Lula demonstra estar revigorado politicamente após eleger Donald Trump como novo adversário central, analisou José Roberto de Toledo no A Hora. Em um momento de ânimo recuperado, o presidente prepara discurso para a Assembleia Geral da ONU, articulando ações com Modi, da Índia, Xi Jinping, da China, Putin, da Rússia, e Macron, da França, para fortalecer o multilateralismo e reposicionar o Brasil no cenário internacional.
Recentemente, Lula resumiu a situação a interlocutores de confiança em um encontro privado, conta Toledo: "Eu sempre disse que neste ano e em 2026 a gente colheria o que plantou. E ainda apareceu o fertilizante Trump pra acelerar." Não é a primeira vez que o Lula usa a metáfora do plantio e da colheita na seara política, ressalta o colunista.
Para Toledo, o vídeo do presidente subindo a rampa ao som da trilha sonora do filme "Rocky - Um Lutador" reflete o atual estado de espírito de Lula, mais animado do que em meses anteriores.
Esse vídeo traduz o Lula candidato, em campanha, mas também traduz um pouco o estado de espírito dele atualmente, que eu acho que é bem diferente do que era algumas semanas atrás, ou meses atrás, quando estava naquele rame-rame do governo tomando paulada no Congresso, não conseguindo fazer nada e tal. Quem deu essa dose renovada de vigor para o Lula foi a vontade dele de enfrentar alguém maior que ele mesmo.
Ao focar em Trump, Lula deixa Bolsonaro no passado, e avalia que o embate da hora é outro, mais importante, mais simbólico: a Assembleia Geral da ONU, que ocorre em 23 de setembro, em Nova York. Lula, como manda a tradição, será o primeiro chefe de Estado a discursar. Trump virá logo em seguida.
Segundo o colunista, o presidente planeja fazer um discurso de defesa do multilateralismo, contra o unilateralismo do Trump. "Não sei até que ponto ele vai ser explícito, mas deve ser um discurso forte vendendo essa ideia de que enquanto o Trump vai lá e rasga as relações entre nações e dentro das nações, fomentando com a ajuda dos traidores da pátria, tipo Eduardo Bolsonaro, a divisão interna dos países para dificultar a reação às medidas absurdas que ele impõe, ele também tenta dissolver as alianças entre países que existem, como por exemplo os BRICS", diz Toledo.
Para fortalecer essas relações, o petista fez uma maratona diplomática, avalia Toledo. " Lula passou a mão no telefone e ligou para o Narendra Modi... combinaram um reforço no comércio bilateral entre Brasil e Índia, confirmaram que o vice-presidente Alckmin vai para lá no final desse ano e que ele próprio, Lula, vai fazer uma visita à Índia no começo de 2026, tentando começar a articular uma frente anti-Trump", continua o colunista.
Entretanto, a situação de Lula também tem seus riscos. Trump, que discursará depois do presidente brasileiro na ONU, terá a chance de dar uma resposta imediata. Do lado econômico, a tensão com os EUA pode encarecer exportações e pressionar setores importantes. "Tem uma série de repercussões negativas que podem vir a atrapalhar esse plano do Lula", pontua Toledo.
"Por outro lado, você tem o Lula retomando um papel que ele não tinha e uma proeminência global que ele não tinha desde 2010", avalia o colunista.