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 | Nathan Howard/Reuters |
| 1 milhão de satélites e carro-robô: por que Musk uniu SpaceX, xAI e Tesla? |
|  | Helton Simões Gomes |
| Elon Musk, um dos mais ricos do mundo, vem tomando decisões ambiciosas para criar um império da tecnologia. Diferentemente de Google, Meta e Microsoft, as empresas do bilionário não fornecem serviços tão populares como YouTube, WhatsApp e Windows. Mas, se os planos dele derem certo, a nova gigante possuirá uma estrutura tão verticalizada quanto a dessas big tech —ou seja, fará tudo dentro de casa, da infraestrutura de conexão ao ecossistema de software e o hardware. Só que, em vez de cabos submarinos e data centers , sistemas operacionais e redes sociais, smartphones e óculos de realidade aumentada, Musk mira mais alto: data centers no espaço, sistemas complexos de inteligência artificial, robôs humanóides trabalhando em nossas casas e carros autônomos dirigindo sozinhos pelas ruas das cidades onde moramos. Com uma pitada de ficção científica, o plano de Musk fala em criar outro estágio de civilização. Vai dar certo? Só o Sol dirá. No entanto, um passo crucial foi dado na semana passada. |
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 | Robô Optimus da Tesla exibido em salão do automóvel de Paris em 2024 | Benoit Tessier/REUTERS |
| | A SpaceX anunciou a compra da xAI. Mais do que dinheiro saindo de um dos bolsos de Musk e indo para o outro —afinal, ele é dono da empresa aeroespacial e da startup de inteligência artificial dona do Grok—, o negócio marca uma consolidação e ainda não veio sozinho, já que: - Em março do ano passado, a xAI absorveu o X (ex-Twitter). O negócio soou estranho, já que se tratava de uma startup fundada por Musk havia apenas dois anos adquirindo uma rede social consolidada, ainda que bastante deformada. Mas dizendo de outra forma...
- É uma empresa com os dois pés fincados em uma tecnologia em ascensão, a IA, incorporando outra que detém uma plataforma estagnada e cujos concorrentes são mais competitivos. Não à toa...
- É da startup que vêm as notícias positivas para Musk: em contrato milionário, o Grok será uma das IAs usadas pelo Pentágono para criar sistemas militares inteligentes, OpenAI e Anthopic usam a Grokipédia, a enciclopédia produzida inteiramente pelo Grok, para treinar seus poderosos modelos de IA. E...
- A dor de cabeça vem da rede social: usuários espalharam pelo X imagens geradas artificialmente pelo Grok de mulheres despidas, o que gerou uma onda de investigações pelo mundo, inclusive no Brasil. Agora...
- X e xAI vão para debaixo do guarda-chuva da SpaceX. A atuação da empresa espacial mais bem sucedida do mundo é vasta: aluga foguetes capazes de pousar sozinhos a interessados em levar ao espaço de naves e sondas a satélites e telescópios, desenvolve um incipiente negócio de turismo espacial, fornece conexão à internet via Starlink e acena com o sonho da viagem a Marte. Só que...
- A SpaceX acaba de abrir nova frente de atuação: quer usar a capacidade de lançamento para colocar no espaço satélites com data centers. O Sol vai gerar a eletricidade necessária para sustentar a capacidade computacional que a IA requer. A ambição é grande, já que...
- Musk pediu autorização para lançar 1 milhão desses satélites-data center à FCC (Comissão Federal das Comunicações, na sigla em inglês). E...
- Toda essa computação deve ser destinada à xAI. Não que esteja faltando: a empresa é dona do Colossus I e II, dois dos maiores supercomputadores do mundo para IA com quase 700 mil GPUs da Nvidia somados. Mas os planos são ousados...
- A xAI acaba de receber investimento de US$ 2 bilhões da Tesla, que enfrenta um momento peculiar: a montadora pioneira acaba de ser ultrapassada globalmente pela chinesa BYD em número de carros vendidos (2,26 milhões x 1,64 milhão) em um ano para deixar no retrovisor: as vendas caíram pela primeira vez em cinco anos, devido à atuação política de Musk junto a Donald Trump, que retirou benefícios federais a veículos elétricos. Por isso...
