
[Especialista] Chuvas recentes reforçam a urgência de integrar água e planejamento urbano
Por Mariana Pontes, diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES) e especialista na gestão de projetos de desenvolvimento sustentável*
As chuvas que atingem o Agreste pernambucano neste início de ano reforçam, de forma contundente, a centralidade da água no planejamento urbano. Em Gravatá, a plataforma de monitoramento da Agência Pernambucana de Águas e Clima registrou 80 mm de precipitação em uma única região, o maior acumulado do estado no período. Em outro ponto do município, o volume chegou a 53,4 mm. Já a Defesa Civil de Gravatá contabilizou 76 mm em pouco mais de uma hora, com registro de alagamentos e pessoas desalojadas. O Agreste permanece em estágio de atenção.
Episódios como esse evidenciam não apenas o aumento na intensidade das precipitações, mas a urgência de integrar gestão hídrica, ordenamento do solo e políticas de adaptação climática em uma estratégia coordenada. Em cidades como o Recife, historicamente moldadas por rios, manguezais e estuários, a água não é um elemento externo ao tecido urbano; ela constitui parte estruturante de sua identidade, da economia e da própria dinâmica territorial.
O Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, amplia essa reflexão. O tema de 2026, “Água e Gênero”, proposto pela UNESCO, convida a qualificar as políticas públicas a partir de uma perspectiva mais abrangente. Trata-se de incorporar dimensões sociais à governança hídrica, reconhecendo que mulheres e meninas, segundo relatórios da própria UNESCO e da ONU, assumem grande parte das responsabilidades relacionadas ao uso doméstico da água e ainda estão sub-representadas nas instâncias decisórias do setor.
Essa perspectiva contribui para melhorar a forma como as políticas públicas são planejadas. Incorporar a dimensão de gênero significa desenhar sistemas de alerta, estratégias de reassentamento, planos de drenagem e protocolos de resposta que dialoguem com as dinâmicas reais das famílias e dos territórios. Trata-se de um avanço na qualidade da política pública, não de uma ruptura com o que já vem sendo construído.
O Brasil reúne condições singulares para liderar essa agenda. Dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico indicam que o país concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta. Ao mesmo tempo, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas aponta que a intensificação de eventos extremos é uma tendência em diversas regiões. Esse cenário reforça a necessidade de tratar a água como eixo estratégico do desenvolvimento urbano de longo prazo.
Soluções Baseadas na Natureza (SbN) ganham destaque nesse contexto. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ressalta que a recuperação de margens de rios, a implantação de parques lineares e a adoção de sistemas de drenagem sustentável reduzem o impacto das enchentes, melhoram o microclima e ampliam áreas de convivência. Ao reconhecer rios e canais como infraestrutura ecológica e não apenas como elementos a serem canalizados, as cidades fortalecem sua resiliência e criam valor urbano.
No Recife, onde a relação com a água é histórica e estrutural, esse movimento já encontra terreno fértil. A integração entre planejamento urbano, requalificação ambiental e governança participativa lançam novas perspectivas e mantém a busca de novas soluções, de aprendizado e aperfeiçoamento contínuo das políticas públicas. O desafio não é pontual, mas sistêmico, e exige cooperação entre poder público, setor técnico e sociedade civil.
A recorrência de eventos climáticos extremos reforça a importância de consolidar estratégias integradas e permanentes. Investir em drenagem inteligente, ampliar áreas permeáveis, proteger encostas e valorizar ecossistemas urbanos são medidas que reduzem custos futuros e fortalecem a segurança territorial.
O tema “Água e Gênero” amplia essa agenda ao destacar que infraestrutura, inclusão e governança caminham de forma indissociável. Em vez de fragmentar políticas, a proposta é conectá-las: água, saneamento, uso do solo e participação social como dimensões complementares de um mesmo projeto urbano. Tratar a água como elemento estruturador das cidades, especialmente no Recife, significa reconhecer sua capacidade de organizar o território, orientar investimentos e promover adaptação climática com base técnica e diálogo institucional.
*Mariana Pontes é diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), organização social que atua estrategicamente conectando a sociedade, o poder público e o setor privado para impulsionar cidades mais inovadoras, sustentáveis, resilientes e menos desiguais.
Gabriel Moreira
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