Se você tem a sensação de estar mais conectado e inteirado sobre países do outro lado do mundo do que sobre os vizinhos, aqui vai uma dica que pode ajudar a estreitar laços: o podcast El Hilo (o fio), produzido pela Radio Ambulante, uma organização sem fins lucrativos, que se especializa em histórias e notícias latino-americanas. A cada semana, o programa aprofunda os principais temas da região, com entrevistas e histórias exclusivas. É falado em espanhol (excelente para treinar e acostumar o ouvido aos diferentes sotaques dos nossos hermanos), mas fácil de entender. Apresentado pela produtora-executiva Silvia Viñas, que nasceu no Uruguai e viveu em cinco países da nossa região, e pelo ex-editor de projetos especiais do jornal espanhol El País, Eliezer Budasoff, que é argentino, o podcast conta com uma equipe de jornalistas e colaboradores espalhada pelo mundo. Em formato narrativo e com muita cor local, El Hilo (nome inspirado pelos “fios” narrativos do antigo Twitter) traduz tendências, explica movimentos e revela histórias exclusivas que ilustram os principais assuntos (e dramas) compartilhados nesta porção do Sul Global: da recente eleição no Chile aos bolivianos presos por tráfico de drogas em São Paulo que perderam contato com suas famílias; da Venezuela pós-Maduro ao poder das Big Techs na América Latina, passando pelas últimas loucurinhas de Javier Milei na Argentina ou pela criminalização do aborto no México. Os episódios de 30 a 40 minutos são um jeito rápido para compreender um pouco mais desta vasta região onde tanta coisa acontece, com contexto e análise. El Hilo permite perceber rapidamente que, apesar das barreiras da língua e do olhar que tanto dirigimos para fora, somos mais próximos e parecidos entre latino-americanos do que imaginamos. A boa notícia é que podemos aprender muito com quem está logo aqui do lado, e isso deveria nos importar. |
Johnny Hooker faz um compilado de memórias de carnavais, histórias de amores não correspondidos e voltas por cima no seu novo e quarto álbum de estúdio, Viver e morrer de amor na América Latina, lançado em dezembro de 2025. O disco é, segundo o próprio artista, seu trabalho “mais pessoal” até aqui — um projeto que não foi “deliberadamente pensado para se tornar um disco”, mas que nasceu organicamente, quase como um exorcismo. Recifense que se projetou nacionalmente com a canção Alma sebosa, o artista se enxerga como um cancioneiro latino-americano romântico, “assim como era Marília Mendonça”. Compositor das dez faixas, ele demonstra neste projeto, mais uma vez, não ter pudor de expor sua identidade. Entre as canções está Saudades, Elder, uma baladinha nostálgica que conta a história de um rolo com um homem que era livre demais para se comprometer. A faixa leva o nome desse “ex-namorado”, que só descobriu a homenagem quando o disco saiu. Já o lead single, em parceria com Ney Matogrosso, é um “bolero místico” que conta a história de uma profecia feita por uma cigana — “o amor vai te foder um dia”– e empresta seu título ao álbum inteiro. Mas o artista não se contenta com esse limbo de desilusão amorosa. Faixas como QUEREM ME VER HUMILHADA e O mundo me espera têm um tom mais otimista e um ar de superação. Há também duas músicas pensadas para o frevo, que ganham participações da rainha da ciranda, Lia de Itamaracá ( A vida é um carnaval ) e da baiana Daniela Mercury (no frevo queer Eu quero ver pegar fogo ). Há dez anos morando em São Paulo e seis sem se apresentar no Recife, o cantor fará a estreia da turnê do disco justamente na segunda-feira de Carnaval, dia 16 de fevereiro, durante o festival Rec-Beat, na sua cidade natal. Preparou novos figurinos, projeções e participações especiais. A família inteira estará presente. Esotérico assumido, o cantor define o álbum como o trabalho de um leonino que gosta de provocar e não pedir desculpas — e a fase atual da sua carreira como “o retorno do sonhar depois de tempos de morte e humilhação”. Todas as faixas ganharão clipes que estão sendo lançados aos poucos, até abril. |
Um atendente do Crescente Vermelho, o braço da Cruz Vermelha na Palestina, recebe uma ligação. Do outro lado da linha, uma mulher na cidade de Gaza pede socorro durante a invasão israelense. Ao fundo, gritos, tiros e bombas – até a ligação cair. Quem atende o celular logo em seguida é Hind Rajab, uma criança de 5 anos que estava no carro com os tios e quatro primos, todos eles assassinados pelo exército de Israel. O veículo foi alvejado 355 vezes. O filme A Voz de Hind Rajab, dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, é uma dramatização de eventos reais e utiliza gravações verídicas da tentativa de resgate da criança. Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza, o longa-metragem concorre ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A brutalidade da situação contrasta com a inocência de Rajab. “Vem me buscar”, ela repete. Ela está escondida debaixo do banco, sozinha, sem água ou comida. Enquanto os voluntários se revezam para manter a menina na linha e tentar acalmá-la, a equipe do Crescente organiza o envio de uma ambulância ao local ocupado pelos israelenses. A missão é complexa e envolve negociações com o exército, a Cruz Vermelha, na Suíça, e autoridades palestinas. A autorização é necessária para que as ambulâncias não virem alvos militares – o que já custou a vida de dezenas de socorristas. Conforme as horas passam, Rajab ganha consciência de sua situação. O barulho de tiros não cessa. Em nenhum momento o filme exibe cenas da criança no carro, apenas sua voz. Na ligação, ela diz que seus parentes estão mortos e que o exército irá matá-la também. Ela narra a aproximação de tanques israelenses. “Estou com medo. Vou morrer. Por favor, vem me buscar”, ela pede novamente. A certa altura, já sem saber o que dizer à criança, a voluntária Rana Faqih começa a recitar o Alcorão Sagrado, enquanto Rajab repete os versos. É, talvez, a cena mais emocionante do filme. “Você recita muito bem”, a menina diz, ao final da oração. Rajab suportou o terror por cerca de três horas, até parar de responder. O genocídio perpetrado por Israel está fartamente documentado na imprensa e nas redes sociais, produzindo imagens apavorantes. Este filme, porém, prova que sempre há espaço para mais sofrimento. Escutar uma criança de 5 anos narrando a iminência da morte dá a real dimensão da crueldade imposta ao povo palestino. |
“Desde 6, 7 aninhos que Miguel já ficava sozin, que jeito? Não interessava formar companhia pra bater bola. Ficava da hora que voltava da escola até a hora que eu chegava do trabalho, vendo desenho animado, pintando, lendo história de Turma da Mônica que eu trazia da Central.” Assim a narradora de Céu de Miguelzin – conto de Jeovanna Vieira publicado na edição de fevereiro da piauí –, descreve seu filho, um menino solitário e afetuoso que adora pintar e que está sempre “de olho virado pro alto, pras nuvem”. Trabalhando de empregada doméstica para uma artista plástica da elite, a narradora encontra formas de proteger e estimular o talento do filho, mesmo quando ele não é notado pelos outros, ou quando ela mesma não pode estar com ele. Com um olhar generoso, mas ao mesmo tempo cético, ciente da hipocrisia das relações entre classes sociais distintas, Vieira narra a trajetória dessa mãe e seu filho com realismo, mas também uma dose de esperança. |
Enviado por Revista Piauí |
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