Estudo "Velhices Periféricas" aponta descompasso do envelhecimento das classes C, D e E no Brasil
| Conduzido pelo data8, o estudo Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar mostra que brasileiros com mais de 50 anos das classes C, D e E vivem mais, trabalham por mais tempo, sustentam famílias e economias locais, mas envelhecem com menos saúde, renda e proteção social.
O estudo propõe uma leitura inédita da longevidade no Brasil a partir da identificação de quatro tempos: tempo de vida (lifespan), tempo vivido com saúde (healthspan), tempo de permanência no trabalho (workspan) e tempo de autonomia financeira (moneyspan). É o desalinhamento entre essas dimensões que ajuda a explicar as desigualdades do envelhecimento periférico e revela por que o aumento da expectativa de vida não se traduz, necessariamente, em mais saúde, segurança econômica e proteção social.
SÃO PAULO | O avanço do envelhecimento populacional no Brasil tem sido acompanhado pelo aprofundamento das desigualdades. O estudo Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar, conduzido pelo data8, aponta que a transição demográfica no país tem produzido uma longevidade assimétrica: brasileiros das classes C, D e E vivem mais, porém envelhecem com menos saúde, menor autonomia financeira e baixa proteção social. Integrante da série Brasil Prateado – dedicada a investigar as transformações demográficas associadas à longevidade e aos seus impactos sobre economia, mercado de trabalho, consumo, saúde e comportamento –, o levantamento combina dados secundários e primários, análises quantitativas (com mais de 1.800 entrevistados das classes C e D) e qualitativas, além de painéis longitudinais e 12 entrevistas em profundidade realizadas em territórios periféricos da Grande São Paulo.
O estudo propõe uma leitura pouco explorada da longevidade no Brasil a partir da identificação de quatro tempos: o tempo de vida (lifespan), o tempo saudável (healthspan), o tempo de trabalho (workspan) e o tempo de autonomia financeira (moneyspan). O desalinhamento entre as dimensões ajuda a explicar as desigualdades do envelhecimento periférico e revela por que o aumento da expectativa de vida não se traduz, necessariamente, em mais saúde, segurança econômica e proteção social.

Na visão de Cléa Klouri, uma das coordenadoras do estudo, a análise não traça um retrato de carência, mas de centralidade invisível. “São essas populações que mantêm redes familiares funcionando, sustentam múltiplas gerações, permanecem mais tempo no mercado de trabalho e fazem o dinheiro circular, mesmo sem conseguir transformá-lo em proteção ou patrimônio. Ainda assim, envelhecem com menos segurança financeira, menos acesso à saúde preventiva e menos reconhecimento social. A velhice periférica evidencia os principais descompassos da longevidade brasileira: vive-se mais, mas não necessariamente se vive melhor”, aponta.

Para construir este diagnóstico, a equipe do data8 reuniu dados secundários e primários coletados em pesquisas quantitativas e qualitativas, painéis longitudinais e análises sobre comportamento, consumo, saúde, trabalho, cuidado e tecnologia entre brasileiros 50+ das classes C, D e E. O objetivo do levantamento não é descrever hábitos comportamentais, mas compreender dinâmicas de vida e da tomada de decisão em contextos de escassez, instabilidade e alta responsabilidade familiar. Para tal, o estudo conta com 12 entrevistas em profundidade, realizadas na periferia da Grande São Paulo.
| PRINCIPAIS CONCLUSÕES |
:: PERFIL DA VELHICE PERIFÉRICA: FEMININA, NEGRA E TRABALHADORA | A radiografia das velhices periféricas tem rosto definido. Entre as pessoas 50+ das classes C e D, 55% são mulheres – percentual que sobe para 59% na classe D. Cerca de 70% se autodeclaram negras ou pardas. Vivem, em sua maioria, em domicílios multigeracionais, com média de quatro pessoas por casa. Essas mulheres seguem sustentando lares e cuidando de múltiplas gerações. Segundo o estudo, 43% ajudam financeiramente filhos e netos. A fé – sobretudo evangélica – organiza os valores e o cotidiano de 31% desse grupo.
:: DESIGUALDADE TERRITORIAL E DE TEMPO DE VIDA | A desigualdade territorial se traduz em desigualdade de tempo de vida. Dados do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, mostram que a expectativa de vida feminina varia de 82 anos em bairros como Alto de Pinheiros para 58 anos em regiões como Anhanguera – uma diferença de 24 anos dentro da mesma cidade. “Não é apenas desigualdade social. É desigualdade de tempo de vida”, destaca Adriana de Queiroz.
