Durante décadas, a China foi símbolo do crescimento acelerado baseado em carvão, indústria pesada e urbanização intensa. Em 2006, tornou-se o maior emissor global de gases de efeito estufa, respondendo por cerca de 23% a 24% das emissões globais de CO₂. Hoje, no entanto, um novo movimento começa a se consolidar — e oferece lições importantes para países como o Brasil. O país passa a combinar crescimento econômico com estratégias consistentes de transição climática. Esse processo não significa que a China deixou de emitir — longe disso. O país ainda lidera as emissões globais. Mas há sinais relevantes de mudança. Desde 2023, as emissões chinesas se estabilizaram, mesmo com a continuidade do crescimento econômico, indicando um possível desacoplamento entre desenvolvimento e aumento proporcional de CO₂. Esse resultado é fruto de uma combinação de políticas públicas, inovação tecnológica e planejamento de longo prazo. Um dos pilares dessa transformação é a expansão maciça de energias renováveis. Em 2024, a China foi responsável por cerca de metade da nova capacidade global de energia solar e eólica instalada. Essa expansão tem contribuído para conter o crescimento das emissões, mesmo diante do aumento da demanda energética. Ao mesmo tempo, o país investe fortemente em armazenamento de energia, hidrogênio verde e tecnologias de captura de carbono. Outro eixo central é a eficiência energética. Políticas recentes incentivam a substituição de equipamentos industriais e eletrodomésticos por versões mais eficientes, reduzindo o consumo de energia e, consequentemente, as emissões. Mas talvez um dos aspectos menos discutidos — e mais relevantes — seja o uso da terra. Programas maciços de reflorestamento transformaram a China em um caso raro entre grandes economias: o país passou a apresentar saldo líquido de remoção de CO₂ nesse setor, atuando como um sumidouro de carbono. Diferentemente de países tropicais, onde o desmatamento ainda é uma das principais fontes de emissão, a China conseguiu inverter esse balanço por meio de políticas nacionais de larga escala. Outro destaque é o investimento em soluções urbanas baseadas na natureza. A China já implementou centenas de projetos de "cidades esponja", que utilizam infraestrutura verde para aumentar a infiltração de água, reduzir enchentes e melhorar o microclima urbano. Essas iniciativas também ajudam a mitigar ondas de calor — hoje a principal causa de mortes associadas a eventos climáticos extremos. Essas soluções, que dialogam diretamente com o conceito de Esponja Verde Urbana, também contribuem para a remoção de poluentes atmosféricos e a melhoria da qualidade do ar, além de auxiliar na captura de carbono. Apesar desses avanços, é importante reconhecer as limitações. A China ainda não apresentou metas suficientemente ambiciosas no cenário internacional recente. Sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) indica reduções relativamente modestas — de cerca de 10% até 2035 em relação a 2019, o que está abaixo do necessário para limitar o aquecimento global a 1,5°C. Durante a COP30, a China e vários outros países também não concordaram com um roteiro mais acelerado de transição energética para zerar o uso de combustíveis fósseis. Para comparação, o Brasil estabeleceu metas mais ambiciosas, com redução de até 50% das emissões até 2035 em relação às emissões de 2029 — ainda que enfrente desafios significativos para cumpri-las, especialmente no controle do desmatamento e das emissões do setor agropecuário, além da necessidade de acelerar a transição energética. Um dos elementos menos visíveis — mas estruturalmente decisivos — da transição chinesa é o papel do sistema financeiro. Diferentemente de abordagens focadas apenas em regulação ambiental ou inovação tecnológica, a China tem utilizado instrumentos de finanças verdes para redirecionar fluxos de capital em direção a atividades de baixo carbono. A criação de zonas-piloto de finanças verdes, iniciada em 2017, funcionou como um experimento em larga escala para testar mecanismos capazes de alinhar crescimento econômico e sustentabilidade. Na prática, isso significa que o crédito mais barato passa a favorecer empresas com melhor desempenho ambiental, enquanto atividades intensivas em carbono enfrentam restrições crescentes. Esse mecanismo cria incentivos econômicos concretos para a redução de emissões, indo além de metas declaratórias ou compromissos internacionais. Outro aspecto central é o papel da inovação tecnológica verde como canal de transmissão dessas políticas. Evidências indicam que o financiamento direcionado tem impulsionado investimentos em pesquisa e desenvolvimento, especialmente por meio do aumento de patentes verdes e da adoção de tecnologias mais eficientes. Esse processo não apenas reduz emissões no curto prazo, mas também estabelece uma base tecnológica para a transição de longo prazo. Além disso, a digitalização da economia surge como um fator complementar relevante. A integração de tecnologias digitais nos processos produtivos permite maior eficiência no uso de recursos, otimização de cadeias produtivas e monitoramento mais preciso das emissões. Ao facilitar a coleta e análise de dados, a transformação digital contribui para decisões mais informadas e para a redução de desperdícios energéticos. Outro ponto pouco explorado — mas de grande relevância — é o efeito de difusão dessas políticas. Estudos mostram que os impactos das finanças verdes não se limitam às regiões onde são implementadas, mas se estendem para áreas vizinhas, criando efeitos indiretos positivos sobre a redução de emissões. Esse tipo de transbordamento evidencia que políticas bem desenhadas podem gerar benefícios sistêmicos, ampliando seu alcance para além das áreas inicialmente contempladas. |