- A Tesla resolveu acelerar em outras duas direções: primeiro, vai encerrar a produção do Modelo S e do Model X para usar a fábrica onde eram feitos, em Fremont (Califórnia), na produção do Optimus, o robô humanóide que deve ser apresentado oficialmente até março. Com promessa de começar a vendê-los no fim de 2027, a expectativa é despachar 1 milhão de unidades;
- Segundo, intensificou a aposta nos carros autônomos: já são 1,1 milhão de clientes com os carros rodando o serviço FSD (direção autônoma completa, na sigla em inglês). São veículos Model Y com FSD que a Tesla usa no serviço de táxi-robô, em operação em Austin (Texas) e San Francisco (Califórnia). Está em desenvolvimento ainda o Cybercab, um carro de dois lugares, sem pedais e volante, plenamente autônomo e que engrossará a frota dos táxi-robôs.
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 | O foguete Falcon 9, da SpaceX, deixa base de lançamento da Nasa em Cabo Canaveral, na Flórida | Giorgio Viera/AFP |
| | A fusão entre xAI e SpaceX cria a maior empresa de capital fechado do mundo, avaliada em US$ 1,25 trilhão. Mas Musk pretende abrir o capital dessa gigante na Bolsa de Valores ainda em 2026. Se o IPO for mesmo trilionário, ele possuirá duas das empresas mais valiosas do mundo. De um jeito futurista, Musk volta a dar as mãos aos ambientalistas. Inicialmente, os carros elétricos da Tesla foram abraçados com entusiasmo por gente preocupada com as mudanças climáticas. A política mudou um pouco as coisas. Agora, ele vai ao encontro do problema ambiental da vez: o consumo insaciável de energia e água por data centers. Depois da mal sucedida passagem pela administração Trump, o empresário voltou a se concentrar nos negócios. Isso marca o retorno de Musk à produção de narrativas utópicas sobre o futuro da humanidade. O papo de "bases autônomas na Lua" e a "colonização de Marte" agora divide espaço com declarações do tipo, "a IA excede as capacidades terrestres de computação" e o "primeiro passo para nos tornarmos uma civilização Kardashev tipo 2" —nessa última, ele faz referência à escala criada pelo astrônomo soviético Nikolai Kardashev, para quem civilizações no segundo estágio seriam capazes de manejar com plenitude toda a energia da estrela de seu sistema solar. |
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 | Cybercab, da Tesla | Divulgação |
| Não é bem assim, mas tá quase lá |
| As pretensões de Musk esbarram em problemas bem terrenos. O mais técnico deles vem da Tesla, que tem penado para concluir o desenvolvimento do Optimus e do Cybercab. E já há um entrave regulatório em vista. Uma vez concluído, o carro plenamente autônomo terá de ser autorizado por agências governamentais. Não será algo fácil, pois muitas delas já estão céticas com o PDS que, apesar de sugerir direção autônoma, requer o monitoramento de um humano no banco do motorista. E a SpaceX, enquanto mira as estrelas, terá de começar a prestar atenção no que ocorre na internet. Mais nova dona de uma rede social e de uma criadora de IA, ela precisará lidar com os governos de vários países no cangote do X, devido à permissividade de suas regras, e do xAI, por causa da falta de balizas éticas do Grok. Os obstáculos não acabam nem quando ela sai da órbita terrestre. Dona da maior constelação de satélites do mundo, a SpaceX acaba de obter autorização para manter 15 mil deles a uma distância entre 500 km e 2 mil km da Terra. Ela nem chegou lá, mas já é bombardeada com críticas. Esses objetos interferem nas observações espaciais, produzem lixo espacial (detritos gerados pelo choque de asteróides com satélites entram em rota de colisão com a Terra) e atrapalham outras conexões satelitais. Se um milhão de satélites é um sonho como nunca visto, também será capaz de gerar problemas sem precedentes. Por tudo isso, antes de conquistar o espaço com tecnologia de ponta, Musk precisará solucionar muito fio desencapado aqui na Terra. |
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