:: TEMPO DE TRABALHO | No campo do trabalho, o estudo revela um prolongamento forçado da vida ativa. Apenas 34% dos brasileiros 50+ das classes C e D têm a aposentadoria como principal fonte de renda. Entre os aposentados da classe D, 52% continuam trabalhando. A previdência privada é praticamente inexistente – apenas 2% têm acesso. O trabalho autônomo é central: 41% dos brasileiros 50+ das classes C e D vivem dessa modalidade. Dados do Instituto Data Favela indicam que oito em cada dez moradores de favelas têm ou sonham em ter um negócio próprio. “Empreender, nesse contexto, não é escolha vocacional, é estratégia de sobrevivência”, aponta o estudo. A renda média mensal permanece baixa: cerca de R$ 1.600, entre as classes C e D, contra R$ 7.800, nas classes A e B. “Trabalham a vida inteira, mas envelhecem sem segurança financeira”, destaca o relatório.
:: CONSUMO | Apesar da renda, a economia periférica é ativa. Estudos citados pelo data8 estimam que o consumo anual nas favelas brasileiras alcance R$ 300 bilhões. O dinheiro circula, mas não se transforma em poupança ou patrimônio. Entre os brasileiros 50+ das classes C e D, 60% possuem poupança, 45% têm cartão de crédito e 17% acessam crédito consignado. Ainda assim, 15% seguem completamente fora do sistema financeiro formal. O consumo é pragmático. Preço e promoção orientam 80% das decisões de compra; marcas conhecidas e confiáveis influenciam 56%. “Aqui a gente compra o que resolve. Não tem espaço para erro”, diz uma mulher de 55 anos, classe C.
O público 50+ responde por 42% do consumo nacional. Nas classes C e D, movimenta R$ 180 bilhões por ano – valor superior ao PIB de 21 Estados brasileiros. Apesar disso, apenas 28% dos brasileiros 50+ da classe D se sentem reconhecidos pelas marcas. “O problema não é falta de consumo ou de desejo. É falta de estratégia”, aponta Cléa Klouri, acrescentando que as classes mais altas consomem status; a periferia busca pertencimento e respeito.
:: SAÚDE: VIVER É AGUENTAR | Na saúde, o descompasso se aprofunda. Quase 60% dos brasileiros 50+ da classe D nunca tiveram plano de saúde. Para 61%, a UBS é a principal porta de entrada no sistema. Apenas 41% da classe D avaliam sua saúde como boa, contra 68% nas classes A e B. A prevenção é limitada por estrutura, não por desconhecimento. Mesmo assim, 61% dizem realizar check-up anual. “Só vou ao médico quando não dá mais”, relata uma das entrevistadas pelo data8 (mulher de 63 anos, classe D). O estudo descreve a saúde periférica como reativa e coletiva: o cuidado começa quando o corpo já não aguenta, apoiado na fé, na experiência e nas redes comunitárias.
:: CASAS CHEIAS, VIDAS SOLITÁRIAS | Outro achado relevante é a solidão funcional. Embora 70% das pessoas das classes C e D tenham netos e vivam em famílias extensas, 38% relatam sentir-se mais sozinhas – percentual que chega a 48% na classe D. Cuidam de todos, mas raramente de si. Quando o cuidado falha dentro da família, vizinhança e religião tornam-se redes essenciais. “Todo mundo precisa de mim. Mas quando eu preciso, fico sozinha”, relata uma das entrevistadas pelo data8 (mulher de 61 anos, classe D).
:: TECNOLOGIA: CONECTADOS, MAS POUCO OUVIDOS | O digital é central no cotidiano das velhices periféricas. Entre os brasileiros 50+, das classes C e D, 65% acessam a internet diariamente; 94% usam WhatsApp; 72%, Facebook; e 41%, Instagram. O celular concentra trabalho, banco, comunicação e vendas. Ainda assim, o estudo aponta que esse público permanece periférico nas decisões de design, produtos e serviços. “Usuários ativos, consumidores frequentes, mas à margem do desenho das soluções”, define o relatório.
