Quando essa denúncia sobre agentes da inteligência ajudando Eduardo chegou até nós, confesso: soou como ficção. Mas começamos a cavar. Fontes foram ouvidas, documentos lidos, conexões mapeadas. E tudo começou a ficar interessante.
Os detalhes que ninguém vê
André Valdez, agente da Polícia Federal que está em Arlington, no Texas, conseguiu uma licença não remunerada em 16 de abril, menos de um mês após Eduardo dizer que iria “se exilar” no país norte-americano.
Valdez é especialista em escuta ambiental, que é a instalação de aparelhos para captar áudios de forma escondida. Ele era responsável, inclusive, por fazer varreduras em gabinetes de autoridades, como o do ministro Alexandre de Moraes, segundo fontes com quem conversei.
Confirmar esses detalhes demandou uma busca minuciosa, pois os dados nem sempre são públicos. Com a ajuda de fontes e técnicas de jornalismo investigativo, conseguimos documentos que eles não queriam que a gente revelasse, incluindo a função do agente Valdez dentro da Inteligência da PF.
Nem toda tentativa vira furo jornalístico. Para uma investigação como essa, seguimos diferentes caminhos e abrimos várias linhas de apuração. Nem todas levam a algum lugar relevante. Muitas vezes, gastamos muito tempo pesquisando histórias que não chegam a lugar algum.
Assisti a horas de cultos da igreja frequentados pela agente da PF Letícia Padilha em Arlington, na tentativa de conseguir alguma informação nova. Resultado? Nada muito relevante. Padilha foi para os Estados Unidos com o agente Valdez, com quem é casada, e também trabalhava na inteligência da PF.
Cheguei aos endereços que a agente Padilha frequenta por meio de publicações públicas nas redes sociais (que foram apagadas após a publicação da nossa reportagem, vale dizer) e verifiquei que eles estão localizados a poucos minutos de carro de locais ligados a Eduardo Bolsonaro e sua esposa, Heloísa. Também descobri uma informação bastante relevante: que o ex-chefe dela foi um dos indiciados no inquérito da Abin Paralela.
O "outro lado" que se esconde
Depois que terminamos a investigação, chega uma parte que parece simples, mas é igualmente desafiadora e, muitas vezes, frustrante: ir atrás do outro lado, entrar em contato com as pessoas investigadas e ouvir as explicações delas.
Nesse caso dos agentes da inteligência, tinha uma dificuldade extra: Valdez é muito discreto nas redes sociais. Eu precisava de um contato dele nos Estados Unidos e minhas fontes não tinham essa resposta. Mas eu precisava falar com ele. Após um dia inteiro de pesquisa, encontrei o contato telefônico dele escrito à mão em um procedimento administrativo que ele sofreu na PF em 2012, quando foi suspenso por 90 dias depois de xingar um delegado.
Ele me disse apenas que não compartilharia informações dele e da sua família. “Você está insinuando que eu estou envolvido de alguma forma nessa trama”, escreveu.
A apuração não acaba com a publicação
Uma coisa que aprendi desde que cheguei ao Intercept é que a publicação da reportagem não é o fim da linha. É só o começo. Precisamos continuar acompanhando a história e não deixar que ela seja esquecida. Não queremos que o texto traga apenas audiência e engajamento nas redes sociais: queremos que nossa investigação provoque transformações concretas.
Os agentes da PF seguem sem dar respostas satisfatórias aos nossos questionamentos detalhados. O deputado de extrema direita e amigo do casal, Ubiratan Sanderson, do PL, ignorou nossos contatos e segue em silêncio. Eduardo também.
Mas nós seguimos aqui, apurando a próxima denúncia. E te adianto: essa história já tem desdobramentos. Mas você pode imaginar que não é nada fácil cobrir esse assunto.
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