Para que você não tenha que ler, vou explicar: o tal “Dossiê Moraes” já começa com uma manipulação clara ao apresentar o chamado Placar de Ofensas, que lista mais de 300 supostas violações de princípios constitucionais associadas a 77 atos que são considerados como “abusos” cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes.
Para cada ação de Xandão questionada pelo dossiê, é atribuído um rol extenso e inflacionado de princípios, como liberdade de expressão, devido processo legal, proporcionalidade, separação de poderes, imparcialidade judicial e dignidade da pessoa humana.
Dessa forma, o documento cria a falsa impressão de que o STF estaria sistematicamente violando uma enormidade de direitos. Essa estratégia não só infla artificialmente os supostos “abusos”, como também banaliza o significado dos princípios constitucionais.
No mundo paralelo do dossiê, até operações da Polícia Federal contra suspeitos de financiar uma tentativa de golpe são tratadas como abusos de autoridade de Moraes.
Três fases da Operação Lesa Pátria, por exemplo, são mencionadas como exemplos de arbitrariedades.
Uma delas, a 23ª fase, é incluída no dossiê com o parecer de uma suposta “especialista” jurídica, a advogada Gabriela Ritter. O material omite um conflito de interesse: ela é filha de Miguel Ritter, bolsonarista condenado a 14 anos de cadeia e um dos alvos daquela fase da operação.
Já a 25ª fase, que mirou empresários que bancaram acampamentos golpistas e encontrou armas, dinheiro e documentos, é descrita como “prisão sem denúncia”, ignorando que prisões cautelares são medidas legais previstas para evitar obstrução da justiça ou fuga.
Sobre os abusos da 26ª fase da Lesa Pátria, contra suspeitos de lavagem de dinheiro para atos antidemocráticos, o dossiê se supera: cita Elon Musk como especialista para comprovar a injustiça, dizendo que, dias depois dessa operação, o bilionário falou sobre a censura no Brasil. O tweet mencionado, porém, passa longe de falar sobre a ação da PF.
O dossiê, claro, também repete a velha distorção da extrema direita sobre o conceito de liberdade de expressão. Quase todos os supostos “abusos” têm essa alegação, mesmo em casos de incitação à violência, convocação de atos golpistas ou ataques sistemáticos à democracia.
Bloqueios e suspensões de perfis em redes sociais, como os de Allan dos Santos e outros, além de medidas contra plataformas como Telegram e X (antigo Twitter), são todos tratados como censura. Zero novidade.
Mas o site não se limita a divulgar o documento enviesado; ele convida o público a se tornar co-autor de um pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes, que segundo o próprio site será apresentado em 8 de setembro de 2025.
A ação antecipa a estratégia da extrema direita para o próximo mês, aproveitando que o 7 de setembro deve ocorrer muito próximo ao julgamento da condenação de Jair Bolsonaro, tentando usar esse momento para pressionar e dar andamento ao impeachment.
Para assinar, o site pede dados pessoais como nome completo, CPF, telefone, e-mail, CEP, cidade e estado — informações que não são necessárias para um processo formal de impeachment.
Na prática, é uma captação de leads para o Partido Novo e aliados, usando a mobilização política como pretexto para construir um banco de dados com fins eleitorais e partidários, sem transparência sobre esse uso.