pouco, relata um ex-funcionário, que conversou com Radar Big Tech em condição de anonimato por não ser autorizado a falar em nome da empresa. E a tremenda dor de cabeça que se seguiu segue até os dias de hoje. O que rolou?Dilma e Zuckerberg se encontraram na Cúpula das Américas de 2015, no Panamá. Foi histórico. Não pela presença do Facebook. Era a primeira vez que Cuba ia à reunião, realizada desde 1994 para congregar países da OEA (Organização dos Estados Americanos). Todos aguardavam a foto final, que coloca na mesma cena incluiria Barack Obama, dos EUA, e Raúl Castro, de Cuba, mas: - Zuckerberg tinha sua própria agenda. Foi para lá a contragosto e após convite garimpado por Sarah Wynn-Williams. É a ex-diretora de políticas públicas do Facebook que conta a história nas primeiras páginas de "Careless People", livro que virou best-seller nos EUA após a Meta proibir a autora de divulgá-lo. Toda a cena é embaraçosa, porque...
- ... No coquetel de abertura, o CEO do Facebook foi posicionado longe dos chefes de Estado, numa mesa de parentes do presidente anfitrião. Só que?
- ... Sarah tentou contornar a situação: escondeu a plaquinha de Mark na bolsa para trocá-la com a de um presidente - ela omite o nome, mas o chama de "menor". Não dá certo: a troca é desfeita. Ela tenta a manobra de novo, mas desiste. O cerimonial já havia captado suas intenções. Enquanto isso...
- ... Outro funcionário brinca: Mark quer sentar com Castro. Sarah afasta a ideia e busca líderes para falar com o CEO, escanteado na festa. O climão não para, já que...
- ... Ao abordar Stephen Harper, então primeiro-ministro do Canadá, ouve um sonoro "não", testemunhado por Zuckerberg, que se aproximava. A busca continua -em vão- por uma hora, até que...
- ... Um constrangido Zuckerberg, não acostumado "a ser ignorado" e sempre "cercado por gente que acredita que ele é a pessoa mais interessante da sala", decide sair de fininho, mas...
- ... O constrangimento de serem flagrados pela imprensa os impede. Só conseguem fugir por um túnel escuro onde disputam espaço com cavalos. Poucos dias depois...
- ... Zuckerberg se encontra com uma entusiasmada Dilma Rousseff, e o Facebook fecha um acordo com o maior país latinoamericano para implantar seu ambicioso projeto de internet.
"Agora, a Meta está de joelhos pro Trump. Na época, o grande objetivo do Facebook era se aproximar dos políticos "tier 1" no Brasil." Ex-funcionário do Facebook Por que é importante"O encontro do Mark com a Dilma em 2015 foi a coroação de esforços de aproximação de anos. Ela colocar o moletom que ganhou dele na Cúpula do Panamá e comprar o discurso de esforços conjuntos em prol de acesso à internet colocava o Facebook no caminho exato que a empresa queria" Ex-funcionário do Facebook Obviamente, não foi trocando plaquinhas de identificação em coquetéis de luxo ou correndo com cavalos que os executivos da rede social se aproximaram do governo brasileiro. Até porque a força de atração era nula por parte do comissariado. Desde que se estabeleceu no Brasil em 2011, a empresa enfrentava críticas por não ser ágil para tirar do ar conteúdos criminosos, com venda de armas, pornografia infantil e propaganda neonazista. Até chegava a recusar. Tanto que, durante as eleições de 2012, a Justiça Eleitoral ameaçou fechar o escritório dela no Brasil e prender seus executivos. No mesmo ano, a empresa foi convocada a depor na CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, da Câmara dos Deputados. O caldo entornou em 2013, quando ex-agente da CIA Edward Snowden revelou que os EUA usavam as empresas norte-americanas de tecnologia -Facebook entre elas- para espionar líderes globais, como a própria Dilma. As aquisições de Instagram, em 2012, e WhatsApp, em 2014, só reforçaram a impressão de que a empresa estava disposta a tudo para conservar seu poder. O azedume só arrefeceu —um pouquinho— quando a empresa começou a capacitar pequenas empresas e a instalar laboratórios de inovação dentro de favelas, conta o ex-funcionário do Facebook. "Distribuição de renda e tecnologia eram pautas importantíssimas no governo Dilma. A reputação começou a melhorar. Éramos a plataforma que democratizava o espaço publicitário, antes acessível só a grandes anunciantes. Nossa narrativa era: 'antes, apenas grandes redes de hotéis chegavam a hóspedes em potencial. Hoje, o albergue Rocinha Guest House pode ocupar o mesmo espaço no feed que o Sheraton Rio'" Ex-funcionário do Facebook Anunciado em abril de 2015, o projeto Internet.org seria lançado de fato em junho a partir de uma iniciativa que já funcionava em Heliópolis, a maior favela de São Paulo. Por um lado, levaria conexão a áreas remotas, com drones e satélites. Por outro, ofereceria conexão gratuita à Wikipedia, a serviços do governo e às redes sociais do grupo. "O objetivo fundamental é a inclusão digital, mas não é a inclusão digital pela inclusão digital, é a inclusão digital que pode garantir acesso a educação, saúde, cultura e tecnologias" Dilma Rousseff, presidente do Brasil (2011-2016) Não é bem assim, mas tá quase láO gostinho da vitória durou pouco. O Brasil completava 20 anos de internet comercial e tinha sancionado no ano anterior o Marco Civil da Internet, uma lei pioneira em escala mundial, seja pela forma como foi construído, seja pela abrangência. Com poder e visibilidade de sobra, a comunidade da internet fustigou as lacunas do projeto. O CGI (Comitê Gestor da Internet) questionou o acordo em três pontos: - por que haveria limitação de acesso a determinados conteúdos?
- o que estaria associado à oferta de internet e como ficaria a privacidade dos usuários?
- quem preoveria a infraestruturas utilizada?
Acompanhada de mais de 30 entidades, a Proteste bateu diretamente na porta da Presidência da República. Nem executivos do alto escalão do Facebook sabiam direito os objetivos do projeto. "Nós nunca soubemos o real interesse por trás do 'Internet.org' ou como se 'monetizaria'. Mas, sem dúvida, ter nas mãos a informação do que, quando e como as pessoas acessam seria uma ferramenta poderosíssima", diz o ex-funcionário. Seria. Mas não foi. Um app para internet lenta até chegou a ser lançado, mas os drones foram engavetados em 2018. Ainda em 2015 a lua de mel entre Brasil e Facebook desandou de vez. No fim daquele ano, o WhatsApp foi bloqueado por não cumprir decisões judiciais. Em março do ano seguinte, Diego Dzodan, vice-presidente do Facebook na América Latina, foi preso no meio da rua ao ter o carro interceptado pela PF quando ia para o trabalho no Itaim Bibi, região nobre de São Paulo. Motivada pelas constantes negativas da empresa a interceptar mensagens do app recém-adquirido, a cena, digna de filme, selou de vez o fim da fugaz vitória do Facebook. Sobrou a foto. |
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