Amplamente presente na mesa das famílias norte-americanas, a carne bovina é um dos alvos do tarifaço aplicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos produtos importados do Brasil.
No último dia 30, Trump anunciou uma sobretaxa de 40% para as mercadorias brasileiras — listando 694 exceções que não incluem a carne bovina. Essa nova tarifa se soma a uma de 26,4% imposta para o setor desde janeiro e a outra de 36,4% criada em abril, quando Trump divulgou o primeiro decreto do tarifaço mundial. Com isso, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) estima que "a carga tributária total [para a carne bovina] ultrapassaria 76%, comprometendo a viabilidade econômica das exportações ao mercado norte-americano".
A cobrança adicional prevista para ser adotada a partir da próxima semana é vista como empecilho para a manutenção da venda de carne aos EUA.
"Essa cobrança extra de 50% praticamente inibe todos os negócios", afirma Pedro Braga, presidente do Sinduscarne-MG. "As tarifas atuais, de 50%, 60% ou 70%, inviabilizam qualquer tipo de comércio", reforça Rodrigo Costa, analista de pecuária da Pine Agronegócios.
Os EUA são o segundo principal comprador da carne brasileira. Somente no ano passado, 229,6 mil toneladas de carne bovina (7,9% da produção nacional voltada para o mercado externo) foram embarcadas com destino ao mercado norte-americano. O volume representou um faturamento de US$ 1,35 bilhão para os exportadores brasileiros. O total foi superado somente pela China, que comprou 46,2% da proteína nacional exportada no período, ou 1,34 milhão de toneladas.
"Os Estados Unidos compram essa carne para a alimentação principal deles, que são os hambúrgueres", afirma Braga. A avaliação é também partilhada por Costa: "Por lá, nossos cortes têm como destino o processamento", explica ele.
A maneira como a produção é atualmente organizada nos frigoríficos dificulta a realocação das vendas para outros destinos. As plantas frigoríficas são voltadas para atender os interesses específicos de cada comprador, desestimulando a manutenção das operações. "Há um padrão de produção para atender determinados mercados, do ponto de vista das normas técnicas, sanitárias e operacionais", explica Thiago Moreira, professor de economia do Ibmec-RJ.
"Determinadas plantas têm setores que trabalham com o processamento de um determinado corte. Talvez, por questões sanitárias e de certificação, não consigamos utilizá-las para diluir a oferta que vai ficar represada no mercado doméstico", afirma Costa.
Agora, a Abiec está defendendo o diálogo entre EUA e Brasil na busca por uma "solução negociada" para a preservação do fluxo comercial. A associação também pede uma atuação focada do Ministério da Agricultura e Pecuária para abrir novos mercados consumidores da carne nacional.
A questão agora é evoluir nessas negociações bilaterais com outros governos para superar esse tropeço. Também defendemos que os governos dialoguem e cheguem a um acordo que seja bom para os dois países.
Pedro Braga, presidente do Sinduscarne-MG