A Amazônia é muito rica. Uma riqueza que também pode acabar na panela e no prato. Escondidas nos quintais produtivos amazônicos estão muitas plantas, frutas, coquinhos e castanhas que aguardam ser descobertas — ou melhor, redescobertas. Povos Indígenas, Quilombolas, ribeirinhos e caboclos as cultivam e consomem desde sempre.
Plantas que o supermercado não oferece
Quem frequenta as feiras livres amazônicas se depara com uma oferta de produtos bem diferente daquela encontrada nos supermercados. Você já ouviu falar em quiabo-de-metro, cariru ou abiu? Esses são exemplos de PANC — plantas alimentícias não convencionais — regionais, comestíveis e muito saborosas.
O termo PANC foi cunhado por Valdely Kinupp, professor do Instituto Federal do Amazonas e uma das maiores referências no tema. Em seu livro — uma verdadeira bíblia sobre o assunto — e em inúmeros vídeos, Kinupp mostra quanta riqueza nos cerca, não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil.
Um exemplo emblemático de PANC amazônica é a vitória-régia. Navegando por cerca de uma hora de barco a partir do paradisíaco vilarejo de Alter do Chão, pelo canal do Jari — que interliga os rios Tapajós e Amazonas —, é possível experimentar uma sequência de petiscos e pequenos pratos preparados com os talos da deslumbrante planta. Dona Dulce Oliveira, em sua cozinha-restaurante construída sobre palafitas, tem vista direta para um jardim de vitórias-régias, de onde colhe a matéria-prima para seu menu de degustação.
Outra vista, bastante distinta, mas não menos bucólica, é a da varanda da casa de Dona Neci Ferreira. Ela mora em uma das casas típicas de Belterra, no Pará — cidade fundada em 1934 pelo industrial Henry Ford, que pretendia estabelecer, às margens do rio Tapajós, uma produção de borracha para abastecer a indústria automobilística.
Dona Neci cultiva o que chama de quintal produtivo, ou horta urbana. Entre as espécies plantadas está o cariru — ou caruru (Talinum triangulare) —, uma hortaliça regional que resiste bravamente à hegemonia da alface. O cariru, cujo nome coincide com o prato preparado hoje com quiabo, é uma hortaliça tradicional e genuinamente amazônica. De brinde, ainda oferece uma delicada flor roxa, também comestível.
Mais roxo ainda é o cará-roxo (Dioscorea trifida). Sua coloração varia do lilás claro ao roxo profundo, tonalidade que revela propriedades antioxidantes semelhantes às do açaí. Assim como a batata-doce, o cará-roxo forma sua raiz debaixo da terra, enquanto suas folhas verde-escuras se desenvolvem em trepadeiras que sobem por suportes em busca da luz solar.
Outro exemplo de PANC amazônica é a pequena batata-ariá, muito apreciada por povos Indígenas. De formato arredondado e casca fina, é nativa da Amazônia, crocante como cenoura ou milho-verde, rica em amido e perfeitamente adaptada às condições locais.
Além dessas espécies, há também uma castanheira diferente da conhecida castanha-do-pará: a castanha-sapucaia (Lecythis pisonis), típica da região de Santarém e bastante comum nos quintais produtivos locais. Seu ouriço é grande e pode pesar vários quilos. As castanhas-sapucaia, de casca lenhosa, aparecem nas feiras livres por curtos períodos e são altamente perecíveis, exigindo consumo rápido. Come-se também o chamado "umbigo", uma protuberância branca e extremamente crocante.
Vitória-régia, cariru, quiabo-de-metro, abiu, cará-roxo, batata-ariá e castanha-sapucaia são apenas alguns exemplos de PANC amazônicas que não chegam às prateleiras dos supermercados, mas circulam nas feiras livres das cidades e vilas da região — gostosuras ainda ausentes da maioria dos pratos e paladares do Brasil.
Agroecologia contra o agronegócio e respeito aos guardiões do conhecimento tradicional
Muitas plantas convencionais cultivadas na Amazônia, como batata-inglesa, tomate e pimentão, só se desenvolvem adequadamente com o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos. Já o consumo de alimentos como a batata-ariá convida a uma reflexão mais profunda sobre o que comemos, como esse alimento é produzido e de onde ele vem.
Foi essa reflexão que levou dona Elisandra Rodrigues da Silva — ou simplesmente dona Sandra —, integrante do grupo de mulheres Amabelas de Belterra, a buscar alternativas agroecológicas para o cultivo em seu quintal. Junto a outras mulheres, cujos quintais são tão diversos quanto suas histórias, ela resiste às práticas convencionais do agronegócio. Esses espaços são estritamente orgânicos e, por isso, priorizam plantas adaptadas ao clima amazônico, sem o uso de fertilizantes químicos ou agrotóxicos.
Dona Sandra e suas companheiras apostam na diversidade, como se pratica há séculos nas hortas Indígenas. Além do consumo alimentar, cultivam plantas para fins medicinais. Elas seguem os princípios da agroecologia, manejando seus quintais segundo o sistema agroflorestal (SAF).
Em um SAF, planta-se literalmente tudo junto — mas não de forma aleatória. A combinação busca integrar árvores de diferentes portes, hortaliças, frutíferas e plantas medicinais, criando um ambiente ecologicamente equilibrado, no qual as espécies se beneficiam mutuamente. Sistemas agroflorestais biodiversos são considerados uma forma mais sustentável e resiliente de produção dentro da agricultura familiar.
Essas PANC e os sistemas agroecológicos encontrados na região de Alter do Chão e Santarém também estão presentes em muitas outras feiras livres e quintais amazônicos. Fica, portanto, o convite: inclua em sua visita à maior e mais biodiversa floresta tropical do planeta um passeio pelas feiras e quintais produtivos, para provar, conhecer e se encantar com plantas alimentícias não convencionais — riquezas escondidas, deliciosas e perfumadas da Amazônia.
*Susan Gerber-Barata é suíça, desenhista e jornalista de moda de formação. Há 30 anos no Brasil, sendo os últimos 10 na Amazônia, onde mora, em Alter do Chão, no Pará. Hoje aposentada, lecionou alemão no Brasil. Escreve, fotografa e publica no Jornal Comunitário O Boto e têm publicações sobre culinária amazônica na internet.