Expansão da guerra: No quarto dia de ofensiva, Israel e EUA atingiram o escritório presidencial em Teerã e a TV estatal iraniana, enquanto tropas israelenses iniciaram incursões terrestres no sul do Líbano.
Golfo sob fogo: O Irã intensificou a retaliação contra aliados americanos. A embaixada dos EUA em Riad (Arábia Saudita) foi atingida por drones, e a representação no Kuwait foi fechada.
Asfixia econômica: O preço do petróleo Brent ultrapassou a marca de US$ 84, e o gás natural na Europa disparou quase 50% após o Qatar paralisar sua produção de GNL e o Irã ameaçar incendiar navios no Estreito de Ormuz.
A IA no campo de batalha: O Pentágono rompeu com a Anthropic após divergências éticas e assinou às pressas com a OpenAI, acelerando o uso de algoritmos que comprimem o tempo de decisão para bombardeios.
Guerra ampliada
No quarto dia da ofensiva liderada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito ultrapassou as fronteiras do país e passou a envolver diretamente ao menos nove nações do Oriente Médio. O número de mortos na República Islâmica chegou a 787, segundo o Crescente Vermelho. Paralelamente, o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz — por onde escoa cerca de 20% do petróleo mundial — está praticamente paralisado, sob ameaça direta da Guarda Revolucionária iraniana.
A operação iniciada no sábado, com o assassinato do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, entrou agora em uma fase de destruição sistemática de infraestrutura governamental.
A Força Aérea israelense bombardeou o complexo presidencial, o edifício do Conselho Supremo de Segurança Nacional e a sede da emissora estatal IRIB, no centro de Teerã. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou danos aos edifícios de acesso da instalação nuclear de Natanz, mas descartou risco de vazamento radiológico.
A retaliação
A resposta de Teerã concentra-se no Golfo. A embaixada dos EUA em Riad foi atingida por dois drones, com danos menores. O espaço aéreo do Kuwait foi violado, levando ao fechamento da representação americana. O Comando Central dos EUA (Centcom) confirmou a morte de seis militares americanos no Kuwait. Em um episódio de "fogo amigo", três caças F-15 dos EUA foram abatidos pelas defesas kuwaitianas; os pilotos sobreviveram.
O Hezbollah lançou mísseis e drones contra o norte de Israel, rompendo o cessar-fogo de 2024. Israel respondeu com o avanço de tropas terrestres no sul do Líbano para estabelecer uma "zona de segurança", provocando o deslocamento de mais de 30 mil civis.
O que permanece incerto
A real extensão das capacidades balísticas remanescentes do Irã e a duração do conflito. Donald Trump afirmou que a operação pode durar de quatro a cinco semanas — ou "muito mais".
As justificativas oficiais em Washington enfrentam dissintonia interna.
A premissa do ataque
O secretário de Estado Marco Rubio afirmou no Capitólio que a ação foi "preventiva". Segundo ele, a inteligência indicava que Israel atacaria de qualquer forma; os EUA aderiram à ofensiva para destruir mísseis iranianos antes de uma retaliação contra bases americanas. A versão — ataque preventivo para proteger tropas de uma resposta gerada pelo próprio aliado — gerou desconforto entre democratas, que apontam ausência de ameaça iminente ao território americano.
A guerra algorítmica
A realização de mais de 1.250 bombardeios em três dias evidencia o uso do sistema de Inteligência Artificial Claude, da Anthropic, pelo Pentágono. Reportagem do The Wall Street Journal descreve um racha entre o Departamento de Defesa e o CEO da empresa, Dario Amodei. Após tentar impor limites ao uso da IA para vigilância doméstica e armas autônomas, Amodei viu o contrato ser rompido pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. Em seguida, a OpenAI assumiu o acordo militar. Seu CEO, Sam Altman, admitiu em mensagem interna que o movimento soou "oportunista e desleixado".
Especialistas falam em "compressão de decisão": sistemas da Palantir e da OpenAI sugerem alvos em segundos, reduzindo drasticamente o tempo de avaliação humana e jurídica. No Golfo, a equação defensiva é desfavorável: mísseis Patriot, que custam milhões, são usados para interceptar drones Shahed avaliados em cerca de US$ 50 mil.
Impacto econômico
O Qatar suspendeu suas plantas de GNL (gás natural liquefeito, combustível essencial para a Europa), elevando o preço do gás europeu em quase 50%. Os prêmios de seguro de risco de guerra para navios no Golfo subiram de 0,25% para 1% do valor da embarcação — alta de 300% — tornando o frete proibitivo.
Impacto diplomático
Emirados Árabes, Arábia Saudita e Qatar tornaram-se alvos colaterais. O Irã busca pressionar essas monarquias a isolar politicamente os EUA, sob ameaça de ataques a infraestruturas energéticas e turísticas.
Impacto social e humanitário
Além do deslocamento em massa no Líbano, Israel impôs bloqueio total às fronteiras da Faixa de Gaza. Organizações como a World Central Kitchen alertam que os estoques de alimentos duram apenas alguns dias, colocando 2 milhões de pessoas sob risco de fome extrema.
Desalinhamento europeu
O Reino Unido autorizou o uso da base no Chipre para ações defensivas americanas, mas o primeiro-ministro Keir Starmer recusou apoio a ataques ofensivos, sendo criticado por Trump. A Espanha negou o uso das bases de Rota e Morón e condenou a violação do direito internacional. A França anunciou ampliação de seu arsenal nuclear como medida de proteção europeia.
China e Rússia avaliam custos
As reações de China e Rússia ultrapassam a retórica diplomática e revelam interesses diretos no desdobramento da guerra.