:: O DESAFIO DE ALINHAR OS TEMPOS | O estudo Velhices Periféricas sintetiza o dilema da longevidade brasileira: o tempo de vida aumenta, o tempo saudável estagna, o tempo de trabalho se estende e o tempo de autonomia financeira encurta. “Entender esse público é compreender a economia cotidiana que sustenta o país em silêncio”, concluem as pesquisadoras, acrescentando que, com o avanço do envelhecimento populacional, essa população tende a ocupar um lugar cada vez mais central nas decisões econômicas e sociais do Brasil.
:: DESIGUALDADE DE TEMPO, NÃO APENAS DE RENDA | O estudo evidencia que as desigualdades do envelhecimento periférico não se explicam apenas por renda ou território, mas pela distribuição desigual dos tempos da vida. Brasileiros das classes C, D e E vivem mais anos, mas com menos tempo saudável, menos tempo protegido e menos tempo de autonomia, o que desloca o debate da fotografia econômica para a dinâmica do envelhecimento ao longo da vida.
:: HEALTHSPAN EMOCIONAL COMPRIMIDO | Além das limitações no acesso à saúde, o estudo aponta um desgaste emocional contínuo entre as velhices periféricas. Sensações de cansaço permanente, de viver “no limite” e ausência de pausas estruturam o cotidiano desse grupo, revelando que o tempo vivido com bem-estar emocional não acompanha o aumento da expectativa de vida.
:: LAZER COMO INDICADOR DE DIGNIDADE | No levantamento, lazer não aparece como consumo aspiracional, mas como estratégia de sobrevivência emocional. Atividades simples – assistir à TV, frequentar cultos religiosos ou usar o celular – funcionam como mecanismos de manutenção da autoestima e do senso de pertencimento em contextos de escassez e sobrecarga.
:: A FÉ COMO INFRAESTRUTURA DE CUIDADO | A religiosidade, especialmente a evangélica, emerge no estudo como uma infraestrutura social relevante. Mais do que crença individual, a fé organiza o tempo, as decisões e as redes de apoio, suprindo lacunas deixadas pelo Estado e pelo mercado em territórios periféricos.
:: VELHICES PERIFÉRICAS COMO TENDÊNCIA DEMOGRÁFICA | O estudo deixa claro que as velhices periféricas não constituem um recorte residual, mas um fenômeno em expansão, impulsionado pela transição demográfica brasileira. Trata-se de um contingente que tende a crescer em número e relevância econômica, o que amplia a urgência do debate.
:: O CUSTO ECONÔMICO DA INVISIBILIDADE | Embora movimentem volumes expressivos de consumo, as velhices periféricas seguem pouco consideradas nas estratégias de mercado. O estudo sugere que essa exclusão, ao mesmo tempo simbólica e estratégica, gera distorções econômicas, com produtos, serviços e políticas desenhados para públicos que já concentram oferta e proteção.
:: ASSIMETRIA ENTRE ESFORÇO E RETORNO | Alguns dos achados transversais do estudo são o desequilíbrio entre o esforço individual – marcado por trabalho prolongado, cuidado familiar e adaptação tecnológica – e o baixo retorno sistêmico em forma de proteção social, reconhecimento e segurança financeira. A longevidade periférica se sustenta no esforço contínuo, não em estruturas de apoio.
:: IMPLICAÇÕES PARA POLÍTICAS PÚBLICAS | Os dados reunidos pelo estudo desafiam modelos atuais de políticas de saúde, trabalho, previdência, cuidado e inclusão financeira. Ao revelar o desalinhamento entre os tempos da longevidade, o levantamento aponta limites das respostas institucionais hoje disponíveis para o envelhecimento das classes C, D e E.
:: ENTENDER AS VELHICES PERIFÉRICAS É ENTENDER O BRASIL QUE VEM | Ao mapear quem sustenta, em silêncio, a economia cotidiana do país, o estudo indica que compreender as velhices periféricas é essencial para antecipar os rumos demográficos, econômicos e sociais do Brasil. Ignorar esse grupo significa planejar o futuro a partir de uma realidade incompleta.
data8
O data8 é o hub líder na América Latina em pesquisa, inteligência de mercado e inovação sobre a revolução da longevidade. Fundado em 2016, é referência em dados, estudos e tendências sobre o comportamento e o consumo dos 50+, transformando esse conhecimento em vantagem competitiva para as organizações que desejam liderar, de forma inovadora e responsável, a transição para a Economia Prateada. Com uma equipe multigeracional, pioneira e altamente especializada, tem por missão cocriar uma sociedade longeva mais inclusiva e próspera.
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