O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, saiu fragilizado após deputados bolsonaristas ocuparem por mais de 30 horas a mesa diretora do plenário, impedindo-o de assumir sua própria cadeira. O episódio, que teve início após Alexandre de Moraes decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, expôs a falta de comando de Motta sobre a Casa e contrastou com a postura firme do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, analisam Thais Bilenky e José Roberto de Toledo.
A crise começou quando Motta estava em agenda na Paraíba, na primeira semana útil pós-recesso parlamentar. "Só isso já diz muito, né?", ironiza José Roberto de Toledo no podcast, destacando a ausência do presidente em momento crítico.
Deputados do PL e do Novo ocuparam a mesa diretora de terça para quarta-feira, fazendo revezamento durante a noite. "Sentaram na cadeira dos presidentes e falaram 'daqui eu não saio, daqui ninguém me tira'", relata Thais Bilenky. Enquanto isso, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, articulava com líderes do Centrão o apoio ao chamado 'pacote de paz' bolsonarista, que incluía anistia aos condenados do 8 de janeiro, impeachment de Alexandre de Moraes e o fim do foro privilegiado.
O Centrão respondeu parcialmente às demandas. Ciro Nogueira se posicionou, relata Bilenky: "A Anistia, ok, vamos trabalhar por isso, mas o impeachment do Alexandre de Moraes não. Não tem voto, não vai dar". Com a pressão, líderes como Dr. Luizinho (PP), próximo a Motta, acabaram cedendo.
O momento mais dramático ocorreu quando Motta finalmente tentou retomar sua cadeira. A sessão estava marcada para às 8:30h da noite, mas somente às 10h ele conseguiu entrar no plenário, encontrando a mesa diretora ainda completamente ocupada pelos bolsonaristas.
"Quem manda na Câmara?", perguntou Toledo a pessoas que trabalham em Brasília: "foram dez respostas, e nenhuma delas foi o Hugo Motta", revela, comparando o presidente a "uma taquara verde" que 'balança, treme, mas não quebra, porque tem uma infinita capacidade de se vergar às pressões'.
"Não serve para nada um pescador que não comanda a pescaria, que é a situação do Hugo Mota hoje. Ele é o presidente da Câmara, mas não manda na Câmara, não comanda, não consegue nem sentar na própria cadeira", critica o colunista do UOL.