Sem ter lido minha newsletter de 11 de fevereiro, sobre cinema e maternidade, uma amiga me manda a mensagem: "Fiz pressão pra que o melhor livro que eu li sobre maternidade fosse publicado em português e agora ele saiu. Gostaria muito que chegasse até você." Minha resposta: "Matrescência? Já estou terminando."
Soube do lançamento de "Matrescência: sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade" (Fósforo Ed.) a partir da pesquisa da Bruna Borelli, jornalista que trabalha comigo, para aquele tema. A publicação já é, também para mim, a melhor que já li sobre o assunto - e olha que eu li um tanto sobre ele desde que engravidei da minha primeira filha.
Mas o que faz deste um livro diferente de todos os (infinitos) outros já publicados sobre a maternidade?
Ele foi escrito por uma jornalista científica inglesa, Lucy Jones, que, inconformada diante das mudanças brutais que vivenciou em seu corpo, cabeça e vida durante a gestação, o parto e a maternidade, foi pesquisar tudo o que já havia sido publicado, em artigos científicos, sobre esse período radical da vida de muitas mulheres.
Encontrou estudos precisos, feitos por universidades, instituições e nomes relevantes da comunidade científica, publicados nas mais importantes revistas científicas do mundo; conheceu muita gente olhando para isso e, diante da desconexão total entre tanta informação já existente, juntou tudo em um mesmo lugar.
A falta de conexão, de divulgação e de medicina aplicada a partir deles não é surpresa: assim como a menopausa, a medicina voltada para a saúde das mulheres, nas mãos de homens, foi irresponsavelmente negligenciada por séculos.
Por isso é que juntar o que há de mais relevante no livro é tão precioso.
A partir do que encontrou, Lucy defende que ter um bebê traz mudanças para o corpo tão intensas quanto a adolescência, e, por isso, este período da vida das mulheres deveria ser levado tão a sério quanto.
Matrescência, aliás, é um termo cunhado pela antropóloga norte-americana Dana Raphael, em 1973. Dana defendia, entre outras coisas, a amamentação no peito e a ideia de que mulheres (e não apenas médicos homens) deveriam acompanhar e ajudar nos cuidados de outras mulheres durante e no pós-parto.
Tão óbvio, tão difícil de implementar.
Dana teve grandes conquistas nessa área, mas, apesar disso - e mesmo com cada vez mais comprovações científicas -, o termo "matrescência" nunca chegou aos dicionários.
O livro é um paralelo entre o relato pessoal e detalhado da experiência da autora com a gestação, o parto e a maternidade (hoje ela tem três filhos), e as explicações científicas que já existem para explicar o que ela (e eu e toda mãe no mundo) passou.
Não sei quantas vezes durante a leitura eu pensei: "Ahhh, então eu não estava louca!", "Ahhh, não é exagero meu!", "Aqui. É ciência!"
As redes sociais, a pandemia e a aceleração da comunicação recente abriram uma conversa interessantíssima sobre a maternidade. Milhões de mães, espalhadas pelo mundo, descobrindo o que nunca havia sido dito abertamente sobre este período. De dilacerações vaginais no nascimento à depressão pós-parto, de queda de cabelo a mudanças definitivas no corpo, na cabeça, na vida. Novas relações com o marido, a família, o mundo.
E, tão ou mais importante: quem somos nós, afinal, quando temos que "retornar ao mundo" depois de tudo isso?
Eu já disse, aqui mesmo, há poucas semanas, que sentia falta de livros, filmes, conversas que incluíssem o Lado B da maternidade (a solidão, os medos, a frustração, as angústias, as dores), mas sem que pra isso precisássemos deletar o Lado A (o amor incondicional, a conexão profunda, a transcendência que é ter filhos).
A experiência de Lucy com a maternidade é bastante diferente da minha. O que deixa o livro mais interessante ainda. Somos jornalistas, adoramos confirmações e dados. Mas, na Inglaterra, ela passou por todo esse processo amparada pelo NHS, sistema de saúde pública local que só em 2017 pôs fim a uma campanha radical pelo parto "natural" (vaginal, livre de analgesia, de preferência feito em casa) e apenas em 2022 entendeu que essa obsessão pelo parto "natural" foi responsável por inúmeras mortes e lesões de mães e bebês.
Eu, no Brasil, envolta por todos os privilégios da saúde privada, assessorada pelos melhores médicos do país e ajudada por família, rede de apoio, babás, gadgets e um marido pós-graduado no assunto, já pai de três adultos.
E apesar de, na prática, nossas vivências terem sido diferentes, nossas mudanças cognitivas, celulares e até o encolhimento da nossa massa cinzenta (oh, yeah) foram as mesmas.
"Matrescência" talvez seja o único livro que mães (e, no mundo ideal, pais e cuidadores) deveriam ler sobre a maternidade. Ou, melhor: sobre a matrescência. |