É uma leitura que esvazia o pensamento original para torná-lo compatível com o que já sabemos que é o bolsonarismo: uma ideologia que precisa da ideia de confronto constante para se sustentar.
A própria escolha da família Bolsonaro de apostar em Flávio como nome para 2026, e não no supostamente mais moderado e menos bélico Tarcísio de Freitas, ajuda a entender o projeto que se revela nessas três páginas.
Ao priorizar o filho, a família sinaliza que compreende algo essencial sobre sua base: sem a retórica da violência, do inimigo e do confronto, o bolsonarismo perde tração.
A recente ascensão de Flávio nas pesquisas indica que esse diagnóstico é compartilhado por seu eleitorado mais fiel. O prefácio, assim, é mais do que um amontoado de clichês. O texto funciona também como um manifesto de campanha: a promessa de que, sob seu comando, a política continuará sendo tratada como batalha.
Depois de finalizar a leitura, descobri que a extrema direita global já incorporou Sun Tzu ao seu repertório simbólico há algum tempo, retirando frases do contexto, ignorando o texto como um todo e transformando um tratado complexo em uma simples apologia à guerra.
No ensaio “Hate reads”, publicado na revista britânica Aeon, o escritor e professor Andrew Marzoni observa que a obra foi incluída na chamada “‘America First’ reading list” – ou seja, a lista de leitura ‘America First’, slogan usado por Trump em sua campanha, em 2017, que resume um conjunto de políticas voltadas para colocar os Estados Unidos em primeiro lugar.
Essa relação de livros, divulgada pelo ativista conservador Milo Yiannopoulos, faz parte de um esforço mais amplo da extrema direita norte-americana para construir um repertório cultural próprio.
Frases como “toda guerra é baseada no engano” e “conheça seu inimigo e conheça a si mesmo”, extraídas do clássico chinês, circulam descontextualizadas como se fossem chaves para vencer uma “guerra cultural” contra imprensa, universidades e forças políticas adversárias.
Essa apropriação distorcida do livro de Sun Tzu também aparece na ascensão de Donald Trump. Como demonstra uma reportagem da Vice, o presidente dos Estados Unidos recomendava a obra de Sun Tzu em seus livros de autoajuda e negócios. Seu ex-secretário de Defesa James Mattis também já manifestou afinidade com o pensamento do general chinês.
O prefácio de Flávio se encaixa nisso: não há esforço de interpretação histórica, nenhuma mediação cultural, nenhuma reflexão com um mínimo de profundidade. Há apenas a apropriação de um nome clássico para dar verniz intelectual a seu discurso bélico.
“O general Sun Tzu estudava e passava a conhecer os pontos fracos e fortes de seus inimigos e, como nos ensina em sua obra, desorganizar o inimigo, gerar confusão, era uma arma poderosa e mortal no combate”, escreve o senador, utilizando as vírgulas de maneira peculiar.
A frase final do texto é um bom exemplo das platitudes e chavões escritos pelo pré-candidato ao Planalto: “A luta não é para amadores, precisamos estar preparados, inclusive para vencer a maior das batalhas: A VIDA”.
Por R$ 10, não aprendi nada novo com o texto de Flávio Bolsonaro sobre o livro de Sun Tzu. Mas foi uma leitura interessante para relembrar como certos projetos políticos têm a profundidade de um pires. E isso, talvez, seja mais revelador do que o prefácio jamais pretendia ser.