Depois do mergulho no SXSW (confira na coluna da semana passada), prometi pra mim mesma não repetir, pelo menos por um tempo, o quanto a inteligência artificial está mudando nossas vidas. Mas aí apareceu essa história: um tanto de matérias falando sobre como ela está mudando nossa morte. A pauta que já foi tema de episódio de Black Mirror é cada vez mais real: com os avanços da tecnologia de IA generativa, o "além" virou mercado multibilionário. E tem até nome bonito: "mercado de legado digital". Antigamente, criar um vídeo ou uma voz realista de alguém exigia computadores de Hollywood e meses de trabalho. Hoje, a IA ficou barata, rápida e assustadoramente realista. Somado ao enorme volume de rastros digitais que passamos a deixar ao longo da vida, abrimos espaço para que startups transformassem a memória e a saudade dos que já foram em serviço e negócio. Não é mais um projeto científico; é uma ferramenta acessível, a um cartão de crédito de distância. Na Índia, já é tendência a produção de vídeos em que a IA reproduz a imagem de parentes mortos para que eles possam "participar" de homenagens em casamentos e aniversários. Tem também startups americanas apostando em memoriais interativos e "griefbots" ou "deadbots" (chats feitos com IA que simulam mensagens de texto, de voz e vídeos de pessoas mortas). Para gente continuar aquele papo de sempre com quem já morreu. A StoryFile, por exemplo, faz uma espécie de arquivo interativo de memórias. Funciona assim: a pessoa grava, ainda em vida, centenas de respostas sobre sua história, e depois a IA organiza esse material para que familiares façam perguntas e recebam, em vídeo, a resposta gravada mais pertinente. A You, Only Virtual, teve uma ideia um pouco mais ambiciosa. A empresa cria as chamadas "versonas", réplicas virtuais treinadas com "rastros digitais" de quem já morreu. Elas são capazes de conversar por texto, voz e até telefone, usando a mesma linguagem e trazendo assuntos caros a seus antecessores (humanos) vivos. Mais? A Meta patenteou um sistema para que perfis de usuários mortos possam continuar postando e interagindo (comentando, dando like, compartilhando) em perfis preexistentes (aqueles feitos em vida) de redes sociais. Em 2024, o mercado de legado digital já valia mais de 22 bilhões de dólares. E a projeção é que triplique nos próximos dez anos. Com esse crescimento acelerado, o tema entrou no radar de legisladores. Em dezembro, Nova York aprovou uma lei que ampliou a proteção legal sobre o uso comercial de nome, imagem, voz e réplicas digitais de pessoas mortas, exigindo consentimento dos herdeiros ou executores. Mas... Estudos com terapeutas e enlutados apontam baixa confiança nesses sistemas e forte rejeição aos "robôs do luto". Pesquisadores argumentam que o luto depende de reconhecer a ausência e reorganizar a vida em torno dela. Mas se a pessoa nunca vai embora, mesmo que mude de material, como elaborar essa perda? (Colaborou: Bruna Borelli) |