
Edital de privatização da Celepar chama a atenção pela subavaliação do patrimônio
A publicação do edital de desestatização da Celepar pelo Governo do Paraná, com valor mínimo de R$ 1,3 bilhão, gerou críticas de parlamentares da oposição e de representantes dos trabalhadores da empresa, que apontam subavaliação de ativos, riscos à segurança de dados públicos e impactos trabalhistas.
O deputado estadual Arílson Chioratto (PT), líder da Oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), afirmou que o valor previsto no edital é incompatível com a relevância estratégica da empresa. “Quando se divide o valor colocado no leilão pelo número de habitantes do Paraná, estamos falando de algo em torno de R$ 110 por cidadão pelo conjunto de dados. É muito pouco diante do que tudo isso representa”, disse.
O advogado Paulo Jordanessen Falcão, representante do Comitê de Trabalhadores Contra a Venda da Celepar, ressaltou que ainda que o edital do leilão não incorpora de forma explícita ativos físicos e intangíveis relevantes da companhia.
INFRAESTRUTURA E ATIVOS INTANGÍVEIS
Estimativas baseadas em valores patrimoniais e parâmetros de mercado apontam que apenas a infraestrutura física da Celepar, localizada no Centro Cívico de Curitiba, envolve:
- prédio e terreno, avaliados em aproximadamente R$ 120 milhões;
- infraestrutura de datacenter, incluindo hardware, sistemas de redundância e refrigeração, estimada em cerca de R$ 300 milhões.
O subtotal desses ativos físicos chega a cerca de R$ 420 milhões.
A Celepar é responsável por mais de 900 sistemas públicos, utilizados em áreas como saúde, educação, segurança pública, Justiça e arrecadação estadual. Considerando parâmetros usuais de mercado para empresas de tecnologia — que frequentemente utilizam múltiplos entre 10 e 15 vezes o lucro anual — e um lucro divulgado de aproximadamente R$ 276 milhões, Falcão estima que o valor econômico da operação poderia variar entre R$ 2,7 bilhões e R$ 4,1 bilhões.
Mesmo em um cenário conservador, apenas o portfólio de sistemas é estimado em cerca de R$ 1,5 bilhão. Somados aos ativos físicos, o valor aproximado da empresa alcançaria R$ 1,92 bilhão, acima do valor mínimo previsto no edital.
Chioratto também criticou a possibilidade, prevista no edital, de participação de bancos, fintechs e fundos de investimento no leilão, abertura que amplia os riscos, de acordo com ele. “O edital permite que instituições financeiras e fundos participem da compra. A pergunta é: quem vai comprar? Será que vamos repetir situações como as denúncias envolvendo o PCC no Porto de Paranaguá ou será o Banco Master que vai assumir uma empresa estratégica responsável pelos dados dos paranaenses?”, ironizou.
IMPACTOS TRABALHISTAS E OPERACIONAIS
O advogado do Comitê de Trabalhadores pontuou que o edital trata a empresa predominantemente sob a ótica financeira e não apresenta garantias claras sobre a manutenção dos empregos, dos direitos trabalhistas e da continuidade operacional dos sistemas públicos. “A Celepar reúne um corpo técnico altamente especializado, responsável por manter sistemas críticos em funcionamento contínuo. Há riscos consideráveis de perda de conhecimento institucional, descontinuidade de serviços digitais essenciais e fragilização da segurança da informação, caso haja troca abrupta de controle.”
A Celepar desempenha papel central na infraestrutura digital do Estado e a forma como o processo avança exige maior transparência e debate público proporcional ao impacto econômico, social e tecnológico envolvido.

Sumi Costa
Jornalista
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