O RIO DAS ALMAS PERDIDAS
O título em português, "O Rio das Almas Perdidas", cria a impressão de um dramalhão pesado, quando na verdade se trata de uma espécie de musical com toques de romance e aventura que por um acaso se passa no Velho Oeste. Dirigido pelo prolífico Otto Preminger, o filme é ambientado nas Montanhas Rochosas canadenses em 1875 e conta a história de Matt Calder, um viúvo que é solto da prisão após cumprir pena por assassinato e retorna para buscar Mark, o filho de 9 anos que ficou sob os cuidados de Kay, uma cantora de cabaré. O noivo de Kay, o jogador Harry Weston, ganha a escritura de uma mina de ouro, e parte com ela em uma jangada para registrar a mina em seu nome, mas acabam sendo resgatados do rio por Matt. Após um desentendimento, Weston ataca Matt e foge em seu cavalo, deixando Kay para trás. Quando índios hostis atacam a fazenda, Matt, Kay e Mark fogem na jangada e enfrentam uma série de perigos e obstáculos ao longo do caminho até que Matt possa localizar Harry e o confrontar. Marilyn Monroe como Kay, Robert Mitchum como Matt, Tommy Rettig como Mark e Rory Calhoun como Harry formam o elenco principal. Em 1953 quando "O Rio das Almas Perdidas" foi produzido para lançamento no ano seguinte, Marilyn Monroe ainda era uma atriz em ascensão, que vinha de duas comédias de bastante sucesso, "Os Homens Preferem as Loiras" e "Como Agarrar um Milionário", nos quais dividiu a tela com protagonistas do calibre de Jane Russell, Betty Grable e Lauren Bacall, e estava desesperadamente atrás de um projeto em que pudesse explorar seus talentos dramáticos e não ter que dividir a atenção da câmera com nenhuma outra rival. Ela havia obtido muitos elogios por sua atuação no drama noir "Torrente de Paixões" no papel de uma femme fatale, mas temia que o sucesso de seus dois filmes anteriores a estigmatizasse como uma atriz de musicais e comédias malucas. Famoso pelas comédias sofisticadas e melodramas noir que dirigiu, sendo "Laura", de 1944, o seu melhor cartão de visita, Preminger aceitou o filme por estar preso a um contrato com o chefão da 20th Century Fox, Darryl F. Zanuck, e contra a vontade do produtor Stanley Rubin que queria William Wellman ou Raoul Walsh, que ele acreditava que poderiam estar mais habituados ao gênero western e a filmar em locações do que Preminger. O próprio Preminger não estava interessado no filme, mas aceitou a direção depois que Robert Mitchum e Marilyn Monroe foram escalados para os papéis principais. O filme foi rodado em locações nos parques nacionais de Banff e Jasper, no Canadá, e a presença da equipe de filmagem durante os dois meses seguintes foi a principal atração turística para os moradores das duas pequenas cidades. Como muitos filmes rodados em locações naturais, vários problemas atrapalharam o cronograma de filmagem, como as chuvas torrenciais muito comuns à região, além dos problemas com o elenco: Robert Mitchum aparecia para gravar suas cenas visivelmente embriagado. Joe DiMaggio, o popular jogador de beisebol e noivo de Marilyn na época, chegou à cidade e aumentou a curiosidade da população circulando pelos arredores com a atriz, e Marilyn insistiu em trazer sua treinadora de atuação, Natasha Lytess, para o set de filmagem, gerando atritos constantes com Preminger pela forma como Lytess convencia Marilyn a carregar no sotaque e a atuar de forma contrária às orientações do diretor. Ela também passou a dar conselhos a outros membros do elenco, como Tommy Rettig. Irritado, Preminger ligou para Rubin e exigiu que Lytess fosse banida do set, mas quando isso aconteceu, Marilyn ficou furiosa e ligou diretamente para Zanuck ameaçando abandonar as filmagens se Lytess não fosse trazida de volta. Zanuck não teve escolha e Preminger descarregou sua frustração sobre Marilyn pelo restante da produção.
A um ponto, o diretor e a atriz mal se falavam, com Mitchum servindo de intermediário e tentando manter o clima no set o mais saudável possível. Para piorar, Marilyn sofreu uma lesão no tornozelo após escorregar de uma pedra e cair no rio. Ela quase se afogou quando a vestimenta de borracha que protegia a parte inferior de seu figurino se encheu de água. Mitchum e outros membros da equipe se lançaram ao rio e conseguiram trazê-la de volta para margem. A produção ficou paralisada por cerca de 10 dias até que Marilyn se recuperasse do ferimento. Depois que a produção retornou para Los Angeles, o clima no set melhorou. Mesmo com o pé engessado, Marilyn realizou suas cenas, e para filmagens adicionais que envolviam o cenário do rio, um tanque cheio de água foi usado e dublês foram filmados em locações em Idaho, no próprio Rio Sem Retorno que dá título ao filme. Uma das maiores dificuldades de Preminger e do cinegrafista Joseph LaShelle foi adaptarem-se ao novo formato CinemaScope, um modelo revolucionário que usava lentes anamórficas para produzir imagens em formato widescreen, uma exigência do estúdio que acreditava que o CinemaScope seria o sucessor do tradicional formato Academy e oferecia uma melhor experiência ao público para rivalizar com a televisão que aquela altura começava a ganhar popularidade como veículo de entretenimento preferido dos americanos. De fato, "O Rio das Almas Perdidas" foi o primeiro filme a ser rodado nesse formato, mas o CinemaScope teve vida curta, se tornando obsoleto já no final dos anos 50 com o lançamento do Panavision.
Com as filmagens concluídas, Preminger decidiu que nunca mais trabalharia novamente como empregado de estúdio. Ele pagou à Fox 100 mil dólares referentes à multa rescisória de seu contrato e viajou para a Europa deixando o filme aos cuidados do montador Louis R. Loeffler e do produtor Rubin. O primeiro corte bruto era terrível e provou que Preminger não entendia mesmo de faroestes, diluindo o tom épico que o gênero requer em uma narrativa estática e artificial. Para piorar, as cenas filmadas em locações e as cenas gravadas em estúdio não casavam, criando um conflito entre uma tomada e outra. Jean Negulesco foi chamado às pressas para realizar filmagens adicionais para tentar suavizar a narrativa. "O Rio das Almas Perdidas" estreou em 29 de abril de 1954 com críticas mistas. Embora o CinemaScope ofereça uma experiência deslumbrante enquanto captura as vastas paisagens naturais em um perfeito Technicolor, há um prejuízo enorme para o drama e as sequências de ação que se diluem em uma narrativa que parece mais longa do que os 90 minutos do filme. Embora ninguém tenha culpado os atores, com Robert Mitchum e Marilyn Monroe entregando exatamente o que o público poderia esperar deles, a mistura desnecessária de gêneros que inclui os números musicais interpretados por Marilyn, é um dos fatores que tornam a narrativa irregular por mais prazeroso que seja vê-la em cena. Mais tarde, a própria atriz afirmou que "O Rio das Almas Perdidas" era o seu pior filme. Preminger depois se retratou de ter falado mal da atriz durante tantos anos, e em uma entrevista para o New York Daily News em 1980, acabou admitindo: "Ela se esforçou muito, e quando as pessoas se esforçam, você não pode ficar bravo com elas." IMDb: https://www.imdb.com/title/tt0047422/. Galeria: |






















































