Parecem infos do início do século passado, mas são de uma pesquisa da IPSOS, de agora, feita com 23 mil pessoas, globalmente. Os meninos e homens que acreditam nas afirmações acima têm entre 14 e 31 anos. São da Gen Z, uma geração que cresceu vendo cada vez mais mulheres com direitos respeitados, trabalhando e tocando a vida - o que, para gerações anteriores, sequer parecia possível.
Os números confirmam o que temos visto claramente nas redes sociais (aqui um exemplo horroroso, de muitos) e no mundo aqui fora (o caso da menina estuprada por cinco homens em Copacabana ilustra bem o contexto): meninos e homens jovens têm se mostrado mais conservadores e misóginos, até mais do que a geração anterior.
E por que isso acontece? Hipóteses (e muitas opiniões) não faltam, mas o que já existe de pesquisas que nos ajudem a entender onde estamos?
Uma das comprovações mais contundentes que encontrei vem do trabalho da pesquisadora Alice Evans, do King's College de Londres, que estuda esse tema há anos. As pesquisas de Alice confirmam a tese de que status tem um lugar importante na vida dos homens, e três grandes marcadores de status - boa formação, casa própria e casamento - ficaram muito mais difíceis de alcançar nas últimas décadas.
É cada vez mais difícil entrar em uma faculdade boa - o que seria garantia de bons empregos e, consequentemente, maior renda. A moradia ficou mais cara, com a distância entre renda e preços imobiliários aumentando. Por último, as mulheres ganharam espaço na educação, no mercado de trabalho e na política, além de autonomia financeira e do direito de escolher como viver.
Alice destaca o efeito deste terceiro ponto na vida dos homens:
"Ficou mais difícil encontrar namoradas. Quando a sociedade fica mais liberal culturalmente, mais cabeça aberta e tolerante, as mulheres não têm mais vergonha, não se sentem ridicularizadas ou deixadas de lado por serem solteiras ou não namorarem".Alice Evans, pesquisadora
E com mulheres cada vez mais fortalecidas, sustentar uma família e exercer o papel de provedor, parte do que estruturava a ideia da masculinidade tradicional, parece hoje mais distante para os homens da Gen Z do que foi para seus pais e avós.
E então entra um tempero fundamental para que o cenário atual brote: o ressentimento. "A vida está muito difícil, há de haver algum culpado, esse culpado são as mulheres".
Existe um nome para isso na literatura acadêmica: privação relativa. É a sensação de estar em desvantagem em relação aos outros ou em relação ao que se acreditava merecer. É um sentimento especialmente potente quando se mistura à perda de referências sobre o que significa "ser homem" hoje.
Voltando à Alice. Ela faz uma diferenciação clara entre "sexismo benevolente" (aquele tradicional, em que existe a crença de que as mulheres são incapazes, portanto, os homens devem ser fortes e provedores) e "sexismo hostil", que é o atual: um sentimento de ressentimento pelos avanços das mulheres. É o sexismo hostil que aparece ali em cima, na pesquisa da IPSOS, e que impulsiona a atual misoginia.
Entra em cena, então, a "machosfera", esse ecossistema de podcasts, perfis em redes sociais e canais de YouTube comandados por "manfluencers", que, a partir deste ressentimento, entregam uma narrativa especialmente sedutora a homens que já se sentem rejeitados ou vulneráveis. (vale bater o olho nesta pesquisa, feita na Suíça. Um relatório sobre a misoginia no YouTube confirma essa ideia aqui no Brasil).
Mas, atenção: o conteúdo da "machosfera" não circula apenas como ódio explícito. Ele também aparece travestido de humor, ironia, sarcasmo, suposta autoajuda, conselhos de relacionamento, promessas de valorização masculina e, claro, inúmeras teorias conspiratórias.
Nesse universo, as mulheres são apresentadas como sendo um bloco homogêneo, interesseiro, manipulador e calculista.
Para piorar: no atual modelo de negócios das redes, 80% desses canais no país têm monetização ativa. Para os seguidores, a sensação de pertencer a um grupo injustiçado dá comunidade e identidade. Para os "manfluencers", dá muito dinheiro.
Para piorar2: as redes ampliam tudo isso de maneira bastante distorcida. Este estudo prova o que vemos na prática: que, nas redes sociais, as vozes mais extremas são as que mais se fazem ouvir.
O problema é tão grande, tão violento e, como todos os estudos comprovam, já tão enraizado entre os jovens do mundo todo, que pode ser difícil saber por onde começar. Pais, mães, cuidadores e escolas têm papel central aqui, claro. Precisamos educar meninos seguros, que não entendam as meninas como ameaça. Que tenham como exemplo homens inspiradores.
Mas, fundamental: as big techs, donas das redes sociais, precisam ser penalizadas duramente por cada conteúdo misógino postado. Nem um único post pode passar impunemente.
Ao contrário da mensagem escrita na camiseta de um dos estupradores de Copacabana, homens precisam, sim, se arrepender de seus crimes.
(Colaborou: Bruna Borelli)