A iRobot é muitas vezes apelidada como ‘a Apple dos aspiradores-robô’. Não significa que tenha o melhor produto do momento, mas foi uma empresa crucial para inovar e desenvolver um novo setor da eletrónica de consumo (o primeiro Roomba foi lançado em 2002!), estatuto que a marca continua a explorar, sobretudo através de preços mais elevados dos produtos (posicionamento premium), mesmo que a distância de inovação para os rivais tenha encurtado significativamente (ou até mesmo desaparecido). Ao dia de hoje, a iRobot (marca que fabrica os famosos Roomba) continua a disponibilizar alguns dos melhores e mais completos aspiradores-robô do mercado. Mas isso não chega. No mundo em que vivemos, só ser bom não chega. Um dia depois de ter apresentado uma mão cheia de novos aspiradores-robô, a iRobot admitia publicamente que está em maus lençóis. Tipo, a-caminho-da-falência-maus-lençóis. “Tivemos perdas operacionais substanciais nos anos anteriores, antecipamos continuar a incorrer em perdas operacionais no futuro previsível e podemos não voltar a alcançar a rentabilidade no futuro”, lê-se num documento regulatório. Como é que uma empresa pioneira e que já dominou o mercado chega a este ponto? A primeira explicação é, sem surpresa, a concorrência. Marcas como a Xiaomi, a Roborock ou a Ecovac, entre muitas outras, têm produtos tão bons (ou até melhores) do que os Roomba, sendo que na maior parte das vezes têm preços agressivos. Não poderia a iRobot fazer um bom aspirador-robô por 250 euros? Podia e faz, mas a questão é que as outras marcas ‘insistem’ em disponibilizar mais ou melhor pelo mesmo valor. E a iRobot simplesmente não está disponível para cortar o seu próprio valor. Mas ao não fazê-lo, sujeita-se ao capitalismo selvagem da concorrência… A isto acresce a questão da comodidade dos aspiradores-robô e dou um exemplo pessoal: comprei um durante a pandemia e enquanto o meu ‘Jarbas’ tiver forças para aspirar, não pretendo trocar por um novo. Nestes produtos, o ciclo de renovação não é tão constante quanto nos smartphones, portáteis ou auriculares, está mais próximo do ciclo do dos eletrodomésticos, e isso pesa. A segunda explicação, típica nestas grandes empresas, é a alavancagem em dívida. Esta é uma estratégia que funciona quando há certezas sobre o futuro. Eu hoje peço 10 euros emprestados, com a certeza que daqui a dois anos faturo 20 euros, conseguindo pagar os 10 euros, os juros e sobrando ainda para despesas, investigação e desenvolvimento. O problema dos planos alavancados em dívida é quando as expectativas e estimativas de negócio não são cumpridas. Uma saída para este problema, tipicamente, passa por vender a empresa a uma empresa maior, para que se ganhe um novo fôlego financeiro e uma nova economia de escala. Foi o que a iRobot tentou fazer em 2023, com a venda à Amazon, um negócio que caiu por terra por chumbo dos reguladores. A terceira razão é a espiral que resulta da combinação das duas anteriores. A concorrência aumenta, a empresa vende menos, a situação financeira piora, a empresa faz despedimentos, menos pessoas produzem (em teoria) menos inovação, o que resulta em mais dificuldade em lutar num mercado que já estava difícil, o que depois dificulta o acesso a novo crédito… Os números não mentem. Em 2021, no pico da pandemia, a iRobot chegou a ser avaliada em 3,56 mil milhões de dólares. Atualmente, as ações da empresa valem menos de cem milhões de dólares. As receitas, apesar de volumosas, estão em decréscimo: passaram de 890 milhões de dólares em 2023 para 681 milhões de dólares em 2024. A empresa perdeu 77 milhões de dólares só no último trimestre de 2024, o que representa uma quebra de 44% face ao mesmo período do ano anterior. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar várias vezes da iRobot em 2025… e não propriamente pelos melhores motivos. Boas leituras! |