 | By pozzana on Agosto 20, 2025 |
Reintrodução da onça-pintada: a Panthera onca, maior felino das Américas, desapareceu de grande parte do Sudeste brasileiro devido à caça e à destruição de habitats. Hoje, programas de reintrodução buscam restaurar sua presença e suas funções ecológicas. A reintrodução da onça-pintada no Sudeste brasileiro
20/8/2025 :: Marco Pozzana, biólogo A onça-pintada (Panthera onca) já ocupou vastas áreas do Brasil. Entretanto, ao longo do século XX, pressões humanas reduziram drasticamente sua distribuição no Sudeste, levando ao desaparecimento da espécie em estados como Rio de Janeiro, Espírito Santo e partes de São Paulo (Morato et al., 2013). Atualmente, programas de conservação buscam reverter esse quadro por meio da reintrodução planejada. Nesse sentido, iniciativas de manejo populacional e restauração de habitats com novos corredores ecológicos tornaram-se fundamentais para restaurar a presença desse predador no Sudeste. De fato, o trabalho tem mostrado resultados: a espécie voltou a ser registrada no estado do Rio de Janeiro após mais de 50 anos. “A reintrodução da onça-pintada no Sudeste brasileiro representa não apenas a recuperação de uma espécie, mas também a restauração de processos ecológicos essenciais.” (Morato et al., 2018)
O papel ecológico da onça-pintadaA onça-pintada desempenha um papel central como espécie-chave. Desse modo, ao regular populações de herbívoros e mesopredadores, ela mantém o equilíbrio trófico dos ecossistemas (Estes et al., 2011). Além disso, sua presença indica a integridade dos ambientes, já que o felino necessita de extensas áreas de floresta preservada e abundância de presas.  Panthera onca está quase ameaçada segundo a IUCN e populações estão em queda. Lawrence Wahba Consequentemente, a ausência prolongada da espécie no Sudeste provocou desequilíbrios na fauna, favorecendo o aumento descontrolado de algumas populações animais (Jorge et al., 2013). Portanto, a reintrodução da onça não se limita a devolver um ícone da biodiversidade, mas também a restaurar funções ecológicas essenciais. Ademais, como espécies bandeira mobilizam a opinião pública, o retorno da onça pode estimular a valorização social das áreas protegidas. “Reintroduzir grandes predadores exige planejamento de longo prazo, pois envolve desafios genéticos, sociais e ecológicos que ultrapassam os limites das áreas protegidas.” (Paviolo et al., 2016)
Desafios e estratégias de reintroduçãoApesar dos benefícios, a reintrodução apresenta desafios complexos. Antes de mais nada, é preciso avaliar geneticamente os indivíduos candidatos, para garantir diversidade e evitar problemas de consanguinidade (Eizirik et al., 2001). Além disso, a adaptação ao novo ambiente exige áreas extensas, conectividade entre fragmentos e controle de atividades humanas como caça e desmatamento (Morato et al., 2018).  “A onça-pintada é símbolo da Mata Atlântica e seu retorno fortalece a conservação de um dos biomas mais ameaçados do planeta.” (ICMBio, 2020) Por outro lado, experiências recentes em reservas do Rio de Janeiro e do Espírito Santo mostram avanços promissores. Graças à criação de corredores ecológicos, ao monitoramento por rádio-colares e ao envolvimento de comunidades locais, alguns indivíduos já foram reintroduzidos com sucesso (Paviolo et al., 2016). Nesse contexto, a educação ambiental emerge como aliada essencial, pois reduz conflitos e fortalece a aceitação social do predador. “A ausência da onça-pintada no Sudeste por mais de meio século deixou uma lacuna ecológica que apenas sua volta pode preencher.” (Beisiegel, 2009)
PERSPECTIVAS PARA O FUTUROÀ medida que os projetos avançam, cresce a possibilidade de estabelecer populações viáveis de onças no Sudeste. Entretanto, o sucesso dependerá da cooperação entre governos, pesquisadores e sociedade civil. Portanto, a reintrodução deve ser vista não como um fim, mas como parte de um esforço contínuo de restauração ecológica. Afinal, trazer de volta a onça-pintada significa também resgatar parte da identidade natural brasileira.
Fontes e referências:- Eizirik, E., Kim, J. H., Menotti-Raymond, M., Crawshaw, P. G., O'Brien, S. J., & Johnson, W. E. (2001). Phylogeography, population history and conservation genetics of jaguars. Molecular Ecology, 10(1), 65–79.
- Estes, J. A., Terborgh, J., Brashares, J. S., et al. (2011). Trophic downgrading of planet Earth. Science, 333(6040), 301–306. DOI: 10.1126/science.1205106
- Jorge, M. L. S. P., Galetti, M., Ribeiro, M. C., & Ferraz, K. M. (2013). Mammal defaunation as surrogate of trophic cascades in a biodiversity hotspot. Biological Conservation, 163, 49–57.
- Morato, R. G., Beisiegel, B. M., Ramalho, E. E., et al. (2013). Avaliação do risco de extinção da onça-pintada Panthera onca no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 3(1), 122–132.
- Morato, R. G., Stabach, J. A., Fleming, C. H., et al. (2018). Space use and movement of a neotropical top predator: The endangered jaguar. PLoS ONE, 13(12), e0208152.
- Paviolo, A., De Angelo, C., Ferraz, K. M. P. M. B., et al. (2016). A biodiversity hotspot losing its top predator: The challenge of jaguar conservation in the Atlantic Forest of South America. Scientific Reports, 6, 37147.
- Quigley, H., Foster, R., Petracca, L., Payan, E., Salom, R. & Harmsen, B. 2017. Panthera onca (errata version published in 2018). The IUCN Red List of Threatened Species 2017: e.T15953A123791436. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2017-3.RLTS.T15953A50658693.en. Accessed on 20 August 2025.
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