Na semana de aniversário do golpe de 64, os dois pré-candidatos se sentiram livres para desprezar a democracia. |
Na semana de aniversário do golpe de 64, não faltou gente para acender as velinhas do bolo. Os presidenciáveis que pagam tributos ao golpismo saíram da toca e se sentiram livres, leves e soltos para desfilar o seu desprezo pela democracia. |
Primeiro foi o candidato do golpismo, Flávio Bolsonaro, que chegou aos Estados Unidos de joelhos para oferecer as terras-raras brasileiras para bajular o golpista americano Donald Trump. |
Durante participação em um convescote da extrema direita americana, o filho do ex-presidente golpista manteve o legado entreguista do seu pai e ofereceu o Brasil como solução para os EUA. “O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos”, disse, enquanto balançava o rabinho para o Tio Sam. |
É incrível a capacidade que o bolsonarismo tem de nos surpreender, mesmo quando já estamos esperando o pior. |
Nem os ditadores militares chegaram nesse nível de sabujice! Havia alguma dignidade patriótica nos velhos facínoras, ainda que meramente performática. Já os seus herdeiros não sentem a menor vergonha em rastejar e desnudar o seu patriotismo de fachada. |
O discurso inteiro foi essencialmente entreguista e golpista. O bolsonarista implorou para que os EUA voltem a impor as sanções contra o país: “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”. |
Ele não diz o que seria exatamente essa “pressão diplomática”. Seria a volta do Xandão para a Lei Magnitsky? Seriam aqueles bombardeios no Rio de Janeiro que ele pediu? Ou seriam as bombas atômicas caindo em solo brasileiro, coisa que ele já cogitou? |
Aproveitou para atacar o ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, dizendo que ele interferiu nas eleições brasileiras para “instalar um socialismo que odeia a América” — um devaneio bem ao gosto dos maluquinhos do MAGA. O sabujo estava mesmo desesperado por alguma migalha de atenção de Trump. |
A focinheira invisível da grande imprensa |
Na imprensa, o discurso de Flávio deveria ser tratado como escândalo, afinal de contas, temos um pré-candidato à presidência da República, muito bem posicionado nas pesquisas de intenção de votos, prometendo entregar um tesouro brasileiro para uma potência estrangeira em troca de interferência nas eleições. |
Golpismo, entreguismo e palavras similares deveriam estar em todas as manchetes e análises sobre o assunto. Mas, como sabemos, a onda na imprensa agora é tratar “Flávio” como um homem moderado, o mais equilibrado da família, um Bolsonaro de focinheira. |
Mesmo assim, eu esperava alguma contundência jornalística diante do absurdo. O que se viu foi o mais puro jornalismo declaratório, com manchetes que reproduziam com naturalidade um crime de lesa-pátria sendo preparado à luz do dia. |
Vejamos algumas manchetes: “Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral”; “Nos EUA, Flávio Bolsonaro pede pressão diplomática para que eleições tenham ‘valores de origem americana’”; “Nos EUA, Flávio Bolsonaro compara pai a Trump, critica Lula e diz liderar corrida eleitoral”. Tudo foi suavizado nas manchetes. |
Foi um evento gravíssimo, perigoso para a soberania do país e ameaçador à democracia. Mas, como diria Gilmar Mendes, foi tratado como “um domingo no parque”. |
O único veículo que não seguiu a boiada foi o site Meio, que manchetou: “Flávio Bolsonaro pede intervenção dos EUA no Brasil”. Fez o arroz e feijão do jornalismo e destacou a única coisa que merecia ser destacada. |
Caiado quer anistiar golpistas |
Outro evento escandalosamente golpista e que também foi tratado como algo corriqueiro foi o lançamento da candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. No seu discurso, ele prometeu que seu primeiro ato como presidente eleito será a “anistia ampla, geral e irrestrita”, incluindo para o líder da gangue golpista Jair Bolsonaro. |
Temos aqui o governador do estado de Goiás prometendo soltar os bandidos que destruíram os prédios dos Três Poderes e tentaram um golpe de estado. Isso não deveria ser tratado como algo normal, mas é. |
As poucas críticas que se veem geralmente são cheias de dedos, com muita moderação, por medo de desagradar a parte relevante da população que chafurda nessa lama ideológica. Vivemos tempos em que um governador, historicamente alinhado aos golpistas de 64, não se sente constrangido em defender a soltura de golpistas que a democracia prendeu. |
Caiado disse que a anistia servirá para pacificar o país e livrá-lo da tal “polarização”. É como se ele fosse um outsider e não alguém que está alinhado à direita mais reacionária desde o início da carreira política. |
A “polarização” é um conceito tão banalizado pela imprensa que Caiado não teme a contradição de prometer livrar golpistas da cadeia e, ao mesmo tempo, se apresentar como uma terceira via. Em tempos de golpismo, a polarização essencial é entre democratas e golpistas, o resto é perfumaria. O polo do Caiado sempre foi bem claro. |
Ninguém mais tem vergonha de ser golpista no Brasil. Desde a redemocratização até a chegada do bolsonarismo, essa direita que odeia a democracia não tinha coragem de colocar as asinhas pra fora. |
Hoje temos pelo menos duas candidaturas presidenciais cujo principal projeto de governo é livrar da cadeia os canalhas que tentaram destruir a democracia. Mas na imprensa parece que está tudo normal. |
O noticiário segue neutro. o colunismo segue majoritariamente isentão e covarde. E, assim, o golpismo vai sendo naturalizando como corrente política. |
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