O cálculo de Pequim:
A China condenou a ofensiva. O chanceler Wang Yi telefonou a Teerã para reiterar a "amizade tradicional" e o apoio à soberania iraniana, acusando os Estados Unidos de violarem o direito internacional ao inviabilizar negociações nucleares em curso. O apoio, porém, é limitado: Pequim descartou qualquer assistência militar ao Irã e manteve o respaldo no campo político.
A preocupação central é econômica. Maior importador de petróleo do mundo e principal comprador do petróleo iraniano, a China fez um apelo público pela garantia da navegação no Estreito de Ormuz. Um bloqueio prolongado afetaria diretamente sua segurança energética e o comércio global.
A advertência de Moscou e o ganho estratégico:
O chanceler russo Sergey Lavrov contestou a justificativa americana para a guerra, afirmando que Moscou não viu evidências de que o Irã estivesse desenvolvendo armas nucleares. Segundo ele, a ofensiva pode produzir o efeito inverso ao declarado por Washington: estimular uma corrida nuclear no Oriente Médio, ao sinalizar que apenas a posse da bomba garantiria segurança aos regimes da região.
No plano estratégico, o conflito também favorece a Rússia. A escalada no Oriente Médio desvia atenção e recursos ocidentais da Ucrânia e amplia as tensões internas no discurso americano sobre direito internacional. Em paralelo, Vladimir Putin tenta ocupar espaço diplomático: após conversas com líderes do Catar, Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita, o Kremlin indicou que pode usar sua relação com Teerã para pressionar pela preservação da infraestrutura petrolífera árabe.
Análise
Em artigo no The New York Times, Thomas L. Friedman argumenta que, no Oriente Médio, o oposto da ditadura raramente é a democracia, mas a desordem. Ele alerta que a decapitação do regime pode levar à fragmentação do Irã.
O ganho silencioso da China
Embora o fechamento do Estreito de Ormuz eleve os preços do petróleo, a China acumulou reservas estratégicas nos últimos anos. Ao mesmo tempo, o esgotamento de interceptadores americanos no Oriente Médio e na Ucrânia beneficia indiretamente Pequim no Indo-Pacífico, ao pressionar os estoques militares dos EUA.
Perguntas e respostas
Por quanto tempo as defesas aéreas do Golfo conseguirão repelir os ataques iranianos? Especialistas apontam que o modelo é financeiramente e operacionalmente difícil de manter, de acordo com reportagem do Wall Street Journal. Países do Golfo e os EUA utilizam interceptadores Patriot e Thaad, que custam milhões de dólares por unidade. Do outro lado, o Irã emprega drones Shahed avaliados em cerca de US$ 50 mil. A diferença de custo pressiona os estoques. Avaliações militares indicam que, no ritmo atual, a capacidade de reposição pode se esgotar em poucos dias ou em cerca de uma semana. Sem reposição acelerada, há risco de sobrecarga das defesas. "A intensidade do uso de interceptores que vimos nos últimos dias não pode ser mantida por mais de uma semana — provavelmente por mais alguns dias, no máximo — e então eles sentirão o impacto da escassez de interceptores", disse ao Wall Street Journal Fabian Hoffmann, especialista em mísseis da Universidade de Oslo.
A cúpula remanescente do Irã conseguirá manter a coesão ou o Estado corre risco de fragmentação? O cenário é considerado instável. Avaliações indicam que a Guarda Revolucionária pode tentar consolidar o controle central no curto prazo, diz o Wall Street Journal com base em fontes de serviços de inteligência. Sem a liderança do aiatolá, porém, analistas como Thomas L. Friedman, no The New York Times, apontam risco de disputa interna e enfraquecimento da estrutura estatal. Persas representam cerca de 60% da população. Em caso de vácuo prolongado de poder, minorias curdas, balúchis e azeris poderiam intensificar movimentos insurgentes. Friedman alerta que um caos prolongado em Teerã pode levar essas minorias a se separarem, fazendo com que o Irã, na prática, "exploda" e se fragmente.
A inteligência artificial deve virar regra nas decisões de ataque militar? O conflito atual amplia o uso de sistemas de IA para sugerir alvos e acelerar decisões táticas. Ferramentas que antes demandavam dias de análise passam a operar em segundos. Em reportagem publicada pelo The Guardian, especialistas alertam para o risco de redução do tempo de avaliação humana e jurídica antes de um ataque. A preocupação é que comandantes passem a validar automaticamente decisões geradas por sistemas automatizados.
As posições de Espanha e Reino Unido indicam divisão na Otan? As decisões expuseram divergências. A Espanha negou o uso das bases de Rota e Morón. O Reino Unido autorizou o uso da base no Chipre apenas para ações defensivas, e o premiê Keir Starmer rejeitou participação em ataques ofensivos. Donald Trump criticou a postura britânica e afirmou que a "relação especial" não é mais a mesma. O episódio evidencia diferenças de abordagem entre governos europeus e Washington.
Há respaldo político nos EUA para uma guerra prolongada? O apoio doméstico pode depender do impacto econômico, dizem vários analistas de veículos de mídia norte-americanos. Se o conflito pressionar o preço da gasolina e a inflação, a resistência interna tende a crescer antes das eleições de meio de mandato. A ofensiva também enfrenta questionamentos por não ter autorização formal do Congresso. Além da oposição democrata, há críticas de republicanos isolacionistas e de setores do movimento que defendiam menor envolvimento externo. Como publicou o New York Times, a economia global enfrenta a perspectiva de outro choque profundo.